Cláudia Cordeiro Reis

A Plataforma da Crítica

www.plataforma.paraapoesia.nom.br

   

 

Cláudia é professora especialista em Literatura Brasileira, e editora do Plataforma para a poesia e suas Trilhas Literárias

Publicações:

Faces da Resistência na Poesia de Alberto da Cunha Melo. Recife: Bagaço, 2003, ensaio.

CD Plataforma para a Poesia. Poemas Indispensáveis. Recife: Plataforma, 2004.

 

Uma nova aliança: O Poder de Nomear e O Poder da WEB

"La fraternité n’est pás un mythe"
Lautréamont 

©   copyright revista Continente Multicultural. Recife: n. 30.março de 2003.

          

         

             Obviamente não estamos no momento, no dia, no mês, no ano, no século próprios à poesia. Obviamente o homem perdeu seu poder ontológico de nomear os seres, as coisas e os sentimentos. Somos a civilização de sílabas desconexas, palavras que espelham apenas o significante, nunca decifrado, pois não há o que decifrar, a não ser as cifras bancárias. Será que a arte poética está fadada a mofar nos porões das editoras ou ser virtualmente "deletada" dos computadores da imprensa? Mero lixo virtual. Será? 
             A resposta seria afirmativa se analisarmos que as leis do mercado transformaram-nos unicamente em mercadoria. Anônimo, pura abstração na engenharia econômica, o ser foi reduzido a cifras no dever-haver cotidiano das instituições financeiras. Amorfa, então, a grande maioria busca identificar-se com os padrões estabelecidos de prosperidade: o carro do ano, a grife vestindo o corpo - não mais que um corpo -, o cartão de crédito e toda a parafernália de uma tribo mergulhada no abismo do ter, ou melhor, do não-ser. Campeiam, então, o absurdo e a vulgaridade, o kitsch facilmente absorvido pelas massas.
             O cineasta Robert Altman disse uma vez que os filmes de Hollywood são agora dirigidos pelas pesquisas de mercado. Mas não só a indústria cinematográfica busca atender à voracidade do lucro, mas também a fonográfica que joga no mercado, cotidianamente, nada mais que jargões de tribos distantes, ruídos ensurdecedores, no máximo esgares do não-ser. Às vezes, é possível perceber que a legião de gentes que se apropria de gestos e refrãos, na absurda saga da vulgaridade, reverbera estranhos rituais do berço da civilização. Sem que isso represente uma proposta consciente e rebelde ao status quo, como o foram as propostas modernistas de 1922. Pelo contrário, representa a mais pura alienação.
            Mas, quando escrevíamos este artigo recebemos uma mensagem de Silvana Guimarães (MG), uma das editoras do Projeto Diário de Literatura, dando-nos conta do segundo livro de poesia do Papa João Paulo II: Tríptico Romano. O sumo pontífice não abdicou do poder também de nomear sua paixão pela Arte Poética e convocou a impressa internacional para anunciar a sua mais recente criação. Acessei portais de busca e logo vieram inúmeras referências dando conta das preciosas quatorze páginas que serão traduzidas para o inglês, italiano, francês, alemão e espanhol. Mas a versão em polonês já vendeu 300 mil exemplares. Presume-se, assim, que será durante muito tempo o livro de poesia mais vendido no mundo. Mais que isso: renova-se o poder inolvidável da Poesia enquanto instituição social, estimulando os milhares de talentos que veiculam seus poemas pelos mares da web, na falta de políticas editoriais que dêem vez à publicação em livro.
            Esse fato animou-nos a procurar resposta à interrogação inicial deste artigo que, em parte, se vincula a do fórum de debates do sítio virtual, Trilhas Literárias: “Poesia na Internet: banalização ou resistência?” Acessei então o Googel, um dos maiores portais de busca do mundo, e digitei a palavra "poesia". Vieram-me 864.000 páginas. A seguir, digitei a palavra "dinheiro", 856.000 páginas. Pelo menos nos portais de busca, vencemos. 
            Mas isso não é argumento que derrube a sanha do mercado nem a agiotagem dos banqueiros, nem que traga para as páginas impressas os volumes de poesia que mofam nos porões das editoras. Muito menos que arrefeça a solidão do poeta diante desse mar de abismos distanciando o ser dos outros seres, e o ser dele mesmo. Mas algo se anuncia insofismavelmente: não estamos sozinhos. Mesmo sitiados pelas contingências, lançamos nosso grito a outros através do etéreo poder da web. Indiscutivelmente, ela passou a ser o ponto de encontro dos que fazem poesia, dos que lêem poesia. Essa "anti-mercadoria", como a nomeia o poeta Alberto da Cunha Melo.
            É um salto, sim. Entre nós, Lautremont, o poeta maldito, abriria um sorriso ao ver se confirmarem suas palavras: "A fraternidade não é um mito". Não, não é um mito, uma ficção, uma farsa. A fraternidade é possível. Não importa se a poesia veiculada pela web seja falsa (se os seus produtores pensam apenas em títulos gravados nos túmulos da burocracia do sistema) ou verdadeira (se impregna à palavra o sopro de vida, dando nome e voz ao ser), pois o tempo cuidará de trazer à luz a verdade que sangra sua incompletude, nas telas dos computadores, a avisar que o tempo é de fraternidade, que o ser desperta devagarzinho, envolvido que está com a gosma do sistema, para um mundo renovado, onde se construam pontes sobre os abismos das nossas solidões.
           Ao inesperado poder virtual, a poesia se une e se alteia, vencendo aos poucos o ceticismo, o tédio e o ódio, em nome dessa fraternidade, em nome do mais nobre e ontológico poder delegado ao homem: o poder de nomear, fundamento primeiro da verdadeira poesia.
Animemo-nos com a palavras do pontífice-poeta João Paulo II, em sua Carta aos Artistas, de 1999, que pode ser facilmente lida, na íntegra, acessando o endereço virtual: http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/letters/documents/hf_jp-ii_let_23041999_artists_po.html#top

            Ninguém melhor do que vós, artistas, construtores geniais de beleza, pode intuir algo daquele pathos com que Deus, na aurora da criação, contemplou a obra das suas mãos. Infinitas vezes se espelhou um relance daquele sentimento no olhar com que vós — como, aliás, os artistas de todos os tempos —, maravilhados com o arcano poder dos sons e das palavras, das cores e das formas, vos pusestes a admirar a obra nascida do vosso gênio artístico, quase sentindo o eco daquele mistério da criação a que Deus, único criador de todas as coisas, de algum modo vos quis associar.
                                                                               Amém!

       
 

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