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Com
minha desautorizada opinião, menos timorata que atrevida,
resolvi botar meu pé na “selva selvática” das relações
entre uma obra literária (romance) e sua versão, ou melhor,
paráfrase, no medium eletrônico, uma telenovela. O romance é
“Escrava Isaura”, do mineiro Bernardo Guimarães (Joaquim da
Silva). O autor nasceu em 1825 e morreu em 1884 e sua obra, nada
prima, publicada em 1875, tem temática escravagista, 13 anos
antes da Abolição. Daí o seu único mérito: ser corajoso (ma
non troppo), porque em estética é uma calamidade. E olhem lá,
meus milhões de leitores, quem o considerou uma espécie de
romantismo, chegando manco à escola, tornou-se um best-seller
em seu tempo, como foram, nas primeiras décadas do século 20,
alguns livros de Humberto de Campos e Benjamim Costalat (alguém
se lembra deles?). O Romantismo teve o seu kitsch, assim como o
Modernismo teve o seu Pé de Laranja-Lima, seu chá de louro,
sua papinha das oito.
Meu encontro com o tema de hoje foi por caminhos tronchos. Eu
assisto ritualmente ao Jornal da Record e, antes dele, passava a
telenovela Escrava Isaura. Há uns três meses, vinha assistindo
ao final dos capítulos, esperando o Jornal, e terminei
assistindo a eles e ao noticiário inteiros. Nos créditos,
dizia-se que era uma adaptação livre do romance de igual nome,
de Bernardo de Guimarães. Oswald de Andrade tem um livro
intitulado A Escrava que não é Isaura, e então me interessei
pelo texto e, como trabalho na Biblioteca Estadual (setor de
obras raras), pensei em tirá-lo, mas tive que esperar uns 15
dias para ter em mãos um dos dez exemplares do acervo, pois
todos tinham sido emprestados a telespectadores ligados ao calvário
da inditosa donzela. Quando a televisão resolve adaptar um
livro para os seus folhetins digitais, pode ficar certo de que a
editora, que o esquecera no pó do faturamento passado, vai
“lavar a burra” como dono de Banco brasileiro. Li o livrinho
em duas tardes, entre a recepção de um pesquisador ou outro.
É magro e pobre feito top-model sertaneja, desfilando na seca.
A trama do “livrorum” (alô, poeta Mário Hélio) é: uma
mocinha branca, filha de negra escrava com feitor português, é
cativa de um fazendeiro mau de bofes e bote mau nisso. Numa fuga
frustrada, ela encontra um mocinho rico que, mais tarde, a livra
do tirano, ao tomar posse de seus bens, pagando todas as suas dívidas.
O feroz senhor, falido, entra no quarto e mete uma bala na cabeça.
Fim. Essa esquelética história dura na TV algo em torno de 170
capítulos, pouco mais de cinco meses, sob o condão da redundância
mais enjoativa do mundo.
Os personagens de B.G. são meras silhuetas, sem corpo, sem
alma, só sombras platonicamente refletidas no fundo de uma
caverna. Ele fala numa beleza de Isaura, que ninguém vê, mas,
como diz Alfredo Bosi, “toda a beleza da escrava é posta no
seu não parecer negra, mas nívea donzela” (sugerindo um
preconceito disfarçado). Mas, para tudo há gosto e Antônio Cândido
viu outra coisa na brancura da moça: “mostrando a extrema
odiosidade a que podia chegar a escravidão, atingindo pessoas
iguais na aparência às do grupo livre”. Bondades de sociólogo,
que ele também é.
