Cláudia Cordeiro é professora especialista em Literatura Brasileira, ensaísta,
editora e webdesigner do site Plataforma para a Poesia
e suas Trilhas Literárias, há cinco anos on
line, além de sites de escritores brasileiros. Co-organizadora da coletânea
Pernambuco, Terra da Poesia. Um painel da poesia
pernambucana dos séculos XVI ao XXI. São Paulo:
Escrituras, 2006. Disponível em todas as livrarias do
país. Clique na capa.

Ensaio
de Cláudia Cordeiro disponível para download gratuito:
Faces da Resistência na Poesia de Alberto da Cunha
Melo. Recife: Bagaço, 2003; Acesso no site do
autor Alberto da Cunha Melo. Clique na imagem da capa
abaixo:

Em
2006, editou e executou o projeto Vozes Pernambucanas,

realizando,
com recursos multimídia e patrocínio do Instituto
Maximiano Campos - IMC, 11 palestras, sendo 8
delas em São Paulo - SP, e as
demais em festivais literários do Estado de Pernambuco.
E outras palestras sobre variados temas literários e o
advento da WEB.
Em
2004, organizou e editou o CD, Plataforma para
Poesia: Poemas Essenciais. Clique na imagem para
ter acesso à crítica do escritor Deonísio da Silva
A
agenda 2007: Brasil, Retratos Poéticos, da editora
Escrituras, já em segunda edição, traz fragmentos da
obra de vários autores da coletânea Pernambuco
Terra da Poesia.


