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O jornalista Lazio Kovacs foi conversar com o poeta Ezra
Pound, em Veneza, e entrevistou o silêncio. Pound, um dos
maiores expoentes da poesia moderna mundial, recusou-se a falar
de literatura. Aos oitenta e seis anos, treze dos quais passados
encarcerado como traidor de sua pátria, os Estados Unidos, o
autor do famoso poema inacabado “Cantos”, desencantou-se com
a palavra (após ter feito com ela o que bem quis e através
dela ter alcançado um extraordinário prestígio no Ocidente).
OUTRO POETA, OUTRA VENEZA
Sabedor desse fato, em outra Veneza, a brasileira, um repórter
mestiço aproxima-se com certa timidez de uma velha casa do
Espinheiro, residência atual do poeta Joaquim Cardozo, que
possui inúmeros pontos de coincidência com Pound: poliglota,
vanguardista, descobridor de talentos e, principalmente, grande
poeta. Cardozo, que completa hoje 76 anos, estava vestido com um
leve pijama azulado e conversava com uma pessoa de sua família.
A minha chegada transtornou o ambiente, obrigando as gentis irmãs
do poeta, as “três Marias”, como ele o diz carinhosamente,
a se deslocarem com o televisor portátil para outro aposento
— tudo isso para não incomodar o visitante e dar condições
para realização da reportagem.
A jovial acolhida do autor
de Signo Estrelado e co-autor de Brasília deixa o repórter um
tanto afoito e pronto a aborrecer o próprio Santo de Assis. A
imagem amarga e silenciosa de Pound vai desaparecendo da cabeça
do jornalista e dando lugar a outra, a de um “tio tranqüilo”,
como diria o poeta Geraldino Brasil. Diante de mim está um
homem magro e encanecido, mas cheio daquela paciência
conquistada, a custo de muito desespero triturado, de muito angústia
vencida na própria foz. Apesar de não ter passado pelas
agruras por que passou Pound, o poeta brasileiro foi alvo de
algumas ciladas perversas, de muito mal entendido consciente e
do voluntário esquecimento por parte de alguns críticos e
historiadores da literatura. Mas, ao contrário de Pound, sua
voz continuou límpida e pródiga, como convém a um grande
artista da palavra, seguro de suas dimensões e desígnios.
DA MANGA AO CAJU
De início, após ter desistido de trocar o pijama por
outras roupas menos amigas, para espanto do fotógrafo
acostumado com tanta pose, Cardozo fala sobre aquela pequena
mangueira defronte do casarão e informa que está acompanhando
a sua floração. Todas as manhãs, um regalo que lhe faltava no
Rio. Da manga ao caju foi um passo. O repórter aproveita a
oportunidade para perguntar sobre o poema “Chuva de Caju” e
o poeta conta as circunstâncias que o determinaram.
—
Eu estava lendo quando, de repente, ouvi ruídos de
passos, como se alguém acabasse de entrar na sala. Logo percebi
que era a chuva, uma chuva de grossos pingos, que pulava pela
janela e invadia o aposento.
E
lembra que morava nessa época no “Beco do Caju”, o que
explica o título da pequena obra-prima. Daí em diante, após
ter falado sobre os amigos do Recife, entre os quais citou várias
vezes o nome de Altamiro Cunha, a conversa vai ficando animada e
uma pergunta surge sobre como se estava sentindo no regresso à
capital pernambucana. Cardozo diz que, apesar de ter passado 32
anos no Rio de Janeiro, sentia-se “como se nunca tivesse saído
daqui”.
ARISTÓTELES
MENOR QUE PLATÃO
Tendo recebido a incumbência de fazer uma reportagem
sobre literatura, o repórter quando dá conta de si está
seguindo o poeta pelas ruas e bairros antigos do Recife,
participando através da recordação de fatos ligados ao
processo de urbanização do Recife e de Brasília: uma a cidade
que o viu nascer e, outra, a que foi quantificada em sua
prancheta de engenheiro calculista. Apesar de belo o passeio,
por dever profissional o assunto literário tem de ser retomado
novamente. Assim sendo, o repórter volta a fazer perguntas de
interrupção para retornar ao tema, retomar um pingo perdido da
“Chuva de Caju”.
Não é difícil conversar
com Joaquim Cardozo, embora não seja fácil ser para ele um bom
interlocutor. Os homens eruditos sofrem de uma espécie de solidão
coloquial. A massa de informações que possui sobre diversos
assuntos anula inocentemente as tímidas investidas da maioria
dos interlocutores. O Poeta preenche os vagos da conversação
quando ela envereda por áreas só por ele dominadas. E o
assunto sendo agora livros é território de Joaquim Cardozo por
excelência, por direito de conquista. O poeta, apesar de grande
inovador, aprecia os velhos autores (também seus irmãos,
inovadores do passado). O nome de Aristóteles, não sei por
que, cai na sala de repente. Cardozo faz confrontações entre
Aristóteles e Platão, com sérios prejuízos para o primeiro.
