Bruno Tolentino - 1941 - 27.06.2007

POEMAS EDITADOS - ENTREVISTAS - HOMENAGENS

 

 

POEMAS EDITADOS

Mundo como Idéia  (fragmentos) 

Ao Divino Assassino 

Os Deuses de Hoje(1995)- Segundo Soneto

Ao Divino Assino - 2ª versão - 27.06.2007

data em que o poeta se encantou

 

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DE ALBERTO DA CUNHA MELO

A BRUNO TOLENTINO

Alberto da Cunha Melo

Conrad abraçou o tufão
e Bruno à voragem se inclina:
com o ar febril dos carmelitas,
abre o hábito de Katharina;

embora lágrima ao relento,
secando à porta de um convento,

não teme a eriçada pelúcia
de tantas onças recheadas
de papel-jornal e de astúcia;

tampa este abismo de opereta
com uma asa de borboleta. 

POR E-MAIL:

DE WALTER RAMOS - <brasilhavanero@gmail.com>

É com grande tristeza que leio esta notícia. Um dos maiores poetas da língua portuguesa (de todos os tempos) se vai. Raro entre os poucos que conhecem o rumo obscuro que o Brasil tem percorrido à inépcia como regra e à ignorância completa. 
Como é parco o horizonte do futuro da poesia no Brasil. Grandes agora só Angelo Monteiro, Alberto Cunha Melo e Jaci Bezerra. Ainda bem que continuam aqui entre nós, acessíveis à possibilidade de interlocução. 
Hoje é um dia triste, Claudia. Um dia muito triste e chuvoso no Recife.
Saudações literárias.
Walter

DE HENRIQUE SILVA - <henriqsilva@uol.com.br>

 

Meu coração sinceramente chora

O silenciar de um luminoso pensamento

Egrégora sensível e filosófica de um tempo

Substanciada num quixote do hoje de outrora.

 

                                           Henrique Silva

 

 

Meus caros amigos do Plataforma / Trilhas,

 

"Meu coração sinceramente chora"... Isto não é apenas o verso de um poemeto grafado sob a ambiência da nota triste sobre o nosso Bruno Tolentino. É sinceridade do coração de um artista que admira um outro artista e lamenta ter que conviver, daqui para frente, com o seu silêncio.

 

Eu me aproximei do Plataforma Para a Poesia (e isso já foi dito) buscando a poesia de Bruno Tolentino que me encantou desde o primeiro momento: seu estro filosófico, erudito, sensível, formal e moderno ao mesmo tempo, sua verve polêmica, sua figura de poeta poeta, farão muita falta ao Brasil.

 

Rio de Janeiro, 27 de junho de 2007, 17 horas e 18 minutos,

Um grande abraço a todos!

Henrique Silva

 

DE FABRÍCIO CARPINEJAR - <carpinejar@terra.com.br>

Quarta-feira, Junho 27, 2007


A ÚLTIMA BALADA DE TOLENTINO

Fabrício Carpinejar

O poeta carioca Bruno Tolentino (Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino) morreu na manhã desta quarta-feira (26/6), aos 66 anos, em São Paulo. A causa da morte, ocorrida às 9h30, foi falência múltipla dos órgãos. Pode lhe servir agora o poema que fez para Anecy Rocha, sua namorada de 1959-1960, irmã de Glauber Rocha e que faleceu tragicamente num poço de elevador, aos 35 anos.

"Senhor, Senhor, o Teu anjo terrível
é sempre assim? Não tens um refratário
à hora do massacre - um mais sensível

que atrasasse o relógio, o calendário?
Ao que parece a todos tanto faz
por quem o sino dói no campanário."

(Anulação e outros reparos)

Valorizado por José Guilherme Merquior e Antonio Houaiss, com referências elogiosas de W. H. Auden e Saint-John Perse, Tolentino passou três décadas na Europa após o golpe militar. Ensinou em Oxford, Essex e Bristol.

Retornou ao país no início dos anos 90, quando ganhou o Prêmio Jabuti por "As Horas de Katharina" (1995), repetindo o feito em 2003 com "O Mundo Como Idéia". Neste ano, concorre na premiação com "A Imitação do Amanhecer".

Ele é autor de diversos livros, como "Anulação & Outros Reparos" (1998), "A Balada do Cárcere" (1996), em que narra sua experiência de 22 meses em prisão de Londres, por porte de drogas, "Os Deuses de Hoje" (1996) e "Os Sapos de Ontem" (1997).

Como homenagem, publico abaixo entrevista inédita que fiz com ele, ao lado de minha mulher Ana Baggio, durante sua passagem por São Leopoldo em 18 de junho de 1997, há dez anos.

