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Nos fins da década de 60, perto da morte de Ezra Pound, eu sempre conversava com o grande historiador Amaro Quintas, nas tardes do escritório de advocacia dos poetas Carlos Moreira e Audálio Alves. Numa dessas suarentas tardes, não sei por quê, o assunto Pound entrou na berlinda e eu, sempre pretensioso, lamentava que um poeta que muito contribuiu para mudar a face da poesia ocidental aderira ao fascismo na Itália, e fizera na Rádio Roma centenas de transmissões, durante a 2ª Guerra, condenando o esforço de guerra dos Estados Unidos e o que considerava o domínio da economia do país pelos banqueiros judeus. Mas sua fixação filosófica ia mais longe: ele condenava veementemente a usura. Mas eu achava dura e insensível a decisão dos EUA, ao prendê-lo, em 1945, de castigar um poeta que elevava a imagem de seu país, com sua internação num manicômio. (Não se apressem a rir, meus milhões de leitores, que todo poeta é doido eu concordo, mas só metaforicamente.)
O velho historiador, respeitável representante da esquerda pernambucana, com sua opinião insuspeita, respondeu-me que aquela internação representou o enorme respeito do governo norte-americano pelo extraordinário poeta, pois o longo tempo de transmissões radiofônicas, em plena 2ª Guerra, contra os aliados e os bancos judeus, seria cominado como crime de alta traição, punido com a pena de morte. O honrado mestre da história defendeu o grande inimigo do Norte, ficou com a verdade.
Não se sabe se Pound foi especialmente influenciado em sua guerra poética contra a usura pelos princípios econômicos dos estatutos, em particular, do nazismo, mais especificamente seu Programa do Partido Nacional-Socialista. Está lá, no Art. 11: “Pedimos a supressão de todos os rendimentos adquiridos sem trabalho, a abolição das percentagens e de todos os juros”. O programa-estatuto do nazismo foi feito para boi dormir ou inglês ver, pois, segundo Pierre Dehillotte, autor do livro Gestapo, dele não tomaram conhecimento sequer os altos dirigentes do partido e, muito menos, Hitler. Quanto a isso, nada me admira, pois os partidos brasileiros fazem tábula rasa de seus estatutos, e só cuidam em elaborar planos eleitorais.
Os livros sagrados também combatem os juros, como o Alcorão, que os chicoteia em três versículos (2:275; 276; e 3:130). Vejamos o versículo 3:130 – “Ó vós que credes, não vivais dos juros que vão dobrando a importância emprestada”. Na Bíblia, não procurei muito, mas achei, por acaso, no livro Provérbios, o versículo 28:8, que diz: “Quem multiplica suas riquezas com juros e usura acumula para quem se compadece dos fracos”. Bem, se as riquezas forem herdadas pelos filhos de um banqueiro ou de um especulador, eu duvido que eles se tornem umas Santas Teresas.
No milênio de teocracia medieval, a usura estava proibida em toda a Europa. Eu gostaria de ter nascido nessas trevas, mas não o grande escritor Ernest Renan (27.02.1823/02.10.1892), autor da História das Origens do Cristianismo, de onde transcrevo esta declaração: “O terror funesto espalhado durante a Idade Média pelo pretenso crime de usura foi o obstáculo que se ergueu durante mais de dez séculos ao progresso da civilização.” Renan diz isso porque nunca precisou utilizar um cheque especial, que às vezes chega a quase 300% a.a. de juros. Salve a universidade medieval, que não fez da ascensão acadêmica uma feira de troca-troca, e salve uma economia atrasada em que não havia o intermediário do dinheiro, que hoje ganha mais do que aquele que o gerou. O capital financeiro é, para mim, o verdadeiro Armagedon.
Não me lembro que outro grande poeta tenha elegido a usura, o juro, como tema, nem que ela tenha sido motivo para um grande pintor ou escultor, mas, para Pound, que uniu sua poesia coloquial à mais estreita rotina urbana, “ela oxida o cinzel/ ela enferruja o ofício e o artesão/ ela corrói o fio do tear.” Outro mestre da palavra, Gilberto Freyre, o mais paralelístico (ou poético) dos prosadores brasileiros, reconheceu como valor expressivo o que vem da realidade imediata, a que nos circunda, ao dizer: “Pobres dos poetas sem ouvidos para as vozes humildes; pobres dos poetas sem olhos para árvores que não sejam as clássicas; plantas que não sejam as ilustres; pássaros que não sejam sabiás.” A realidade da desigualdade social, gerada em parte pela acumulação desenfreada do capital financeiro, via juros exorbitantes, não passou despercebida ao velho Ezra Pound. Ele fez seus versos mergulharem fundamente nesse pecado original do capitalismo.
Neste março de 2005, em que escrevo estas maledicentes linhas, já foram divulgados pelos jornais os balanços da rede bancária no exercício de 2004. Nesse ano, três bancos ultrapassaram lucros superiores a R$ 3 bilhões: Banco do Brasil: R$ 3.024 bilhões, Bradesco: R$ 3.060 bilhões e Itaú: R$ 3.776 bilhões. Lucros auferidos por juros altíssimos, o abuso no número de tarifas e os títulos do governo. Não esquecer que o spread (diferença entre o que paga à captação e o que ganha em juros) bancário brasileiro é o maior do mundo. E ainda há pessoas inteligentes e que admiro que têm pena dos banquinhos, coitadinhos, por pagarem tantos impostos ao governo... Bem, eles são um mal necessário, uma doença crônica que poderia ser um rápido enfarte. São como aparelhos para respiração artificial, ruim com eles, pior sem eles. Já pensou?
Alguém de honesta, mas rígida formação acadêmica, poderia achar difícil rimar poesia com juros. A ele eu diria que em arte o conteúdo é imprescindível, mas pouco importa do que trata, podendo ser uma cueca ou a Santíssima Trindade. A diferença específica entre um grande poema e um discurso de Maluf está na forma. Foi a forma como Ezra Pound tratou o tema usura (Cantos 45) que o fez destacar-se como um tema raro, inesperado, e não a significação da usura em si.
Maldita a hora em que escolhi esse tema antipático para esta crônica. Meu contato mais próximo com um banco é aquele que me impõe a repartição ao depositar meu pobre salário numa conta bancária.
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