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DE AMOR TAMBÉM SE VIVE...
“De amor também se sofre e morre”- disse-o
Algum poeta triste, sem afeto.
O amor tem mesmo o gosto predileto
De juntar dor e prazer desde o início.
O amor num tempo é céu e precipício
E ninguém interfere em seu trajeto:
Unindo o beijo à fúria e o sim ao veto,
Às vezes é virtude, às vezes vício.
Sonho maior que a vida humana alcança,
Eu te busquei, amor, no desconforto,
Segui teus passos como um detetive.
Hoje posso dizer, com segurança:
Não fosse o teu lampejo, estava morto.
De amor e de paixão também se vive!
(De Amor Também se Vive... – 1999 – pág. 17) |
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A GRANDE DÚVIDA
Quando moço, jurei que a vida inteira
Eu te amaria sem nenhum limite.
E pensava: “Não há ninguém que evite
Tenha este amor a duração que eu queira”.
Só a morte elegi como fronteira
Para apagar a luz que o amor emite.
Pressinto hoje o meu fim com o palpite
De que inda te amo à moda costumeira.
Busco em vão argumentos racionais
Para entender como eu, homem moderno,
Fui presa do destino e de sua arte.
Será o meu amor longo demais,
A ponto de avançar no plano eterno,
Ou curta foi-me a vida para amar-te?
(Serões na Rede – 2002 – pág. 19)
IDOLATRIA
“Não terás outros deuses diante de mim”.
(Bíblia Sagrada – Êxodo 20.3)
Pequei, meu Deus, mas foi por puro amor.
Por isso espero ter perdão um dia
Do pecado que fiz de idolatria,
Ao ver na minha amada o meu Senhor.
Ao colocá-la em Teu lugar, no andor,
Descumpri Tua ordem que dizia
Que nenhum outro deus existiria
E só a Ti daria o meu louvor.
Se quiseres perdoar-me, tens motivo.
Basta indagar quem fez dela um ser vivo
Inigualável, fora dos clichês.
Perdoa-me, Senhor, se sou blasfemo
Mas, se eu a adoro assim, de um modo extremo,
Bem mais estou louvando Quem a fez.
(Serões na Rede – 2002 – pág. 38)
MENTIROSOS
Mentir ao ser amado banaliza
A relação que existe entre dois seres.
Quem mente fere, mas também se pisa
Por ter sido incorreto nos deveres.
Temos a mesma culpa, não precisa
Que finjas ter vantagens ou poderes.
A vida, essa inclemente e alta juíza,
Vai fazer-me sofrer o que sofreres.
A dor de ter mentido ninguém tira.
Para escondê-la, a gente às vezes ri
- Outra maneira de não ser sincero.
Tu, fingindo que me amas, que mentira!
E eu, tomado de um louco amor por ti,
Passo a vida a dizer que não te quero!
(Serões na Rede – 2002 – pág. 88)
PAPEL CARBONO
Faz tempo nós seguimos um só rumo
E foram tantos os caminhos feitos
Que estás a incorporar os meus defeitos
E até tuas virtudes eu assumo.
Se sou teu paradigma, és meu resumo,
E muito embora em nós haja dois peitos,
Temos a sorte rara dos eleitos
De num só coração manter o prumo.
A marca que o cinzel do tempo cose
Não nos afasta, pois estranha osmose
Nos deixa sempre iguais, de um modo exato.
Juntos seguimos pela mesma rua,
Como se eu fosse apenas cópia tua
E tu fosses de mim fiel retrato.
(Serões na Rede – 2002 – pág. 158)
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DE TANTO VOS AMAR

De tanto vos amar, linda senhora,
E de tão ternamente desejar-vos,
Trago comigo o olhar tolo dos parvos
Que se quedam d’amor, como eu agora.
Bem sabeis dessa paixão! Quem ignora
As ternuras que tenho para dar-vos?
Por um sorriso vosso, eu, a pagar-vos,
Trarei estrelas e o rubor d’aurora.
Jamais sereis sozinha ou solitária
E a tristeza, essa negra indumentária,
Não vencerá a luz que vos abriga.
Deixai, senhora, ao menos, que vos ame
Sem medo, sem temor, sombra ou vexame,
Nestes versos d’amor à moda antiga.
(Sacerdócio Poético – 2004 – pág. 55)
A BÊNÇÃO, PAI!
Uma vez mais te peço a bênção, pai,
Como o fazia quando era pequeno.
“Deus te abençoe e te proteja. Vai!
Zele por ti Jesus, o Nazareno!”
Recordo tua paz, que inda me atrai,
Lembrança que me ajuda a ser sereno
E a dizer para as lágrimas: “Cessai!
O pranto agrava o rosto e afunda o dreno!”
Vazia a mesa, a casa, a minha vida,
Vazio meu coração, tudo vazio,
Quando, impotente, vi tua partida.
Minha saudade acumulou-se em feixe
E aqui estou para implorar, tardio,
Que tua bênção, velho, não me deixe.
(Sacerdócio Poético – 2004 – pág. 84)
EU, QUE NÃO CREIO...
O meu amor será sempre absoluto.
Vivo na graça que ele estabelece
E, já que mereci sua benesse,
Colho a felicidade como fruto.
Minha alma transformou-se em seu reduto,
Dentro de mim se avulta e resplandece.
Sua voz tem o tom alvar de prece,
Por ela falam anjos e eu escuto.
Ungido por seu halo, me convém
Usufruir essa bênção. Ela faz
Que em mim tenha a tristeza um bom despiste.
Desde que a minha amada fique bem,
Eu, que não creio, sou até capaz
De orar por ela a um Deus que não existe.
(Sacerdócio Poético – 2004 – pág. 104)
IMENSO AMOR O MEU
Imenso amor o meu, de tal jaez
Que minha alma, liberta da couraça
Do egoísmo, da mágoa, da aridez,
Vive no espaço que esse amor lhe traça.
Dia após dia, mês depois de mês,
Sigo teus passos, preso à tua graça.
És a resposta a todos os porquês
E a afirmação de que nem tudo passa.
Quando disseste “vem comigo”, eu vim
Pois eras a esperança, eras meu sonho
Mais divino, mais puro, mais pudico.
Como a lei natural impõe um fim,
Morra eu, que de matéria me componho,
Mas nunca morra o amor que te dedico.
(Sacerdócio Poético – 2004 – pág. 36) |