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O físico anglo-americano Freeman Dyson, que foi consultor da NASA e do Departamento de Defesa dos EUA, relatou em seu livro, Perturbando o Universo, a inesquecível experiência de ler, aos oito anos, o livro de Edith Nesbit, A Cidade Mágica. É a história de um menino que, deixado sozinho numa mansão, constrói uma casa de brinquedo e, de repente, ela cresce, e com ela toda uma estranha cidade em sua volta.
O canadense Marshal McLuhan não deve ter lido, quando criança, aquela historinha, pois se o tivesse feito não declararia a sua Guerra nas Estrelas contra a Galáxia de Gutemberg. Quem esperou que depois do ataque da TV ela seria exterminada pela Internet, bateu com os chifres n’água. Não foi assistindo aos Flinstones que as nações e as cuecas de McLuhan foram fabricadas. Hoje, a Internet é uma livraria planetária.
Toda essa conversa mole, perdoem-me meus milhões de leitores, foi só pretexto para falar em hábito de leitura, um virtuoso vício que a maioria dos alfabetizados do Brasil e de outros países irmãos “no pendura” preferem substituir por tragos no botequim ou dominó na calçada. Quanto ao primeiro vício, não posso jogar a primeira pedra: sempre bebi com um livro debaixo do braço. Mas, fora de brincadeira, se a TV e a Internet não foram o Apocalipse que os sete anjos anunciaram, o certo é que não tem havido avanços percentuais no número de leitores, a exemplo dos países latino-americanos. Fatores como o analfabetismo e a baixíssima renda da população têm sido apontados como os principais obstáculos. É comum a seguinte situação: o alfabetizado quer ler, e não tem dinheiro para comprar o livro. O início de meus descaminhos na literatura limitou-se aos acervos dos sebos e das bibliotecas públicas do Recife. Creio que nunca comprei um livro em livraria, antes dos vinte anos. Para o pobre, o vício de ler é mais caro do que o de beber. Não uísque doze anos, é claro, mas aguardente 40º.
O fato de ser um leitor onívoro, que lê até obra de Paulo Coelho, fez-me devorar um pedaço de pesquisa, que achei não sei onde e realizada por não sei quem. Ela informa que “apenas” 17 milhões de brasileiros acima de 14 anos compraram ao menos um livro no ano passado. Isso representava a ninharia de 10% de uma população de 170 milhões. Outros dados, desta vez comparativos: enquanto no Brasil a média de livros lidos por hab./ano é de 1,8, na França é de 7, nos EUA é de 5,1 e, o que me surpreendeu, na Inglaterra é de 4,9 (esperava que superasse os States). Se o índice de leitura é traço de civilização, ainda estamos longe de ser civilizados.
O governo federal realizou, recentemente, durante uns poucos meses, uma campanha pelos meios eletrônicos, visando a estimular o hábito de leitura no país. Sabe-se que no meio dos alfabetizados de baixa renda existem milhões de pessoas que não têm o costume de ler, ou porque não foram motivadas na infância ou porque mergulharam num mundo profissional onde se supõe que o livro é dispensável. É para estes e para as crianças que, certamente, a campanha do governo se dirigia. Eu sou contra a maioria das campanhas e das chamadas operações, quando se trata de problemas permanentes. A cólera voltou a aparecer na cidade pernambucana de São Bento do Una, não só porque a campanha de higiene contra ela deixou de ser veiculada, mas, e principalmente, porque faltou à Prefeitura uma ação educativa contínua. Não pode haver descuido, porque, como diz Camus, em A Peste, “virá talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordará os seus ratos e os mandará morrer numa cidade feliz”. Assim como existe o costume de ler, existe o de não ler. Mudanças nos costumes são mais difíceis de atingir do que as tecnológicas, dizem os sociólogos. As primeiras só podem ser alcançadas com ação educativa duradoura, muito duradoura.
Fiz essa longa e chata digressão apenas para saudar o ano Ibero-Americano da Leitura e suas perspectivas para o Brasil, neste 2005. Seu universo é de 21 países da Europa e das Américas, estes ainda nas garras, bem cravadas, do analfabetismo e da baixa renda. No Brasil, a batata quente ficará nas mãos de dois ministérios, o da Educação e o da Cultura – este descontemplado com a menor dotação orçamentária do corpo ministerial – e de uma tal de Assessoria Especial da Presidência da República, que deverão mobilizar (com dinheiro ou sem dinheiro?) governos estaduais, prefeituras e toda a sociedade civil, organizada ou não, mas ligada, direta ou indiretamente, ao livro, para eclodir o Vivaleitura, nome do programa em nosso país.
O governo pretende que o Vivaleitura seja “um marco (...) para que o Brasil implemente uma Política Nacional do Livro, Leitura e Bibliotecas”. Foi talvez essa a maneira de os planejadores do Planalto realizarem o objetivo maior do Ano Ibero-Americano da Leitura, que é o de “empreender ações imediatas e de longo prazo em favor da leitura”. Em outras palavras, 2005 seria um ano de muito estímulo barulhento ao hábito de leitura, com altos e óbvios dividendos políticos, enquanto a implementação de uma Política Nacional do Livro, Leitura e Bibliotecas, pela sua natureza de ação permanente, contribuirá, sim, e muito, para incutir o gosto, o vício da leitura.
É bastante oportuna a implantação de um programa com tal envergadura, justamente este ano, quando começa a vigir uma lei, assinada pelo presidente Lula, no final do ano passado, que isenta a produção de livros das con-tribuições do PIS/Pasep e Cofins, o que barateará o preço de capa. Curioso com a origem da lei, procurei a Constituição de 1988 e lá estava o Art. 150, vedando “instituir impostos sobre livros, jornais, periódicos e papel destinado a sua impressão.” Não foi, portanto, a pressão dos editores que gerou aquela Lei, mas o respeito do presidente à Constituição, que bastaria ser cumprida integralmente para levantar o Brasil, esplendidamente, de seu malfadado berço.
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