Um dado sem qualquer importância estética, mas interessante
para os pernambucanos, é que Isaura e o pai, no livro, fogem
para o Recife, onde mora o mocinho louro em sua fazenda, “no
bairro de Santo Antonio”. Uma fazenda no centro do Recife, em
1875 (publicação do romance)? Basta dizer que, pela velha
estatística que guardo nas minhas bruacas, em 1872, o Rio de
Janeiro ostentava o 1º lugar em população, no Brasil, com
274.972 habitantes, e o Recife, o 3º, com 116.671. Nessa época,
o bairro de Santo Antônio já possuía edifícios (sobrados) de
três a quatro andares. Que diabo ia fazer uma fazenda no meio
desses prédios e dessa população? A resposta é que, segundo
um dos historiadores, Bernardo Guimarães escreveu sobre dois
locais a que nunca fora: Campos, no Rio, e Recife, em
Pernambuco. Mas isso não diminui nem aumenta o mérito estético
do livro, não sou tão aristotélico para dar tanta importância
à verossimilhança. Vale só um comentário, à vol de
caga-sebito.
O vilão do livro, se comparado ao da novela de Tiago Santiago,
parece até um mero menino malcriado. A mocinha é típica heroína
romântica, mas não do tipo que se rebela, mas daquele que
resiste, e que nas mãos de um grande escritor seria uma nova
Ana Karenina. Para a maioria dos historiadores da literatura,
esse romance destoa de toda a obra de Bernardo Guimarães, de tão
ruim que é (eu mesmo só consegui engoli-lo, para escrever as
minhas maldesgraçadas linhas). Ele não é simples, é simplório.
Eu gosto dos livros simples, como Lua Crescente, do indiano
Rabindranat Tagore; Platero e Eu, de Juan Ramón Jeménez, e O
Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. Ser simples é
difícil, ser simplório é fácil.
A transposição de um romance hiper-romântico para a telinha,
com a trama situada há mais de 100 anos, implica na confecção
de um produto a que se chama geralmente “de época”. No caso
de A Escrava Isaura, a pobreza absoluta do livro em descrições
do meio ambiente e dos costumes, em particular a moda, implica
em pesquisa histórico-geográfica por parte dos teledramaturgos.
Substituíram o Recife por um lugar chamado de Águas Lindas, em
São Paulo. Campos, no Rio, foi mantida como a toca do lobo mau.
Isso não só reduziu os custos, mas resolveu também a incoerência
histórica. Os telenovelistas tiveram de encontrar um ambiente
natural, e reconstituir figurinos, falas (estratificadas entre
aristocratas, escravos e homens livres).
Em tudo isso saíram-se, no meu curtíssimo ponto de vista, bem.
Quanto aos personagens, a falta de paisagens interiores, que
repete o vazio exterior, no livro, os técnicos da novela
precisaram criar ânima, vida, caráter, em suma, criar o que não
existe no romance. Também nisso saíram-se bem, apoiados num
elenco admirável, com Bianca Rinaldi (Isaura), Leopoldo Pacheco
(Leôncio, a fera), Mayara Magri (Tomásia), Patrícia França
(Rosa); e aquele que roubou todas as cenas em que apareceu,
Ewerton de Castro (Belquior, o corcunda). Eu assisti ao filme O
Corcunda de Notre Dame (1956), com Antony Quinn fazendo o
papel-título, e meu pai não esquecera Lon Chaney, em filme de
1923, fazendo o mesmo personagem. Mas cá para mim, Ewerton
superou Quinn e quem sabe se eu não diria o mesmo de Chaney, se
o tivesse visto? Dizia Drummond que um conto é bom quando deixa
na lembrança do leitor pelo menos um chapéu. No livro,
Belquior é citado de passagem. Mas toda vez que me lembrar da
telenovela, a primeira ou a única figura que me virá à memória
será ele, com certeza. Tudo é tão diferente do livro que
poderíamos até colocar na telenovela outro título, como O
Sapo e a Muriçoca, O Galo e a Minhoca etc. É brincadeira, mas
se a telenovela passasse um ano num desumificador, perdendo água,
daria de 10 a zero naquele e em muitos outros romances, mesmo
com tantos “meu amado! minha amada!” que lambujam a alma da
gente.
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