Agora que a esperança de voltar

a ver-te se tornou em desespero, 

sinto que tudo o que eu aspiro e quero 

é ver de novo o meu antigo lar.

 

Aqui nasci, andei por estes campos, 

em menino brinquei nestas paragens, 

vi nas moitas luzirem pirilampos, 

sonhei com outras terras e paisagens.

 

 

Cruzei os mares, um país amigo 

abriu-me os braços quando o pai morreu. 

Um parente bondoso deu-me abrigo, 

ensinou-me um ofício que era o seu.

 

Depois, tal como faz a borboleta

que se liberta do casulo a esmo,

quis ser alguém e me fazer poeta, 

encontrar meu caminho por mim mesmo.

 

 

Sonhei bastante, mas no sonho havia 

uma certeza que se vinha impor:

de fatalmente conhecer um dia

um grande, imenso e verdadeiro amor.

 

Ouviu-me o céu e te encontrei na terra. 

E ao conhecer a tua forma rara,

vi que a beleza que teu corpo encerra 

era todo o ideal com que eu sonhara.

 

Tu eras a Mulher da minha sorte, 

aquela desde sempre prometida,

por quem enfrentaria a própria morte 

com a força de um amor além da vida.

 

 

E foi em ti que descobri o arcano

segredo que marcava o meu destino:

o nosso amor, por mais que fosse humano, 

chegava um dia a se tomar divino.

 

 

Confesso, eu fui feliz, pois houve instantes 

em que trazia o céu dentro do peito, 

quando te amei, quando éramos amantes, 

quando eras minha e eu era o teu eleito.

 

 

Mas o caminho da felicidade 

está juncado de profundos pégos;

acordou-nos a triste realidade 

daquele sonho que nos punha cegos.

 

 

Pairava sobre o nosso amor a mão

do Destino e uma cruel intolerância, 

que nos forçava a uma separação,

pondo entre nós o abismo da distância.

 

 

E nosso último encontro nos mostrou

que estarmos juntos, sempre, era impossível; 

há um caminho onde vais, outro onde vou

e não conduzem para o mesmo nível.

 

 

Quis voltar aos vergéis de minha infância. 

Aqui encontro paz, minha alma dorme,

e quando chega a noite, aquele enorme 

silêncio vem para aplacar minh' ânsia.

 

 

Mas minha vida é um poço de amargura; 

a saudade me afoga e me consome.

Creio que a minha única ventura

é aquela que carrego no meu nome.

 

 

Sem a tua presença, vivo agora 

apenas de esperar numa ânsia cega,

como o sol que desponta a cada aurora, 

tua chamada que por fim me chega.

 

 

Não fosse a tua voz, de quando em quando, 

no meu ouvido me dizer que, embora

nos foi de todo a vida separando, 

tu tens amor àquele que te adora.

 

Certa vez me disseste ao telefone:

"Não posso mais falar-te. Isto me excita. 

Tu queres que de novo me apaixone

ou que te vá fazer uma visita?"

 

 

 E me senti então como se fora

aquele pobre náufrago sedento, 

a quem se atira a bóia salvadora

ao ver chegar seu último momento.

 

 

Tanto fiquei na solidão sofrendo

que Deus, um dia, a mágoa me atenua.

E chegaste de longe me dizendo:

"Agora venho para ser só tua".

 

 

Mas, como sempre, o céu me impunha um termo: 

Era tarde demais! Desesperante!

Estava reduzido a um pobre enfermo 

quem fora outrora o teu fogoso amante.

 

 

Essas viagens incríveis que sonháramos, 

já não podiam realizar-se mais:

em vez das ilhas, dos hotéis, dos páramos, 

iríamos apenas a hospitais.

 

 

 

E eu não pude, eu não quis te confessar 

que a minha vida estava por um fio;

e, para te esconder o meu penar, 

mostrei-me alegre e fiz-te um desafio,

 

 

dizendo-te a sorrir que o nosso amor 

carecia da força que o mantinha;

que eu já não via mais com dissabor 

o facto de não seres toda minha.

 

 

E enquanto olhavas para os lábios meus 

dizendo frases tão cruéis assim,

só te restou um beijo como adeus, 

achando que este amor chegara ao fim.

 

 

E foi melhor voltares. Sofredores

seríamos nós dois nesta quizília

de sempre conviver com dois amores:

o meu por ti, o teu pela família.

 

 

Um longo adeus selou tua partida, 

selando ao mesmo tempo a minha sorte.

Então voltaste para a tua vida

e eu comecei a me embrenhar na morte.

 

 

Para que prolongar esta agonia?

Se algo há na vida que eu ainda queira

é que te possa revelar um dia

o quanto que te amei a vida inteira.

 

 

A vida que me resta é muito pouca, 

mas quero, no meu último momento,

morrer tendo teu nome em minha boca

e tua imagem no meu pensamento.

 

 

E se te deixo um pouco da minha arte, 

não há de ser a morte o meu desfecho,

pois saberás que não deixei de amar-te 

quando leres os versos que te deixo.

 

 (In Um amor além da vida. Rio de Janeiro: Oficina Editores, 2005, p. 56-64)

Arte e editoração 

Cláudia Cordeiro

Mid: Eu sei que vou te amar, Vinícius de Moraes

 

www.plataforma.paraapoesia.nom.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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