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Alberto da Cunha Melo
   

 

Alberto da Cunha Melo, poeta, jornalista, sociólogo é colunista da revista Continente Multicultural - coluna Marco Zero

Antologia virtual Plataforma: Alberto da Cunha Melo

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MARCO ZERO 


Isaura: do livro magro à gorda novela

“... essa mamadeira visual, que é a televisão.” 
Cassiano Nunes

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Dois Caminhos e uma Oração agrupa: 'Meditação Sob os Lajedos - quarto lugar do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira 2003, publicado em 2002, o poema épico Yacala de 1999, e Oração pelo Poema, de 1969. Em Dois Caminhos e uma Oração o rigor formal se alia ao coloquialismo da linguagem. O denso universo alegórico, constantemente invadido pelo insólito e pelo grotesco, serve como pano de fundo para a expressão da angústia humana, dos anseios de mudança ou da suspensão desoladora de crenças e esperanças que, paradoxalmente, levam à euforia e não à depressão, ao êxtase da sintonia fina da palavra, conforme o autor já definiu a arte poética.

 

"O Nordeste nos dá, mais uma vez, depois do paraibano Augusto dos Anjos (presente de modo subliminar na atmosfera de várias passagens de Yacala), do alagoano Jorge de Lima e dos pernambucanos Carlos Pena Filho e João Cabral, a sua lição de dor que se faz beleza e arranca de si forças para construir uma poesia como a de Alberto da Cunha Melo, cujo nome secreto é resistência."

(Prefácio da edição fac-simille do livro YACALA, UFRN, Natal, RN, 2000, incluído na obra Dois Caminhos e uma Oração)

Meditação sob os Lajedos 2002; quarto lugar do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira 2003. 

Oração pelo Poema, 1969. Clique na capa e leia um fragmento do poema editado na Plataforma para a Poesia. Ou leia todo o poema na home page do poeta. Clique aqui.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

           copyright revista Continente Multicultural, coluna Marco Zero. Recife: n. 54, junho de 2005, ilustração de Bueno.

         

      

          Com minha desautorizada opinião, menos timorata que atrevida, resolvi botar meu pé na “selva selvática” das relações entre uma obra literária (romance) e sua versão, ou melhor, paráfrase, no medium eletrônico, uma telenovela. O romance é “Escrava Isaura”, do mineiro Bernardo Guimarães (Joaquim da Silva). O autor nasceu em 1825 e morreu em 1884 e sua obra, nada prima, publicada em 1875, tem temática escravagista, 13 anos antes da Abolição. Daí o seu único mérito: ser corajoso (ma non troppo), porque em estética é uma calamidade. E olhem lá, meus milhões de leitores, quem o considerou uma espécie de romantismo, chegando manco à escola, tornou-se um best-seller em seu tempo, como foram, nas primeiras décadas do século 20, alguns livros de Humberto de Campos e Benjamim Costalat (alguém se lembra deles?). O Romantismo teve o seu kitsch, assim como o Modernismo teve o seu Pé de Laranja-Lima, seu chá de louro, sua papinha das oito.
Meu encontro com o tema de hoje foi por caminhos tronchos. Eu assisto ritualmente ao Jornal da Record e, antes dele, passava a telenovela Escrava Isaura. Há uns três meses, vinha assistindo ao final dos capítulos, esperando o Jornal, e terminei assistindo a eles e ao noticiário inteiros. Nos créditos, dizia-se que era uma adaptação livre do romance de igual nome, de Bernardo de Guimarães. Oswald de Andrade tem um livro intitulado A Escrava que não é Isaura, e então me interessei pelo texto e, como trabalho na Biblioteca Estadual (setor de obras raras), pensei em tirá-lo, mas tive que esperar uns 15 dias para ter em mãos um dos dez exemplares do acervo, pois todos tinham sido emprestados a telespectadores ligados ao calvário da inditosa donzela. Quando a televisão resolve adaptar um livro para os seus folhetins digitais, pode ficar certo de que a editora, que o esquecera no pó do faturamento passado, vai “lavar a burra” como dono de Banco brasileiro. Li o livrinho em duas tardes, entre a recepção de um pesquisador ou outro. É magro e pobre feito top-model sertaneja, desfilando na seca.

A trama do “livrorum” (alô, poeta Mário Hélio) é: uma mocinha branca, filha de negra escrava com feitor português, é cativa de um fazendeiro mau de bofes e bote mau nisso. Numa fuga frustrada, ela encontra um mocinho rico que, mais tarde, a livra do tirano, ao tomar posse de seus bens, pagando todas as suas dívidas. O feroz senhor, falido, entra no quarto e mete uma bala na cabeça. Fim. Essa esquelética história dura na TV algo em torno de 170 capítulos, pouco mais de cinco meses, sob o condão da redundância mais enjoativa do mundo.