|
Escrevo este artigo depois de assistir ao vídeo
Stevie Wonder &
Michael Jackson, de 1968, no site YouTube comprado pelo
Google, em outubro deste ano, pela bagatela de 1,65 bilhões de dólares. Faço a referência única e exclusivamente para lembrar que já saímos da era industrial para a era do coletivismo digital, como registra
Sérgio Dávila, no artigo “Internet transfere ‘riqueza’ para as redes”, publicado na Folha de São Paulo (30.09.2006). Nesse novo mundo, a mercadoria é a informação e o lucro vem exclusivamente de publicidade e de apoio do Estado e de Fundações. Nele já podemos aferir a democratização da arte e os indivíduos e grupos são mais livres e independentes das corporações hierarquizadas que definiram o período industrial. Estamos em um sistema de “produção compartilhada por uma comunidade” — a exemplo do
Wikipedia e do YouTube cujo slogan é: “seja você mesmo sua própria emissora”. Nesses sites e outros mais, você pode pôr
on line suas próprias produções ou arquivos de suas pesquisas.
Mas onde mora a espetacular liberdade de ser editor de si mesmo, de suas preferências, de seu talento artístico e tudo mais, mora o perigo alertado pelo escritor catarinense Deonísio da Silva: o da falta de uma editoria responsável que selecione o joio do trigo. É quase impossível, Deonísio, uma ideal editoria. O editor da web deve ser o próprio navegante, com sua nau de conhecimento e rotas bem traçadas para navegar pelas altas ondas dos mares digitais sem naufragar.
Deonísio e mais 14 intelectuais — Alberto da Cunha Melo, Gilberto Mendonça Teles, Hermelinda Ferreira, Hildeberto Barbosa Filho, Isabel de Andrade Moliterno, Izacyl Guimarães Ferreira, José Nêumanne Pinto, Urariano Mota e, do grupo virtual dos Escritores Independentes, Aline Machado, Clóvis Campelo, Sílvia Câmara Martinez, Tânia França, Martha Galrão — responderam-me a uma pergunta: “A Internet favoreceu ou aviltou a arte literária?”. Essa pequena pesquisa fundamentou uma palestra recente que fiz na FAFIRE sobre esse tema. É interessante observar que, entre eles, apenas os já consagrados e há muito editados pela imprensa de papel, expuseram alertas ao novo advento digital. Os demais, embora reconhecendo os sargaços da baixa maré de certas praias da WEB, foram unânimes em afirmar que ela favoreceu a arte literária muito mais que aviltou e, mesmo os que fizeram algum alerta, foram unânimes em afirmar que não é o
veículo que avilta e sim quem o utiliza.
Vale registrar o “depoimento pessoal” do poeta e crítico Izacyl Guimarães Ferreira: “Sem Internet, considerando-se a má distribuição de editoras e livreiros, eu, que passei 15 anos fora do Brasil com um apenas razoável apoio material que chegava do país, não teria conhecido alguns dos melhores poetas de agora, que acessei nos numerosos portais como o seu, o do Soares Feitosa, o da Leila Miccolis, para citar só uns poucos.”
Outro alerta que vale registro é o do jornalista, poeta e ficcionista José Nêumanne Pinto no que diz respeito à
Wikipedia, uma espécie de “maoísmo digital”, a perda da autoria transformando as produções artística, jornalística, cientista etc. numa massa de expressões sem nome, como queria o líder comunista chinês no início do seu governo, na sua falida “Revolução Cultural”.
Não acredito nessa possibilidade uma vez que na
World Wide Web (“Rede do Tamanho do Mundo”) há mares de se perder e de se encontrar. Nunca a aura do objeto artístico — sua existência única composta de elementos espaciais e temporais — revelou-se-nos tão perto, tão imaterial, na sua intrínseca materialidade. O cinema, lembra Walter Benjamim, substituiu a existência única da obra de arte pela existência serial; a WEB, enquanto veículo de comunicação, realizou a síntese unicidade-multiplicidade. Elevou ao quadrado as chances de comunicação de qualquer arte, seja exibindo sua
tessitura, seja revelando sua história, pelo seu poder inquestionável de exposição, que nos lança na simultaneidade do tempo e do espaço e no amálgama de uma nova linguagem visual, onde forma e conteúdo se confundem tornando quase impossível limitar as fronteiras entre arte, informação, notícia ou propaganda. A fragmentação de informações já vem ganhando
o que ousaria chamar de um novo enciclopedismo, o virtual, como o do
Wikipédia e de outros que fazem para você a seleção que não encontramos nos grandes portais como é o caso do
Links&Sites.
A título de exemplificação de mares de se encontrar, lembro a pergunta lançada nesta revista por Alberto da Cunha Melo, na coluna
Marco Zero: “O que é Dalila?”. Pesquisador incansável da música, que abria os saraus da metade do século passado, recebeu por
e-mail todas as respostas que queria e mais: a própria música em levíssima extensão
mid.
O depoimento do escritor Urariano Mota é mais do que exemplar quanto ao poder da WEB: “[...] a Internet tornou possível que os meus textos fossem traduzidos na Inglaterra, Itália, Alemanha, Bélgica, e até mesmo lidos em Portugal , Espanha, Rússia e Moçambique. Isso gerou um paradoxo e uma terrível ironia: eu consigo ser lido nos mais conceituados meios da Europa, mas não consigo publicar uma só linha no Recife.”
O paradoxo, acredito, fica por conta de executivos que não conseguem ainda sobreviver sem as suas velhas regras, as antigas “leis do mercado”, sem manter fechadas as comportas do restrito mundo de papel, enquanto agigantam-se os mares por eles nunca pensados. A verdade é que a Internet superou em novembro deste ano todo o volume de novas páginas que foram ao ar em 2005: 17 milhões. A rede mundial contabiliza
hoje um recorde de 101,4 milhões de sites em atividade. Jornais, revistas e toda sorte de mídia impressa apressam-se em despejar suas versões
on line na rede. As páginas de papel rendem-se às páginas exibidas em um pedaço de vidro fosco diagramadas nas oficinas binárias deste nosso tempo de anjos e loucos. A arte analógica, volátil e efêmera já expõe seus livros eletrônicos a exemplo do excelente
eBooksBrasil, mas, contrariamente às previsões de quaisquer
mcluhans, a Internet além de gerar uma vasta literatura específica sobre ela mesma, se tornou um dos mais vigorosos meios de venda dos livros de papel. É mais um prova de que o
edge of chaos da revolução eletrônica ratifica o que os especialistas mais lúcidos afirmam: os meios de comunicação não se destroem, se complementam. Vale aqui lembrar o que disse Merquior sobre a abortada previsão de Marchall Macluhan, que anunciava o fim do livro impresso: “A revolução eletrônica de Mcluhan eletrocuta a cultura. Seu melhor símbolo não é bem a TV, é a cadeira elétrica.”
Mas, para o navegante, é essencial estar atento e não aportar nas ilhas do
kitsch nem se deixar levar pelo canto da sereia desses mares: a arte digital e os
sites interativos são puro encantamento. E o escritor deve lembrar-se
de que o simples fato de editar-se não o torna um grande escritor.
Desfragmente-se para um mundo novo, mas leve sua bússola, trace sua rota, aja como o melhor dos surfistas, que a onda é boa, das mais altas, mas perigosa. Afinal, navegar é preciso, naufragar não. |