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NA WEB, NAVEGAR (COM CUIDADO) É PRECISO 

 

Por Cláudia Cordeiro

 

©  Revista Continente Multicultural, ano VII, n. 73, janeiro/2007, p. 90-93 

 

Onde cada navegador pode ser seu próprio editor, 

como separar o joio do trigo?

 

Cláudia Cordeiro é professora especialista em Literatura Brasileira, ensaísta, editora e webdesigner do site Plataforma para a Poesia e suas Trilhas Literárias, há cinco anos on line, além de sites de escritores brasileiros. Co-organizadora da coletânea Pernambuco, Terra da Poesia. Um painel da poesia pernambucana dos séculos XVI ao XXI. São Paulo: Escrituras, 2006. Disponível em todas as livrarias do país. Clique na capa.

Ensaio de Cláudia Cordeiro disponível para download gratuito: Faces da Resistência na Poesia de Alberto da Cunha Melo. Recife: Bagaço,  2003; Acesso no site do autor Alberto da Cunha Melo. Clique na imagem da capa abaixo:

Em 2006, editou e executou o projeto Vozes Pernambucanas,

 

 

 realizando, com recursos multimídia e patrocínio do Instituto Maximiano Campos - IMC, 11 palestras, sendo 8 delas em São Paulo - SP, e as demais em festivais literários do Estado de Pernambuco. E outras palestras sobre variados temas literários e o advento da WEB.

Em 2004, organizou e editou o CD, Plataforma para Poesia: Poemas Essenciais. Clique na imagem para ter acesso à crítica do escritor Deonísio da Silva

 

A agenda 2007: Brasil, Retratos Poéticos, da editora Escrituras, já em segunda edição, traz fragmentos da obra de vários autores da coletânea Pernambuco Terra da Poesia.

           

        Escrevo este artigo depois de assistir ao vídeo Stevie Wonder & Michael Jackson, de 1968, no site YouTube comprado pelo Google, em outubro deste ano, pela bagatela de 1,65 bilhões de dólares. Faço a referência única e exclusivamente para lembrar que já saímos da era industrial para a era do coletivismo digital, como registra Sérgio Dávila, no artigo “Internet transfere ‘riqueza’ para as redes”, publicado na Folha de São Paulo (30.09.2006). Nesse novo mundo, a mercadoria é a informação e o lucro vem exclusivamente de publicidade e de apoio do Estado e de Fundações. Nele já podemos aferir a democratização da arte e os indivíduos e grupos são mais livres e independentes das corporações hierarquizadas que definiram o período industrial. Estamos em um sistema de “produção compartilhada por uma comunidade” — a exemplo do Wikipedia e do YouTube cujo slogan é: “seja você mesmo sua própria emissora”. Nesses sites e outros mais, você pode pôr on line suas próprias produções ou arquivos de suas pesquisas.
          

          Mas onde mora a espetacular liberdade de ser editor de si mesmo, de suas preferências, de seu talento artístico e tudo mais, mora o perigo alertado pelo escritor catarinense Deonísio da Silva: o da falta de uma editoria responsável que selecione o joio do trigo. É quase impossível, Deonísio, uma ideal editoria. O editor da web deve ser o próprio navegante, com sua nau de conhecimento e rotas bem traçadas para navegar pelas altas ondas dos mares digitais sem naufragar. 


            Deonísio e mais 14 intelectuais — Alberto da Cunha Melo, Gilberto Mendonça Teles, Hermelinda Ferreira, Hildeberto Barbosa Filho, Isabel de Andrade Moliterno, Izacyl Guimarães Ferreira, José Nêumanne Pinto, Urariano Mota e, do grupo virtual dos Escritores Independentes, Aline Machado, Clóvis Campelo, Sílvia Câmara Martinez, Tânia França, Martha Galrão — responderam-me a uma pergunta: “A Internet favoreceu ou aviltou a arte literária?”. Essa pequena pesquisa fundamentou uma palestra recente que fiz na FAFIRE sobre esse tema. É interessante observar que, entre eles, apenas os já consagrados e há muito editados pela imprensa de papel, expuseram alertas ao novo advento digital. Os demais, embora reconhecendo os sargaços da baixa maré de certas praias da WEB, foram unânimes em afirmar que ela favoreceu a arte literária muito mais que aviltou e, mesmo os que fizeram algum alerta, foram unânimes em afirmar que não é o veículo que avilta e sim quem o utiliza. 

Vale registrar o “depoimento pessoal” do poeta e crítico Izacyl Guimarães Ferreira: “Sem Internet, considerando-se a má distribuição de editoras e livreiros, eu, que passei 15 anos fora do Brasil com um apenas razoável apoio material que chegava do país, não teria conhecido alguns dos melhores poetas de agora, que acessei nos numerosos portais como o seu, o do Soares Feitosa, o da Leila Miccolis, para citar só uns poucos.”


         Outro alerta que vale registro é o do jornalista, poeta e ficcionista José Nêumanne Pinto no que diz respeito à Wikipedia, uma espécie de “maoísmo digital”, a perda da autoria transformando as produções artística, jornalística, cientista etc. numa massa de expressões sem nome, como queria o líder comunista chinês no início do seu governo, na sua falida “Revolução Cultural”.