Os personagens de B.G. são meras silhuetas, sem corpo, sem alma, só sombras platonicamente refletidas no fundo de uma caverna. Ele fala numa beleza de Isaura, que ninguém vê, mas, como diz Alfredo Bosi, “toda a beleza da escrava é posta no seu não parecer negra, mas nívea donzela” (sugerindo um preconceito disfarçado). Mas, para tudo há gosto e Antônio Cândido viu outra coisa na brancura da moça: “mostrando a extrema odiosidade a que podia chegar a escravidão, atingindo pessoas iguais na aparência às do grupo livre”. Bondades de sociólogo, que ele também é.

Um dado sem qualquer importância estética, mas interessante para os pernambucanos, é que Isaura e o pai, no livro, fogem para o Recife, onde mora o mocinho louro em sua fazenda, “no bairro de Santo Antonio”. Uma fazenda no centro do Recife, em 1875 (publicação do romance)? Basta dizer que, pela velha estatística que guardo nas minhas bruacas, em 1872, o Rio de Janeiro ostentava o 1º lugar em população, no Brasil, com 274.972 habitantes, e o Recife, o 3º, com 116.671. Nessa época, o bairro de Santo Antônio já possuía edifícios (sobrados) de três a quatro andares. Que diabo ia fazer uma fazenda no meio desses prédios e dessa população? A resposta é que, segundo um dos historiadores, Bernardo Guimarães escreveu sobre dois locais a que nunca fora: Campos, no Rio, e Recife, em Pernambuco. Mas isso não diminui nem aumenta o mérito estético do livro, não sou tão aristotélico para dar tanta importância à verossimilhança. Vale só um comentário, à vol de caga-sebito.

O vilão do livro, se comparado ao da novela de Tiago Santiago, parece até um mero menino malcriado. A mocinha é típica heroína romântica, mas não do tipo que se rebela, mas daquele que resiste, e que nas mãos de um grande escritor seria uma nova Ana Karenina. Para a maioria dos historiadores da literatura, esse romance destoa de toda a obra de Bernardo Guimarães, de tão ruim que é (eu mesmo só consegui engoli-lo, para escrever as minhas maldesgraçadas linhas). Ele não é simples, é simplório. Eu gosto dos livros simples, como Lua Crescente, do indiano Rabindranat Tagore; Platero e Eu, de Juan Ramón Jeménez, e O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. Ser simples é difícil, ser simplório é fácil.

A transposição de um romance hiper-romântico para a telinha, com a trama situada há mais de 100 anos, implica na confecção de um produto a que se chama geralmente “de época”. No caso de A Escrava Isaura, a pobreza absoluta do livro em descrições do meio ambiente e dos costumes, em particular a moda, implica em pesquisa histórico-geográfica por parte dos teledramaturgos. Substituíram o Recife por um lugar chamado de Águas Lindas, em São Paulo. Campos, no Rio, foi mantida como a toca do lobo mau. Isso não só reduziu os custos, mas resolveu também a incoerência histórica. Os telenovelistas tiveram de encontrar um ambiente natural, e reconstituir figurinos, falas (estratificadas entre aristocratas, escravos e homens livres).

Em tudo isso saíram-se, no meu curtíssimo ponto de vista, bem. Quanto aos personagens, a falta de paisagens interiores, que repete o vazio exterior, no livro, os técnicos da novela precisaram criar ânima, vida, caráter, em suma, criar o que não existe no romance. Também nisso saíram-se bem, apoiados num elenco admirável, com Bianca Rinaldi (Isaura), Leopoldo Pacheco (Leôncio, a fera), Mayara Magri (Tomásia), Patrícia França (Rosa); e aquele que roubou todas as cenas em que apareceu, Ewerton de Castro (Belquior, o corcunda). Eu assisti ao filme O Corcunda de Notre Dame (1956), com Antony Quinn fazendo o papel-título, e meu pai não esquecera Lon Chaney, em filme de 1923, fazendo o mesmo personagem. Mas cá para mim, Ewerton superou Quinn e quem sabe se eu não diria o mesmo de Chaney, se o tivesse visto? Dizia Drummond que um conto é bom quando deixa na lembrança do leitor pelo menos um chapéu. No livro, Belquior é citado de passagem. Mas toda vez que me lembrar da telenovela, a primeira ou a única figura que me virá à memória será ele, com certeza. Tudo é tão diferente do livro que poderíamos até colocar na telenovela outro título, como O Sapo e a Muriçoca, O Galo e a Minhoca etc. É brincadeira, mas se a telenovela passasse um ano num desumificador, perdendo água, daria de 10 a zero naquele e em muitos outros romances, mesmo com tantos “meu amado! minha amada!” que lambujam a alma da gente.



Sobre Alberto, encontram-se  verbetes no Dicionário Biobibliográfico de Poetas Pernambucanos (CEPE, Recife, 1993), na Enciclopédia VERBO das Literaturas de Língua Portuguesa. (ed. Verbo, Lisboa/São Paulo, 1999) e na Enciclopédia de Literatura Brasileira (Global Editora, São Paulo, 2001). 

 
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