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Cunha
Melo, o outro poeta de Pernambuco para o Brasil
José Nêumanne
Com três livros reunidos num volume, membro da geração pernambucana de 65 é, afinal, editado no Sudeste, após publicar 12 livros em Recife O lançamento do livro Dois caminhos e uma oração
(352 pp., R$ 34) representa, ao mesmo tempo, uma revelação e um resgate. Seu autor, o
sociólogo e jornalista pernambucano Alberto da Cunha Melo, deixa de ser, aos 62
anos de idade, uma espécie de devoção secreta de colegas que o respeitam como
um dos maiores poetas da língua portuguesa em qualquer lugar ou época, porque
tiveram acesso a edições semiclandestinas saídas a lume apenas às margens dos
rios Capibaribe e Beberibe, para ser, enfim, editado no eixo Rio-São Paulo, por
iniciativa de A Girafa Editora. Cunha Melo é da mítica geração
de 65, revelada por César Leal, a mesma a
que pertence Marcus Accioly. Mas o padrão pelo qual se pode
medir a importância de sua obra poética está alguns furos acima de
seus contemporâneos, por mais respeitados que eles merecidamente o
sejam. Idéia dessa medida pode ser dada pelo entusiasmo com que o
poeta Bruno Tolentino o selecionou em entrevista dada nas páginas
amarelas da revista Veja, como um dos raros poetas de indiscutível qualidade na poesia
brasileira contemporânea. Ou pelo acadêmico Ivan Junqueira, que vislumbrou
em Meditação sob os lajedos, seu livro lançado
no ano passado pela editora Universitário
do Rio Grande do Norte - EDUFRN, em co-edição com a
Edições Bagaço, do Recife, um brilho,
mais que raro, único entre os dez finalistas do Prêmio Portugal Telecom
de Literatura a ser concedido ao melhor livro de 2003. Esse brilho
foi percebido por jurados de várias tendências que escolheram os finalistas
- do crítico Fábio Lucas, o primeiro a falar de sua obra no Sudeste,
ao poeta Anderson Braga Horta que, residente em Brasília, é atento
garimpeiro da literatura provinciana brasileira; de Deonísio da Silva,
o autor de A Vida íntima das palavras, que, em São
Carlos, recebeu pelo correio o exemplar da obra rara, a Alcir Pécora,
o respeitado exegeta de Vieira, que, após ler os poemas da coletânea
na Internet, em Campinas, a selecionou para ser premiada. Esses especialistas
concordam (na certa e com correção) com o professor Alfredo Bosi, da USP, que
escreveu sobre Yacala, poema-livro
lançado em edição artesanal impressa em Olinda para 200 amigos: “o Nordeste nos
dá mais uma vez, depois do paraibano Augusto dos Anjos (presente de modo
subliminar na atmosfera de várias passagens de Yacala), do alagoano Jorge de Lima e dos pernambucanos Carlos Pena
Filho e João Cabral, a sua lição de dor que se faz beleza, e arranca de si
forças para construir uma poesia como a de Alberto da Cunha Melo, cujo nome
secreto é – resistência.” Dor, beleza, força e
resistência são as senhas para a leitura da poesia densa, sofrida, vivida e
parida nos dois volumes citados, aos quais foi acrescentado um terceiro, Oração pelo poema, para completar o`????A ?
tríduo encaixado no volume que acaba de ser lançado no resto do Brasil, graças,
sobretudo, à maneira militante com que Bruno Tolentino, um maledicente temido
das letras brasileiras, batalhou pelo atrasado, embora não tardio,
reconhecimento do engenho do poeta maior e ao passado de monge beneditino do
editor responsável pelo feito. Este, o carioca radicado na Paulicéia Pedro
Paulo de Sena Madureira, o conheceu em sua passagem pelo mosteiro de São Bento
em Salvador e pelas mãos de um mestre afeito às letras, Dom Timóteo Amoroso
Anastácio. E, ao preparar os originais de Dois
caminhos e uma oração, Madureira viu-se definitivamente arrebatado pela
pungência dolorida de versos como “pelo temor da eternidade, / perguntaste a
teu confessor / por que a resistência sempre fora / desperdício de tanta dor”
ou pela cadência de uma estrofe como “Para os mais velhos, as escadas / vão
ganhando novos batentes; / as estradas, novos quilômetros; / as lembranças
novos ausentes”. Isso seduziu o editor que lançou Adélia Prado, por
recomendação de Drummond, a ponto de fazê-lo exclamar ao fim da leitura: “Céus,
um poeta à altura de João Cabral!”. Tal observação, diga-se, não soaria
estranha ao outro pernambucano que lhe serviu de parâmetro. Editado no Sudeste graças à generosidade de Antônio Campos, que dirige o Instituto Maximiano Campos (em homenagem a seu pai, também poeta e ficcionista da Geração de 65) e à pertinácia de Cláudia Cordeiro, professora de literatura, musa, mulher e exegeta de Cunha Melo, poeta cuja obra encena “a distância, a perda e a impossibilidade de evasão” (na precisa definição do prefaciador Mário Hélio, poeta e crítico pernambucano), Dois caminhos e uma oração é um livro que, enfim, faz justiça a um poeta de 12 livros publicados e poemas coletados em 23 antologias e escreveu: “Conheço minha letra, escrevo / para mim, escrevo à vontade”. Para gáudio geral de todo leitor exigente e de bom gosto.
José Neumanne
é jornalista, escritor e editorialista do Jornal
da Tarde. |