A Física aristotélica recebe fundamentadas restrições.
Enchem agora a sala os autores medievais e são apresentados por
Cardozo como velhos conhecidos. Após a saída deles, o tempo
vai se encurtando e já estamos chegando à Montanha Mágica
de Thomas Mann, uma das grandes admirações de Joaquim Cardozo.
Depois de contar o enredo do romance com palavras recheadas de
gestos, de significação, o poeta começa a se queixar da falta
que lhe está fazendo a sua vasta biblioteca, deixada
temporariamente no Rio. Procura pescar no ar o nome de uma
editora, a data de uma edição e desiste — Terei de trazê-la
com urgência para cá — declara um pouco magoado.
O
VALOR SE IMPÕE
Há muito o que aprender com esse autor escrupuloso a
ponto de só publicar o primeiro livro aos 50 anos. A posição
de prestígio que ele mantém hoje entre os grandes nomes da
poesia nacional (e esta, conforme alguns grandes críticos, é
uma das três maiores do mundo), decorreu de um lento e
progressivo reconhecimento de público e da crítica
especializada. Nenhum esforço de autopromoção: seu primeiro
livro, Poemas, foi organizado por um grupo de amigos que
recolheu em jornais e revistas seus trabalhos esparsos, tudo
feito à sua revelia; nenhuma insistência junto aos
programadores oficiais do sucesso literário atraíram o
“imenso Joaquim Cardozo”, para usar aqui uma expressão de
João Cabral de Melo Neto, que deve a ele o que T. S. Elliot de
certa maneira deve a Pound.
Como verdadeiro sábio que
é, não derrubou ninguém para entrar no carro do sucesso,
cedeu inúmeras vezes o seu lugar e esperou mais de meio século
para fazer a merecida viagem. Seu retraimento profissional, sua
falta de empresários, seu pudor artístico valeram-lhe, no
entanto, a injusta inclusão, pelo também grande Manuel
Bandeira, entre os poetas bissextos do Brasil. Essa classificação
de bissexto deveria atingir apenas os que escrevem raramente e não
os que publicam pouco. O fato de um autor ter severa autocrítica
é sempre motivo de sérios equívocos: o mínimo que podem
pensar é que parou de escrever, quando é justamente no longo
intervalo, entre um livro e outro, que o verdadeiro escritor está
em sua aula maior, a da auto-superação, a da descoberta de
novos caminhos. É quando mais se rasga, que mais se escreve.
Literatura não é medida com régua de diagramação. A diferença
entre um poeta menor e um poeta maior, entre outras coisas, está
nisso: no primeiro, o poder de auto-selecionamento é quase
nulo: quer publicar tudo que escreve, e vai para os livros o que
deveria estar na cesta de papéis.
É
PRECISO LER MUITO
Achando que perguntou pouco sobre a própria obra do
entrevistado, o distônico repórter em certo momento pede-lhe
uma explicação sobre alguns trechos do seu grande poema “Visão
do Último Trem Subindo ao Céu”, particularmente sobre
aquelas passagens em que o poeta utiliza símbolos e sugestões
das Ciências Exatas. Após esboçar uma tentativa de
esclarecimento, Cardozo compreende que não pode ser acompanhado
em seu raciocínio e diz simplesmente: “É preciso ler
muito”. A frase, que pode ser dita por qualquer mestre-escola,
ganha um peso especial quando pronunciada por um “imenso”
poeta e tem um efeito duradouro e forte na consciência do
assustado repórter, repercutindo, alastrando-se: é preciso ler
muito, é preciso ler muito. Abaixo MacLuhan!
O conselho do manso e
encanecido poeta, dado assim com aquele ar de um tio cansado,
que acaba de chegar de uma longa viagem, é mais do que o fecho
esperado para esta reportagem, dirigida principalmente para os
jovens escritores brasileiros. É noite e o poeta do Signo
Estrelado, que vem sendo freqüentemente visitado, precisa
recolher-se aos seus livros, às suas lembranças, aos novos e
revolucionários poemas. O repórter, como qualquer vendedor de
livros embaraçado, sai mais humilde do que entrou. Despede-se
de Joaquim Cardozo e de suas três irmãs e volta para o planeta
das urgências rasas, onde é engolido pela escuridão e o
esquecimento, nessa bela hora em que “as estrelas passam sobre
Olinda”.
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