Nasci na cidade mineira de Carangola, em 17 de novembro de 1934.
Meu pai, o advogado Anderson de Araújo Horta, e minha mãe, Maria Braga
Horta, eram professores e poetas. Assim, criado num ambiente de
respeito à cultura e amor aos livros, posso dizer que recebi em casa
mesmo os primeiros estímulos literários.
A família morou, sucessivamente, em Carangola, Manhumirim, Belo
Horizonte, novamente em Manhumirim, depois em Resplendor, Mutum, outra
vez em Carangola. Já então acrescida dos manos Arlyson, Augusto
Flávio e Maria da Glória. Em 1942 fomos para Goiás, passando três
anos na antiga e dois na nova capital do Estado. Em Goiás Velho
nasceu o caçula, Goiano.
De volta a Minas, novo périplo em redor de Manhumirim, onde residiam
meus avós maternos: Aimorés, Mantena, Lajinha, cidades que eu
visitava nas férias, pois, tendo começado o ginásio em Goiânia, fiz,
nesse período (de 1947 a 1953, para ser exato), as três últimas
séries em Manhumirim e o clássico em Leopoldina. Já me
encontrava no Rio de Janeiro, cursando Direito, quando para lá se mudou
a família, em 1956.
Transferi-me para Brasília em julho de 1960, como redator da Câmara
dos Deputados, a cujo serviço fora admitido em 1957 como datilógrafo.
Os irmãos foram também atraídos pelo Planalto Central, a que
finalmente aportaram os pais, em 15 de novembro de 1964.
Exerci ainda o jornalismo e o magistério, tanto no Rio quanto em Brasília.
Meu primeiro trabalho, contudo, foi como securitário, na Velha Capital,
a não ser pelos meses em que lecionei no Seminário de Leopoldina,
cidade em que prestei, após o curso clássico, o serviço militar
(tiro-de-guerra).
Já radicado em Brasília, casei-me no Rio, em 1962, com a capixaba (de
Cachoeiro de Itapemirim) Célia Santos. No ano seguinte nasceram
os gêmeos, brasilienses, Anderson e Marília.
Meus pais aqui faleceram, mamãe em 1980, papai cinco anos depois.
As primeiras impressões literárias que retenho datam da cidade de Goiás:
uma página de Humberto de Campos em que o autor, na primeira pessoa,
confessava um furto de menino —o que me deixou consternado—; e o
“Pequenino Morto”, de Vicente de Carvalho, cujos melodiosos
hendecassílabos encheram minha alma infantil de tristeza. Em Goiânia
me tornei leitor voraz de histórias em quadrinhos e de todos os livros
que havia em casa — Gato Preto em Campo de Neve e Clarissa, Ecce Homo
e Assim Falava Zaratustra, Meu Destino É Pecar (isso mesmo, o livro
proibido de Nélson Rodrigues) e o mais em que pude pôr a mão e os
olhos. A impossibilidade de compreender tudo não era obstáculo
ao entusiasmo do jovem devorador de letras.
Por essa época, apesar da força atrativa dos quadrinhos, que me guiou
a mão numa série de rabiscos, até mesmo numa historieta de texto e
desenhos típicos, o autor mais amado foi, sem dúvida, Monteiro Lobato,
por sua obra infanto-juvenil, que reputo ainda hoje incomparável.
Mas quem me levou a escrever poesia, conforme tenho repetido em páginas
de depoimento literário, foi mesmo Castro Alves. As primeiras
tentativas, frustradas, resultantes em prosa ritmada, datam de
Manhumirim, ao tempo em que freqüentava o Colégio Pio XI. As
primeiras realizações, de Leopoldina, em 1950.
A outra grande influência de então foi Bilac. E, depois, tantos
poetas que nem convém enumerar! Dos clássicos aos românticos,
dos parnasianos aos simbolistas, desses aos modernos, que me ensinaram a
quebrar o verso, sem descartar a tradição.
Penso que o poeta não pode deixar de se assenhorear das técnicas do
verso, embora a técnica, obviamente, não seja tudo. Que ao
escritor compete extrair do potencial de sua língua toda a cintilação
que possa, dignificando-a sempre. Que escrever é atividade
intelectual, sim, mas não se esgota no âmbito do intelecto; que o
poeta há de comover-se e comover, sim, mas não se há de entregar,
ingenuamente, à emoção desassistida da inteligência, porque a emoção,
por si só, não é ainda arte, não é ainda poesia. Que a esse
amálgama de pensamento, emoção, sentimento que é o poema não se
deve tolher o voltar-se para a sorte do homem no espaço e no tempo,
seja do ponto de vista filosófico, seja do social; pois à poesia, arte
da palavra, interessa necessariamente tudo o que de humano se possa
representar nela. E que, portanto, a arte do poeta há de ser mais
complexa, mais completa, mais abrangente e mais profunda do que tendem a
fazê-la os jogos —algumas vezes brilhantes— a que pretendem
reduzi-la correntes revolucionárias.
Isso posto, confessadas, via de conseqüência, as minhas próprias
limitações, passo, com a possível humildade, ao balanço de quatro décadas
de produção poética —omitida, quase totalmente, a inicial—, balanço
em que, de algum modo, se traduz a seleção de poemas que ofereço ao
leitor.