SÓTÃO

"Considero a literatura feminina superior à masculina. Cito Orides Fontela (Teia) e Adélia Prado (Bagagem). As mulheres não conseguem fazer poesia e deixá-la na gaveta. Não se contentam com anagramas. Pedem mais ar. Saem do sótão. Querem a sala, o quarto, a cozinha. O homem, se quiser, consegue ficar toda a vida encerrado entre quatro paredes."

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

"Respeito a Academia Brasileira de Letras, como respeito a Igreja e as Forças Armadas. Jamais entraria nela. Teria de mudar meu comportamento. Isso é impossível. Respeito o trabalho de Nélida Pinõn, justamente premiada e injustamente pouca lida no país. Até fiz um trocadilho: Nãoélida Piñon. Ela é uma pessoa extraordinária e merece ser estudada. Aqui no Estado (RS) existe gente boa como o João Gilberto Noll.

POESIA

"A poesia é o celeiro vivo, o refinamento da linguagem. No confinamento, em situações extremas, a necessidade de desaguar, de vir à tona, termina por desmentir a teoria de que ela morreu."

VAIDADE

"Sou vaidoso, como a Vera Fischer. E por que não?"

INFÂNCIA

"Meu avô foi conselheiro do Império e fundador da Caixa Econômica Federal. Na minha infância carioca estive amarrado às normas e convenções. Meu desejo na época era voltar para casa um dia de ônibus e não de chofer. No ônibus é que acontecia as bagunças e o fluxo da garotada. Um dia conseguimos - eu e o meu irmão - convencer a vó por causa de uma falsa doença a ir de ônibus. Para quê? Quando estávamos gostando do vento das janelas e do bafo da multidão, a avó apertou a campainha. O motorista perguntou se ela iria descer. Ela respondeu que não. "Então por que puxou a campainha?", trucou. Ela, com ar majestoso, pediu: "Será que alguém poderia fechar as janelas porque meus netos podem adoecer com o vento no rosto?" Que vergonha."

CRÍTICA

"O que existe hoje é besteira. Uma política de cortesões. Os novos poetas perderam o que de mais rico teriam a oferecer: a pureza do desafio.

Vamos sair do umbigo e olhar para o Nordeste: destaco Alberto da Cunha Melo"

VIDA

"Não consigo dissociar a poesia do mundo. Não creio que a arte da escrita seja uma atividade autônoma. Ela não se separa da experiência da vida. Até no Romantismo os artistas colocaram-se como cronistas. O poeta tem que criar contribuindo com obras para uma raça mais pensante. A literatura não pode perder essas eternas crianças que são os transgressores."

CÂNCER

"Quando os médicos me avisaram que iriam retirar um tumor benigno, fui radicalmente contra. Vão extrair a única coisa benigna que tenho. Se querem realmente fazer isso, pelo menos guardem para apresentar a opinião pública que havia algo de bom em Bruno Tolentino."

em http://fabriciocarpinejar.blogger.com.br

 

DE ASTIER BASÍLIO - <astierbasilio@gmail.com>

Bruno Tolentino no caminho de Beatriz

aos teus pés se apresenta o último círculo.
A capela em que entram é uma neblina.
Há rumores com túnicas, onde os livros
são escritos à mão. O chão que pisas

não permite sandálias, nem recibos.
Nenhuma réplica, ali não há galeria
as imagens são seu espelho e mito,
são vivos os vitrais nesta Sistina

onde a idéia se faz em pedra e signo.
Entre incensos os pés de Deus caminham
como um vento a chamar cada escolhido.

Uma porta se sabe, outra advinha-se.
Cumprimentas os anjos em sua língua.
O teu nome é chamado. E o resto é abismo.

DE JOAQUIM SUSTELO - <jsustel@hotmail.com>

ACRÓSTICO (*)
AO POETA BRASILEIRO BRUNO TOLENTINO
(falecido hoje, 27.06.2007) 

Barco que sai do cais e já não volta
Rumando a um tal porto de mistério...
Uma vaga, outra vaga, que se solta
Não sendo já contudo um caso sério.

O seu vislumbre agora, é cemitério;
Transporta o viajante sob escolta; 
Os sonhos, fossem poucos, ou império,
Levou-os algum vento de revolta...

E no entanto além do quadro triste
Não deixo de dizer que ainda existe
Talvez à sua volta uma magia:

Iludindo o que a vida agora apaga 
Não morrerá porém o que embriaga,
O encanto em sua obra... A poesia.

(*) de alto a baixo lê-se o seu nome, embora 
separado em grupos de 4+4+3+3 letras, por ser um Soneto

Joaquim Sustelo

DE NORMA GODOY - <normagodoy@uol.com.br>

Clau, lamentei deveras a morte de Tolentino.
Principalmente pela nossa identidade poética
com ele. Que o poeta continue criando pela
eternidade!
Um bjo de amiga Godoy

DE W.J.SOLHA - <wjsolha@superig.com.br>

Grande poeta, um abraço por produzir tanta beleza com NOSSA angústia.

 

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