Mormaço

Lucas Holanda



A transpiração nas horas insones
do mormaço que antecede a chuva
nas madrugadas quentes – entrecortadas – 
Sem náusea, sem vento, só o ventilador gira ...
Controlado pelo medo das próprias janelas
Fechadas pelos demônios 
que permanecem do lado de fora
Golpeando-a: “Deixa-me entrar!!!”

Quando me escondo, em meu peito desnudo,
suado e sem lençóis e os dedos tocam a face, 
a boca seca e a voz pela metade contestam:
“Não há o que ver aqui, amigo,
Só as hélices que circulam sobre minha cabeça!”
“Deixa-me ver também as hélices”
“Mas pra quê!?” digo-lhe eu
“Se há tanto vento e vida ai fora!
Fica aí mesmo!
Aqui dentro estou preso!
Há grades em minhas portas,
Me escondo nessas paredes,
Fiz de mim meu próprio exílio...”

“Tu não entendes a solidão!
Ainda tens as hélices...!”

 

 

Imagem: a partir de foto Marcus Prado (clique no nome
para ter acesso à foto original).

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