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Alberto da Cunha Melo, poeta, jornalista, sociólogo é colunista da revista Continente Multicultural - coluna Marco Zero

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Dois Caminhos e uma Oração agrupa: 'Meditação Sob os Lajedos - quarto lugar do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira 2003, publicado em 2002, o poema épico Yacala de 1999, e Oração pelo Poema, de 1969. Em Dois Caminhos e uma Oração o rigor formal se alia ao coloquialismo da linguagem. O denso universo alegórico, constantemente invadido pelo insólito e pelo grotesco, serve como pano de fundo para a expressão da angústia humana, dos anseios de mudança ou da suspensão desoladora de crenças e esperanças que, paradoxalmente, levam à euforia e não à depressão, ao êxtase da sintonia fina da palavra, conforme o autor já definiu a arte poética.

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Entrevistadores: Alcir Pécora, Alfredo Bosi, Anderson Braga Horta, Astier Basílio, Deonísio da Silva, Domingos Alexandre, Eduardo Martins, Ermelinda Ferreira, Evandro Affonso Ferreira, Isabel Moliterno, Ivan Junqueira, Ivo Barroso, José Nêumanne Pinto, Mário Hélio, Martim Vasques da Cunha 

 

ATRÁS DE OUTRA DALILA

copyright revista Continente Multicultural, coluna Marco Zero. Recife: n. 59, novembro de 2005, 

ilustração de Bueno.

Vocês sabem o que é dalila? Não estou falando na personagem bíblica, que desposou Sansão, um hebreu mais forte do que Schwarzenegger, e num dia escabroso o capou, ó filistéia, enquanto dormia. Quando garoto, meu pai falou-me várias vezes dos tempos dos saraus, em que as pessoas declamavam poemas “ao som da dalila”, mas não me lembro se lhe perguntei o significado, apenas que me ficou na memória um significado único: dalila era um tipo de acompanhamento musical. Mas, de onde viera, quem fora seu autor? Perguntas como essas eu nunca encontrei resposta para elas em dicionários e enciclopédias famosos e em todos os outros que encontrei na Biblioteca do Estado. Comecei por dois muito bons, Webster’s e o Larousse Cultural e terminei desistindo.

Creio que dalila, na acepção de acompanhamento, não consta de nenhum verbete, por se tratar de uma moda de salão, que sumiu com o fim dos recitais. Em letra impressa encontrei quase nada. Numa edição da revista recifense A Pilhéria, de 1931, o escritor Limeyra Tejo publica um trecho de reportagem, onde diz: “(...) Ia recitar um soneto de sua “larva” (sic), Ingrata. A voz do bacharel sincroniza com uma dalila arranjada numa viola”. Uma vez consultei o historiador Nilo Pereira, que já tinha seus 70 anos naquela época, e ele me disse que nunca ouvira falar em dalila. Ele era do Rio Grande do Norte: será que era só praticada em Pernambuco?

Algo que guarda certa relação com a palavra, mas de modo bastante individualizado, encontrei no Dicionário Musical Brasileiro de autoria de Mário de Andrade, “o maior crítico de música do Brasil”, segundo o mestre Sebastião Vila Nova. Vamos ao verbete escrito pelo poeta de 22: “Dalila – trecho orquestral que acompanhava o monólogo ‘Cerração no Mar’, declamado nos intervalos dos bailes pastoris, na Bahia de outr’ora”. Enquanto na Bahia a dalila era acompanhamento de um determinado monólogo, isso não acontecia em Pernambuco.

Liguei para o grande sonetista brasileiro, Waldemar Lopes, hoje com 96 anos de lucidez, ele disse que assistiu a muitos recitativos ao som da dalila. Lembra-se de que era uma música que podia ser tocada por qualquer instrumento e era sempre ela mesma, não importando o tipo de poema e seu conteúdo. Disse que também testemunhou recitativos cuja dalila vinha de um disco do gramofone e sugeriu que consultasse o acervo discográfico do Jornal do Commercio. Fui lá, e me disseram que todo o acervo tinha sido doado à Fundação Municipal de Cultura, aí desisti por completo, porque conheço o serviço público.
Nos começos do século 20, o classicismo nas artes predominava nas elites, resquícios da aristocracia que teimava a permanecer nos espíritos. O meu amigo Urariano Mota, para ajudar-me, mandou-me pela internet umas pistas excelentes para a minha busca. Uma delas foi o sucesso no Brasil da ópera de Camille Saint-Saens, Sansão e Dalila. Um dos trechos instrumentais dela – é a hipótese – teria dado origem à dalila brasileira. A outra pista nada mais é do que a confirmação de que aquele acompanhamento musical era muito popular no Brasil. Trata-se de uma composição (polca) de José Maria de Abreu (Zequinha de Abreu) e Luis Peixoto. Eis a estrofe:

“Atenção acordes de Dalila
Seu Gil vai recitar
Formam roda
E o moço encalistrado
Começa a gaguejar.”

Bem, parece que a contribuição de sua majestade, a internet, ficou por aí. Para quem pensa numa identi dade da dalila com os toques de viola dos violeiros-repentistas do Nordeste, engana-se, porque para cada gênero de cantoria há uma melodia própria, e não haveria uma dalila para cada espécie de poema (soneto, sextilha...). Não acredito que se trate de uma moda de salão existente, na época, apenas em Pernambuco e na Bahia, pois, se a hipótese da ópera é correta, ela deve ter ocorrido inicialmente no Rio de Janeiro, onde Sansão e Dalila estreou em 1898. O Império caiu, mas os salões e suas modas continuaram por muito tempo.

Depois de tantas circunvoluções em torno de um troço que já morreu, meus milhões de leitores devem estar impacientes, a perguntarem: E daí?
E daí que o assunto vem despertando, há tempos, o meu interesse, porque trata de um tipo de difusão e recepção da poesia aliada à música. Poesia e música têm um gene comum: o ritmo, caso eu defina a poesia como linguagem simbólica que se expressa de modo não contínuo, rítmico e conotativo (este, aliás, já implícito no atributo simbólica). Tudo que se refere ao poema, sua estrutura, sua musicalidade e sua difusão, me interessam. Mesmo formas de tornar mais consumível aos leigos a poesia, como a dalila, que já morreu, me chamam a atenção.
A crônica deste mês tem, também, segundas intenções, que é envolver na conversa pessoas que saibam mais coisas sobre a dalila do que eu. Podem escrever, desancar esta crônica, contanto que coloque no lugar dela conhecimento histórico e o testemunho idôneo. Por hoje, basta de entupir os ouvidos dos leitores com a filistéia Dalila.

 

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