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Ermelinda Ferreira
 

 Ermelinda Ferreira é doutora em Letras pela PUC e professora da UFPE e da FAFIRE.

 

 

 

 

 

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Dois Estudos Pessoanos

 
     
     
 

 
 

Vitral ao Sol

 
  Ensaios sobre Osman Lins  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
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“Na véspera de não partir nunca”: 70 anos sem Fernando Pessoa
(Coletânea de Ensaios)


Organização: Ermelinda Ferreira
Recife: Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE, 2005

!lique na capa para ter acesso à programação do Seminário 2005

Que importa o areal e a morte e a desventura/Se com Deus me guardei?/É O que me sonhei que eterno dura./É Esse que regressarei.
Fernando Pessoa

               Relembrar o aniversário de morte de Fernando Pessoa é tentar imaginar o que significou para o poeta – cujo futuro de glória e eternidade foi pacientemente gestado ao longo de toda uma vida de anonimato e nomadismo – aquele momento em que se apercebe estar, afinal, na ante-sala do seu destino: “na véspera de não partir nunca”. “Dá-me os meus óculos” – pede ele, como para ver-se melhor às portas do tão desejado e merecido panteão, quando o mundo à sua volta começa a escurecer irremediavelmente. Mundo sobre cujos mistérios ele lançou infinitas luzes, luzes destinadas a iluminar caminhos imprevistos, contribuindo para a ampliação da visão humana através dos olhos de seus leitores, que sendo pessoas também são Pessoa e nele se refletem. Nessas pessoas, portanto, Pessoa se cumpre. Fica. Eterniza-se. Vive.
               Este livro representa a nossa homenagem ao poeta por ocasião dos 70 anos de sua morte, ocorrida em 30 de novembro de 1935, e também um pequeno testemunho da nossa filiação voluntária à sua “verdadeira família”, que, na profunda solidão do seu presente, ele previu e projetou para o futuro: “Penso, às vezes, com um deleite triste, que se um dia, num futuro a que eu já não pertença, estas frases que escrevo durarem com louvor, eu terei enfim gente que me compreenda, os meus, a família verdadeira para nela nascer e ser amado.” 
               A maioria dos textos aqui reunidos resultam do trabalho acadêmico desenvolvido durante as disciplinas que ministrei no curso de Letras da Universidade Federal de Pernambuco em 2004. Os ensaios de Ana Carolina Coelho, Carlos André de Carvalho, Eduardo Costa, Ilzia Zirpoli, Juan Pablo Martín, Sávio Roberto de Freitas e Sherry Morgana de Almeida, alunos de pós-graduação, dão novas dimensões aos temas que foram tratados durante as aulas; e os trabalhos de Carlos Mendes, Niêdja Cariny, Bianca Campello e Carolina Araújo, alunos de graduação, refletem a criatividade da abordagem pessoana pela novíssima geração de leitores, provando que o poeta não se equivocou ao anunciar para si a profecia de “não partir nunca”. Pessoa veio para ficar, e aí se revela em reflexões que muitas vezes ultrapassam os estudos já consagrados sobre a sua obra, abrindo novas perspectivas e tocando em questões muito atuais. 
                   Nos textos desses jovens percebe-se, por exemplo, o interesse em compreender o afastamento do diálogo entre o Brasil e Portugal, através de estudos que não só refletem sobre este vácuo, mas que procuram compensá-lo pela aproximação da obra pessoana à obra de autores brasileiros, como Hilda Hilst e Guimarães Rosa; e à música popular brasileira, avaliando a importância de Orpheu para o tropicalismo e a sua influência nas composições de Caetano Veloso. Há a preocupação de pesquisar sobre os seus textos em prosa, menos conhecidos, e de interpretar a sua polêmica posição política, através do estudo de um de seus contos filosóficos, O Banqueiro Anarquista; bem como de assinalar os elementos da modernidade expressos na sua percepção do ambiente urbano e do sujeito citadino, no Livro do Desassossego de Bernardo Soares, comparando-a com a percepção de autores mais contemporâneos, como José Saramago. Há a curiosidade de investigar um aspecto tão pouco explorado, embora muito elucidativo, do papel da astrologia na criação dos heterônimos. E há a necessidade de refletir sobre a ausência do feminino em sua poesia, que avança pela leitura das cartas trocadas por Pessoa e sua namorada Ophelia Queiroz, transformando-se em peça teatral.
                 O livro se completa com as caras participações das professoras do Departamento de Letras da UFPE, Lucila Nogueira, Marli Hazin e Zuleide Duarte, que gentilmente contribuíram com ensaios que muito enriquecem esta publicação. Sem combinação prévia, as autoras abordaram, de maneiras diversas, um mesmo tema instigante: Pessoa na África. Enquanto Marli Hazin procura estudar as bases da formação cultural inglesa do poeta, adquirida durante a sua juventude em Durban, África do Sul; e Lucila Nogueira procura, na biografia pessoana, razões para o silêncio da África na obra do poeta, apesar de sua longa vivência no continente africano; Zuleide Duarte vai em busca dos ecos pessoanos na poesia africana de expressão portuguesa, mostrando que o silêncio não foi, afinal, recíproco. 
                Como contribuição pessoal, incluo ainda um estudo sobre a importância dos paradoxos visuais na concepção do Sensacionismo pessoano, fundamentado no poema “Chuva Oblíqua”, de onde retirei a idéia de que ler Pessoa é como olhar para o diagrama estereoscópico que ilustra a capa deste livro. No interior do padrão decorativo, que vemos superficialmente, oculta-se uma revelação inesperada. Mas é preciso paciência para chegar até ela. É preciso manter os olhos relaxados, e com tranqüilidade afastar a página lentamente, fixando o olhar num ponto distante, fingindo ver o que lá não está. Com um pouco de fé, curiosidade e disposição, o milagre acontece: a verdade oculta vem à luz, corporificando-se no espaço, em terceira dimensão, como um heterônimo. Uma “verdade” que, apesar da aparência, não passa de uma máscara. Os ensaios impressos nas páginas deste livro funcionam como o desenho impresso em sua capa. Quem olhar atentamente para a imagem, verá o que lá se esconde: não o retrato de Fernando Pessoa, mas uma representação ainda mais fiel do seu rosto: as máscaras. Ilusórias como qualquer verdade, elas saltam gloriosas para o mundo – materializadas na certeza indiscutível dos que as percebem – e nos devolvem o olhar. 

 

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