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Joaquim Cardozo 

Poemas:

Canção para os que nunca irão nascer  
 (De: Um livro aceso e nove canções sombrias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981)
Soneto do Suicida
Chuva de Caju
Tarde no Recife (1925)
Leia abaixo: "O Poeta e o Repórter" — a crônica do encontro, em 26 de agosto de 1972, de Alberto da Cunha Melo (repórter do Diario de Pernambuco, aos 30 anos) com Joaquim Cardozo (aos 76 anos) 
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O POETA E O REPÓRTER

Alberto da Cunha Melo

Diario de Pernambuco — 26  de  agosto 1972

Foto: Joaquim Cardozo - Recife-26ago1897 -Olinda-04nov1978

            O jornalista Lazio Kovacs foi conversar com o poeta Ezra Pound, em Veneza, e entrevistou o silêncio. Pound, um dos maiores expoentes da poesia moderna mundial, recusou-se a falar de literatura. Aos oitenta e seis anos, treze dos quais passados encarcerado como traidor de sua pátria, os Estados Unidos, o autor do famoso poema inacabado “Cantos”, desencantou-se com a palavra (após ter feito com ela o que bem quis e através dela ter alcançado um extraordinário prestígio no Ocidente).

           

            OUTRO POETA, OUTRA VENEZA

            Sabedor desse fato, em outra Veneza, a brasileira, um repórter mestiço aproxima-se com certa timidez de uma velha casa do Espinheiro, residência atual do poeta Joaquim Cardozo, que possui inúmeros pontos de coincidência com Pound: poliglota, vanguardista, descobridor de talentos e, principalmente, grande poeta. Cardozo, que completa hoje 76 anos, estava vestido com um leve pijama azulado e conversava com uma pessoa de sua família. A minha chegada transtornou o ambiente, obrigando as gentis irmãs do poeta, as “três Marias”, como ele o diz carinhosamente, a se deslocarem com o televisor portátil para outro aposento — tudo isso para não incomodar o visitante e dar condições para realização da reportagem.

            A jovial acolhida do autor de Signo Estrelado e co-autor de Brasília deixa o repórter um tanto afoito e pronto a aborrecer o próprio Santo de Assis. A imagem amarga e silenciosa de Pound vai desaparecendo da cabeça do jornalista e dando lugar a outra, a de um “tio tranqüilo”, como diria o poeta Geraldino Brasil. Diante de mim está um homem magro e encanecido, mas cheio daquela paciência conquistada, a custo de muito desespero triturado, de muito angústia vencida na própria foz. Apesar de não ter passado pelas agruras por que passou Pound, o poeta brasileiro foi alvo de algumas ciladas perversas, de muito mal entendido consciente e do voluntário esquecimento por parte de alguns críticos e historiadores da literatura. Mas, ao contrário de Pound, sua voz continuou límpida e pródiga, como convém a um grande artista da palavra, seguro de suas dimensões e desígnios.

 

            DA MANGA AO CAJU

            De início, após ter desistido de trocar o pijama por outras roupas menos amigas, para espanto do fotógrafo acostumado com tanta pose, Cardozo fala sobre aquela pequena mangueira defronte do casarão e informa que está acompanhando a sua floração. Todas as manhãs, um regalo que lhe faltava no Rio. Da manga ao caju foi um passo. O repórter aproveita a oportunidade para perguntar sobre o poema “Chuva de Caju” e o poeta conta as circunstâncias que o determinaram.

    Eu estava lendo quando, de repente, ouvi ruídos de passos, como se alguém acabasse de entrar na sala. Logo percebi que era a chuva, uma chuva de grossos pingos, que pulava pela janela e invadia o aposento.

E lembra que morava nessa época no “Beco do Caju”, o que explica o título da pequena obra-prima. Daí em diante, após ter falado sobre os amigos do Recife, entre os quais citou várias vezes o nome de Altamiro Cunha, a conversa vai ficando animada e uma pergunta surge sobre como se estava sentindo no regresso à capital pernambucana. Cardozo diz que, apesar de ter passado 32 anos no Rio de Janeiro, sentia-se “como se nunca tivesse saído daqui”.

           

ARISTÓTELES MENOR QUE PLATÃO

            Tendo recebido a incumbência de fazer uma reportagem sobre literatura, o repórter quando dá conta de si está seguindo o poeta pelas ruas e bairros antigos do Recife, participando através da recordação de fatos ligados ao processo de urbanização do Recife e de Brasília: uma a cidade que o viu nascer e, outra, a que foi quantificada em sua prancheta de engenheiro calculista. Apesar de belo o passeio, por dever profissional o assunto literário tem de ser retomado novamente. Assim sendo, o repórter volta a fazer perguntas de interrupção para retornar ao tema, retomar um pingo perdido da “Chuva de Caju”.