            Não acredito nessa possibilidade uma vez que na World Wide Web (“Rede do Tamanho do Mundo”) há mares de se perder e de se encontrar. Nunca a aura do objeto artístico — sua existência única composta de elementos espaciais e temporais — revelou-se-nos tão perto, tão imaterial, na sua intrínseca materialidade. O cinema, lembra Walter Benjamim, substituiu a existência única da obra de arte pela existência serial; a WEB, enquanto veículo de comunicação, realizou a síntese unicidade-multiplicidade. Elevou ao quadrado as chances de comunicação de qualquer arte, seja exibindo sua tessitura, seja revelando sua história, pelo seu poder inquestionável de exposição, que nos lança na simultaneidade do tempo e do espaço e no
amálgama de uma nova linguagem visual, onde forma e conteúdo se confundem tornando quase impossível limitar as fronteiras entre arte, informação, notícia ou propaganda. A fragmentação de informações já vem ganhando o que ousaria chamar de um novo enciclopedismo, o virtual, como o do Wikipédia e de outros que fazem para você a seleção que não encontramos nos grandes portais como é o caso do Links&Sites

           A título de exemplificação de mares de se encontrar, lembro a pergunta lançada nesta revista por Alberto da Cunha Melo, na coluna Marco Zero: “O que é Dalila?”. Pesquisador incansável da música, que abria os saraus da metade do século passado, recebeu por e-mail todas as respostas que queria e mais: a própria música em levíssima extensão mid

           O depoimento do escritor Urariano Mota é mais do que exemplar quanto ao poder da WEB: “[...] a Internet tornou possível que os meus textos fossem traduzidos na Inglaterra, Itália, Alemanha, Bélgica, e até mesmo lidos em Portugal , Espanha, Rússia e Moçambique. Isso gerou um paradoxo e uma terrível ironia: eu consigo ser lido nos mais conceituados meios da Europa, mas não consigo publicar uma só linha no Recife.”

           O paradoxo, acredito, fica por conta de executivos que não conseguem ainda sobreviver sem as suas velhas regras, as antigas “leis do mercado”, sem manter fechadas as comportas do restrito mundo de papel, enquanto agigantam-se os mares por eles nunca pensados. A verdade é que a Internet superou em novembro deste ano todo o volume de novas páginas que foram ao ar em 2005: 17 milhões. A rede mundial contabiliza hoje um recorde de 101,4 milhões de sites em atividade. Jornais, revistas e toda sorte de mídia impressa apressam-se em despejar suas versões on line na rede. As páginas de papel rendem-se às páginas exibidas em um pedaço de vidro fosco diagramadas nas oficinas binárias deste nosso tempo de anjos e loucos. A arte analógica, volátil e efêmera já expõe seus livros eletrônicos a exemplo do excelente eBooksBrasil, mas, contrariamente às previsões de quaisquer mcluhans, a Internet além de gerar uma vasta literatura específica sobre ela mesma, se tornou um dos mais vigorosos meios de venda dos livros de papel. É mais um prova de que o edge of chaos da revolução eletrônica ratifica o que os especialistas mais lúcidos afirmam: os meios de comunicação não se destroem, se complementam. Vale aqui lembrar o que disse Merquior sobre a abortada previsão de Marchall Macluhan, que anunciava o fim do livro impresso: “A revolução eletrônica de Mcluhan eletrocuta a cultura. Seu melhor símbolo não é bem a TV, é a cadeira elétrica.” 

          Mas, para o navegante, é essencial estar atento e não aportar nas ilhas do kitsch nem se deixar levar pelo canto da sereia desses mares: a arte digital e os sites interativos são puro encantamento. E o escritor deve lembrar-se de que o simples fato de editar-se não o torna um grande escritor. 

         Desfragmente-se para um mundo novo, mas leve sua bússola, trace sua rota, aja como o melhor dos surfistas, que a onda é boa, das mais altas, mas perigosa. Afinal, navegar é preciso, naufragar não.

Leia mais sobre o Pernambuco Terra da Poesia: DEONÍSIO DA SILVA: Os bons companheiros de Lula. Jornal do Brasil, Opinião, 20.12.2005 Pernambuco, Terra da Poesia. O Escritor,  n. 113. UBE/SP, julho  de 2006, Estante. Centenas de poetas, por Álvaro Alves de Faria

Sites citados, páginas pessoais dos escritores mencionados e outras rotas

SITES DE REFERÊNCIA
Blocos on line,
www.blocosonline.com.br/home/index.php 
eBooksBrasil,
www.ebooksbrasil.org/index2.html
Jornal de Poesia,
www.secrel.com.br/jpoesia
Links&Sites,
www.lksites.com/
Plataforma para a Poesia,
www.plataforma.paraapoesia.nom.br
PÁGINAS PESSOAIS
Alberto da Cunha Melo, www.albertocmelo.com
Deonísio da Silva, www.deonisio.com.br
José Nêumanne Pinto, www.neumanne.com
Urariano Mota,
www.lainsignia.org/2005/mayo/cul_043.htm


PALESTRA/OUTRAS ROTAS (sugestões)

eBooksBrasil, www.ebooksbrasil.org/index2.html
Today’s Front Pages. Newseum (Primeiras páginas dos principais jornais do mundo) www.newseum.org/todaysfrontpages/flash

LOGOS BRAZILIAN PORTUGUESE Languages
2047 documents online - Clique neste ícone:

YouTube, www.youtube.com 

Box Sertanejo no YouTube

The penguin show 

site interativo, simultaneidade e beleza

http://www.star28.net/snow.html

Observatório da Língua Portuguesa, www.observatoriolp.com

DICIONÁRIO DE LÍNGUA PORTUGUESA:

Língua Portuguesa On-Line — Textos Editores Universal

http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx

 

  Mais informações sobre Cláudia Cordeiro, clique neste ícone

www.plataformaparaapoesia.nom.br

Editora e Webmaster: Cláudia Cordeiro

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