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Para o artista pobre, a escravidão do trabalho compulsório só lhe deixa as horas de sono e de cansaço para construir a sua obra. Isto não é um postulado. Certos tipos de artista, como o artesão e o violeiro repentista, por exemplo, realizam sua obra como trabalho voluntário, sobrevivem criando. Muitos, modestamente, como um vaqueiro, outros e poucos, com o padrão de vida, vamos dizer, de um dentista do interior. Todos, no entanto, têm o vago sonho de receber uma herança de parente desconhecido, que não morre nunca, ou de um Mecenas salvador, que parece morar tão longe, como quem mora no passado.
Caius Gilnius Mecenas, ou simplesmente Mecenas, personagem histórica e metonímica, sempre foi concebido em minha imaginação como um anjo da guarda dos poetas. Ele próprio autor de obras de poesia e de história natural, o primeiro mais célebre e rico protetor dos poetas pobres, coisa difícil de acontecer nestes tempos em que faz dois mil e treze anos de sua morte (69 – 8 a.C.). Hoje, os artistas de muitas posses deixam morrer à míngua os confrades sem barraco e sem fogão, sob o argumento de que a miséria é um ótimo estímulo e tema para a arte.
Esta crônica começou mais velha e quadrada do que as outras, e peço perdão aos meus milhões de leitores, todos rigorosíssimos. Mas a divagação ginasiana é necessária para mostrar que, pelo menos neste hemisfério, é mais fácil encontrar o homem de Cro-Magnon tomando fanta na esquina do que um milionário oferecendo proteção permanente a um pintor, escultor, músico e, por que não? poeta.
Mecenas protegeu três grandes poetas: Virgílio, Propércio e Horácio. Não sei o que fez de bom com os dois primeiros, mas consta que deu a Horárcio uma pequena fazenda e uma pensão permanente para viver, com dignidade, escrevendo apenas a sua poesia. Nos seus quatro livros de odes, encontrei sete composições dedicadas e de louvor a Mecenas, e seis a Augusto. Nos Epodos, quatro composições dedicadas a Mecenas. O que não sei é se foram escritas antes ou depois da fazenda. O lavor, a beleza de uma obra que dois milênios consagraram levam a crer que foi a gratidão, um sentimento elevado, e não a bajulação, coisa de cafajeste, e mais o vagar de um artesanato racional pré-cabralino, que deram ao poeta condições psicológicas e materiais para realizá-la. Aquela dúvida minha é pura maledicência, que aprendi aqui, no Recife.
Na Grécia do século 6 a.C., “era das trevas” para alguns historiadores, quando o tirano Pisístrates dominava Atenas (o mesmo que ordenou a primeira versão escrita das epopéias de Homero) poetas pobres e famosos da época, como Anacreonte e Simônides, eram convidados como hóspedes do palácio real. Quanto aos demais poetas, cantavam com suas cítaras nas feiras em troca de algumas moedas, como nossos repentistas nos começos. No entanto, não considero mecenato esses gestos do poder, nem sequer a acolhida que deu a baronesa de Duino a Rilke. Esses apoios passageiros não garantem a sobrevivência do artista. Sua presença no palácio eleva a imagem do poderoso, ao invés de resultar em benefício para o hóspede genial.
Mecenato verdadeiro, para mim, que faça jus à sua origem histórica, é uma proteção vitalícia proporcionada por um homem muito rico a um poeta, um pintor, um escultor, um músico, um cientista, ou ainda um atleta sem posses. O Mecenas pode criar um fundo de proteção permanente, como fez o filósofo Wittgenstein, com sua fortuna, que seu gesto não deforma o conceito. Na verdade, o conceito de mecenato foi, aos poucos, adquirindo tal extensão que sua compreensão se esgarça cada vez mais. Financiar um projeto ou uma viagem com estadia não é mecenato. Divulgar a obra do artista também não o é. Mecenato é proteção financeira permanente, vitalícia, o resto é esmola. Os ricos brasileiros são espantosamente ricos, porque temos a segunda maior concentração de renda do mundo, depois de Serra Leoa, e não tenho notícia de um só Mecenas.
O que fazem os ricos brasileiros com tanto dinheiro? No ano 2000, depois de dois anos de investigações, a Polícia Federal descobriu que nada menos de R$124 bilhões foram mandados para o exterior, em quatro anos, por cinco mil pessoas envolvidas com lavagem de dinheiro. Aquele valor, nestes últimos quatro anos, deve ter duplicado. O sistema financeiro nacional parece ser uma quadrilha só. Como esperar que desse meio criminoso surja um Mecenas?
Desde os tempos de Sarney (85-89) foi criada no Brasil uma Lei de Incentivos Fiscais à Cultura. Bancos, empresas privadas e estatais podem aplicar um percentual de seus impostos devidos em atividades culturais. Com a parte do imposto que deixou de repassar ao governo, pois se trata de dinheiro público, os empresários selecionam os eventos ou atividades culturais que lhes convêm e lhes dão retorno institucional, elevando sua imagem, e a marca de seus produtos. Isso é fazer pose com o dinheiro do povo e de mecenato não tem nada. O que é mais preocupante é o fato de que essas leis de incentivo, nos planos federal, estadual e municipal, deixam à mercê dos gerentes de marketing das empresas o poder de ditar a política cultural do país. Como a característica desse marketing é investir o dinheiro de todos nós nos artistas que consideram de “alta visibilidade” e, portanto, de alto retorno, um mundo de artistas invisíveis e pobres ficam fora dessa política mais mercadológica que cultural.
Outra distorção causada pelos incentivos fiscais, segundo a comentarista Cláudia Amorim, é a de condicionar o empresariado “a só patrocinar com verba incentivada.” Se esse negócio é mecenato, eu me chamo pé de quentro. Será que bater palmas também é? Vote! A Lei de incentivo de Portugal se chama Estatuto do Mecenato, e foi aprovada em 1999. O sofrido dinheirinho do povo tem muitos apelidos, mas pouco importa seu nome aos artistas ricos para os quais, agora, é arrecadado. Concentrar é a lei do sistema econômico e do incentivo fiscal, meu irmão.
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