            Não é difícil conversar com Joaquim Cardozo, embora não seja fácil ser para ele um bom interlocutor. Os homens eruditos sofrem de uma espécie de solidão coloquial. A massa de informações que possui sobre diversos assuntos anula inocentemente as tímidas investidas da maioria dos interlocutores. O Poeta preenche os vagos da conversação quando ela envereda por áreas só por ele dominadas. E o assunto sendo agora livros é território de Joaquim Cardozo por excelência, por direito de conquista. O poeta, apesar de grande inovador, aprecia os velhos autores (também seus irmãos, inovadores do passado). O nome de Aristóteles, não sei por que, cai na sala de repente. Cardozo faz confrontações entre Aristóteles e Platão, com sérios prejuízos para o primeiro. A Física aristotélica recebe fundamentadas restrições. Enchem agora a sala os autores medievais e são apresentados por Cardozo como velhos conhecidos. Após a saída deles, o tempo vai se encurtando e já estamos chegando à Montanha Mágica de Thomas Mann, uma das grandes admirações de Joaquim Cardozo. Depois de contar o enredo do romance com palavras recheadas de gestos, de significação, o poeta começa a se queixar da falta que lhe está fazendo a sua vasta biblioteca, deixada temporariamente no Rio. Procura pescar no ar o nome de uma editora, a data de uma edição e desiste — Terei de trazê-la com urgência para cá — declara um pouco magoado.

 

O VALOR SE IMPÕE

            Há muito o que aprender com esse autor escrupuloso a ponto de só publicar o primeiro livro aos 50 anos. A posição de prestígio que ele mantém hoje entre os grandes nomes da poesia nacional (e esta, conforme alguns grandes críticos, é uma das três maiores do mundo), decorreu de um lento e progressivo reconhecimento de público e da crítica especializada. Nenhum esforço de autopromoção: seu primeiro livro, Poemas, foi organizado por um grupo de amigos que recolheu em jornais e revistas seus trabalhos esparsos, tudo feito à sua revelia; nenhuma insistência junto aos programadores oficiais do sucesso literário atraíram o “imenso Joaquim Cardozo”, para usar aqui uma expressão de João Cabral de Melo Neto, que deve a ele o que T. S. Elliot de certa maneira deve a Pound.

            Como verdadeiro sábio que é, não derrubou ninguém para entrar no carro do sucesso, cedeu inúmeras vezes o seu lugar e esperou mais de meio século para fazer a merecida viagem. Seu retraimento profissional, sua falta de empresários, seu pudor artístico valeram-lhe, no entanto, a injusta inclusão, pelo também grande Manuel Bandeira, entre os poetas bissextos do Brasil. Essa classificação de bissexto deveria atingir apenas os que escrevem raramente e não os que publicam pouco. O fato de um autor ter severa autocrítica é sempre motivo de sérios equívocos: o mínimo que podem pensar é que parou de escrever, quando é justamente no longo intervalo, entre um livro e outro, que o verdadeiro escritor está em sua aula maior, a da auto-superação, a da descoberta de novos caminhos. É quando mais se rasga, que mais se escreve. Literatura não é medida com régua de diagramação. A diferença entre um poeta menor e um poeta maior, entre outras coisas, está nisso: no primeiro, o poder de auto-selecionamento é quase nulo: quer publicar tudo que escreve, e vai para os livros o que deveria estar na cesta de papéis.

 

É PRECISO LER MUITO

            Achando que perguntou pouco sobre a própria obra do entrevistado, o distônico repórter em certo momento pede-lhe uma explicação sobre alguns trechos do seu grande poema “Visão do Último Trem Subindo ao Céu”, particularmente sobre aquelas passagens em que o poeta utiliza símbolos e sugestões das Ciências Exatas. Após esboçar uma tentativa de esclarecimento, Cardozo compreende que não pode ser acompanhado em seu raciocínio e diz simplesmente: “É preciso ler muito”. A frase, que pode ser dita por qualquer mestre-escola, ganha um peso especial quando pronunciada por um “imenso” poeta e tem um efeito duradouro e forte na consciência do assustado repórter, repercutindo, alastrando-se: é preciso ler muito, é preciso ler muito. Abaixo MacLuhan!

            O conselho do manso e encanecido poeta, dado assim com aquele ar de um tio cansado, que acaba de chegar de uma longa viagem, é mais do que o fecho esperado para esta reportagem, dirigida principalmente para os jovens escritores brasileiros. É noite e o poeta do Signo Estrelado, que vem sendo freqüentemente visitado, precisa recolher-se aos seus livros, às suas lembranças, aos novos e revolucionários poemas. O repórter, como qualquer vendedor de livros embaraçado, sai mais humilde do que entrou. Despede-se de Joaquim Cardozo e de suas três irmãs e volta para o planeta das urgências rasas, onde é engolido pela escuridão e o esquecimento, nessa bela hora em que “as estrelas passam sobre Olinda”.

 

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