Arnaldo Xavier

São Paulo 

Ser flor e ser capim

 

Ser flor, ser capim
(adeus, Arnaldo Xavier)

A última vez que estive com Arnaldo Xavier - poeta dos bons, homem de grande coração rebelde e incansável militante dos movimentos negros - foi há cerca de dez anos, quando me entregou um exemplar do “Manual de sobrevivência do negro no Brasil”, que fez com o chargista Maurício Pestana.

Fiquei sabendo da notícia da morte de Arnaldo Xavier (aos 57 anos, de enfarte, anteontem) através de seu primeiro amigo de infância: o também poeta, também paraibano, também radicado em São Paulo, José Nêumanne. Só deu tempo de Arnaldo ver as comemorações dos 450 anos da megacidade. Parceiro de Gereba (em muitos e muitos títulos, como “Forró da Baronesa”, “Nas asas do Velho Chico” e “Arrasta-pé da Fiel”), seu último trabalho com o compositor baiano foi justamente um frevo em torno dos 450 anos da Paulicéia eternamente desvairada.

(A Baronesa homenageada na parceria Gereba-Arnaldo Xavier é a forrozeira Lu Brandão, mãe de Branco Melo, do Titãs).

Arnaldo nasceu no bairro de Santo Antônio, em Campina Grande, cuja prefeitura - no mínimo dos mínimos - tem a obrigação de promover um evento com a revisão de sua obra. Por que? Antes de ir pra São Paulo, Arnaldo teve intensa participação no movimento cultural rebelde de Campina (foi quando o conheci, juntamente com Nêumanne, Regina Coeli, Bráulio Tavares, Rômulo Azevedo, Aderaldo Tavares Ribeiro e outros, numa aventura anarcoestetoideológica que redundou também na montagem de um espetáculo musical chamado “Pindorama, idolatrina, salve, salve”).

Gosto muito de um livro de Arnaldo Xavier chamado “A roza da recvsa”, lançado em São Paulo, na década de 80, que tem um curto poema, que vejo como “poesia filosófica” e que dá título à coluna de hoje: “É fácil ser Flor / ou / ser Capim / é fácil /ser flor / ou ser Capim / é fácil ser Flor ou ser Capim / Difícil / é Ser Flor e Ser Capim”.

Faço questão de registrar trecho de email enviado por José Nêumanne: “Morreu anteontem, foi enterrado ontem, mas continua vivo e vívido em minha memória emotiva. Ele foi do Cineclube Glauber Rocha e do Grupo Levante, em Campina Grande. Aqui em São Paulo, fundou as Edições Pindahyba, com Aristides Klafke e Roniwalter Jatobá. E aqui vivia desde 1969, trabalhando como funcionário da Companhia de Engenharia de Tráfego da Prefeitura de São Paulo. Morreu de enfarte, fazendo o que mais gostava de fazer na vida: escrever. Está enterrado onde sempre quis ficar: no cemitério da Consolação, onde repousam os restos morais de seu herói, Luiz Gama, jornalista abolicionista. Beijão comovido, Nêumanne”.


Carlos Aranha

Correio da Paraíba, 29.jan.2004 - http://www.correiodaparaiba.com.br/ecoisas.html

 

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