cinco
poemas de lau siqueira
o
galo
o silêncio
com suas equações
de estrelas
abre os portais
da madrugada
sob os olhos atentos
do infinito
um quarto de lua
empresta a partitura
ao galo
laranja mecânica
às vezes me desespero
e cometo absurdos
às vezes simplesmente
fico mudo
não sei de onde vim
nem porque assim
me desnudo
( * * * )
suicídio lento
na mobília da alma
os versos que invento
(* * *)
ruído d'água
no rio nascente
música dos peixes
( * * *)
figos
maduros
ai de mim
com essa figueira crescendo dentro
sem saber direito o momento da poda
ou da colheita
ai de mim
que não entendo de árvores que não com
preendo direito o que elas dizem o que fa
zem como agem na hora do corte e
depois
na transcendência das figueiras
nem sei se a casca
grossa no caule leitoso
com o tempo terá uma
fibra impermeável
ai de mim
que percorro a mansidão invisível
como um galo cumprindo o ofício
das manhãs
cerro
da pólvora
(para Sebastião Uchoa Leite)
ando
na verdade
caminhando pela infância
brincando de subir nas árvores e
descobrir o horizonte um pouco
mais longe
nas horas vastas
escrevo versos
nada que seja tão mais
importante que carregar caixotes
na cabeça e despejá-los em algum
buraco de origem não sabida
circunstância
o poema
é sempre um espetáculo
um pouco mais denso
vem de um tempo
longino
onde a memória perdia
o nome das coisas
e as pessoas eram
montarias do futuro