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A (in)constância da seca na Literatura
O mestre João Cabral de Melo Neto, em uma de suas
substantivas entrevistas, disse que falar de literatura era,
essencialmente, tratar de problemas estéticos, formais. Esta é
a verdadeira posição que um artista deve tomar desde que saiba
que um tema, por exemplo, como a seca no semi-árido do Nordeste
brasileiro, assim como qualquer tema real ou imaginário, não
é uma exclusividade de nenhuma área do conhecimento, seja ele
empírico ou teórico. Assim, além de ter sido alvo de
abordagens estéticas, a seca tornou-se objeto de estudo da
climatologia, meteorologia, geografia, economia, agronomia,
sociologia e um sem número de ciências e tecnologias criadas
ou sem vias de criação. Todo tema é terra de ninguém. Não
existem temas artísticos ou não-artísticos.
Embora não saiba se existem mais escritores que
cientistas no Nordeste, suspeito que os segundos produziram
incomparavelmente muito mais “literatura” sobre o drama das
estiagens periódicas do que os primeiros. Bem, os cientistas
teriam produzido mais literatura no sentido lato, na definição
da enciclopédia Larousse Cultural, ou seja, como “conjunto de
obras dedicadas a alguém, a um assunto”, e não em sentido
estrito, definido circularmente pela mesma enciclopédia como
“arte de escrever trabalhos artísticos em prosa e verso”.
Por falta absoluta de estatísticas sobre o assunto,
limito-me a dizer que esta não é sequer uma hipótese de
trabalho, no sentido técnico do termo, mas uma hipótese ditada
pela minha experiência menor de pesquisador na área da
sociologia rural ou pela minha experiência maior no campo das
letras, ou da literatura na acepção artística.
Literariamente, e no âmbito da literatura culta ou
eru-dita, acredito que, no Nordeste, a seca tenha sido um tema
que atraiu mais os ficcionistas do que os poetas. E
principalmente os romancistas nordestinos da década de trinta,
que conquistaram o país. Se tomarmos a definição de clássico
como algo digno de imitação, poderemos dizer que, em termos de
obra que tem a seca como tema, o único poema brasileiro que se
pode ombrear com o romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, é
Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Acredito
que a poesia “literária” procurou fugir da temática
regional – e a seca é, talvez, o tema mais importante – em
busca de padrões de universalidade. Isso não quer dizer que o
tema não tenha entrado acidentalmente na obra de muitos poetas
nordestinos, pois o que pretendo é mostrar a sua raridade, sua
estranha raridade na poética urbana regional, embora seja uma
tragédia intermitente e multissecular.
Se a seca é tema raro na poesia eru-dita, não o é
certamente naquela criada pelos poetas-repentistas e poetas de
cordel, ou seja, pela literatura oral. O problema é que não se
pode dimensionar a freqüência do tema nestas duas poéticas,
por falta de dados sistematizados. Acredito mesmo que os poetas
nordestinos que mais falaram sobre a seca foram os
poetas-repentistas. Eu mesmo, no município de Independência,
no Ceará, na década de setenta, dei um mote sobre a seca para
ser glosado por uma dupla de violeiros. Em Congressos de
violeiros ou nos chamados “pés-de-parede”, desafios
informais, a seca deve ter sido glosada poeticamente milhares de
vezes, mas o que foi gravado em fita cassete ainda não
transcrita deve constituir um acervo monumental, como o que se
encontra na casa de Giuseppe Bacaro e de Urbano Lima.
Quanto à chamada literatura de cordel, ou melhor, aos
folhetos, uma pesquisa sobre a incidência do tema da seca seria
mais fácil, pois é material já impresso e, geralmente, o peta
explicita logo no título de que trata o poema. O problema é
que não se tem acesso às listagens dos títulos junto às
instituições que abrigam grandes coleções de folhetos. É
preciso ir até elas porque, pela Internet, conforme pude
comprovar, quando pedi que fosse acessada para colher dados que
pudessem ilustrar empiricamente este artigo, nada consegui.
Através do considerado o maior site de busca do mundo, o Yahoo,
foram acessadas mais de 3290 páginas da web, procurando
pesquisas que cruzassem o tema da seca com o cordel e nada foi
encontrado sobre essa temática específica. A esperança é que
qualquer estudante de mestrado ou doutorado tome o assunto como
objeto de sua tese.
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