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Ermelinda Ferreira é doutora em Letras
pela PUC e professora da UFPE e da FAFIRE.
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Cabeças Compostas |
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Em breve, nova edição pela USP
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Obras disponíveis em livrarias. Clique nas
capas
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Leituras. Autores Portugueses
Revisitados
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Dois Estudos Pessoanos |
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Vitral ao Sol |
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Ensaios sobre Osman
Lins |
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A menina Clarice Lispector: erotização da infância |
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Foto:
Clarice Lispector, no site Alô Escola |
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por Ermelinda Ferreira
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Você sabe que só relembrando de uma vez, com toda a violência, é que a gente termina o que a infância sofrida nos deu? |
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Clarice
Lispector |
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Analisados
conjuntamente, uma característica sobressai nos contos que
tematizam Clarice Lispector quando menina, no livro Felicidade
Clandestina: o erotismo. São quatro histórias de amor, ou
de quase-amor, ou do amor como inevitável destino, vivenciadas
em ansiosa expectativa por uma menina que mal pode esperar
crescer, e que não se sente à-vontade no corpo provisório de
sua “interminável infância”, de sua “infância impossível”.
“Nasci para amar os outros – diria ela –, para escrever e
para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que
inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. Amar os
outros é a única salvação individual que conheço: ninguém
estará perdido se der amor e às vezes receber amor em
troca”.
Escritas
em primeira pessoa, neste que poderia ser considerado um dos
livros de cunho mais autobiográfico da autora, as narrativas
resgatam, de uma perspectiva memorialista da mulher adulta, a
arguta ingenuidade de seus pensamentos e sentimentos aos oito e
nove anos de idade, quando moradora da cidade do Recife, por
cujas ruas perambulava, aos saltos, enchendo-as da memória da
sua passagem. Esse material, buscado a uma época tenra de sua
história pessoal, é utilizado para suas reflexões sobre a
vida, a atividade literária e o exercício de um feminismo místico
que se torna a marca de seu estilo.
Nascida
em 10 de dezembro de 1920 em Tchetchelnik, uma aldeia na Ucrânia
que não aparece no mapa, Clarice chegou ao Brasil com dois
meses de idade, para morar em Alagoas, e depois em Pernambuco.
Passou a infância em Recife, mudando-se com a família para o
Rio de Janeiro em 1934. Em Recife, morou num pequeno sobrado na
Praça Maciel Pinheiro, e fez o curso primário no grupo escolar
João Barbalho. Aos sete anos aprendeu a ler e descobriu que os
livros eram escritos por autores, fato espantoso para ela.
Queria ser autora também e passou a escrever histórias ingênuas,
que enviava para o Diário da Tarde. Havia prêmios para
as melhores, mas Clarice nunca ganhou nada, talvez porque seus
textos já focalizassem menos o enredo do que a reflexão. Aos
nove anos escreveu uma peça de três atos, que não revelou a
ninguém e por muito tempo guardou numa estante: “Era uma história
de amor”, confessaria mais tarde. E lia muito. Também aos
nove anos, perdeu a mãe. No mesmo ano, terminou o curso primário
e entrou para o Ginásio Pernambucano. Foi aí que tomou consciência
“de que estudava”.
Através
da erotização de sua infância, Clarice fala de si mesma como
de uma criança precoce, ansiosa para crescer e tomar posse de
sua vida e dos segredos do mundo dos adultos. O erotismo também
aparece nesses contos como um mecanismo compensatório das
dificuldades enfrentadas pela família de imigrantes russos –
o pai Pedro, a mãe Marian e as três filhas, Tânia, Elisa e
Clarice – para sobreviver no novo país, resgatando a alegria
que o termo “erótico” evoca, como impulso de vida,
fecundidade e criação – elementos que a guiarão sempre –
em oposição a tanatos, o impulso da morte, da
esterilidade e da destruição.
A
seguir, consideraremos os quatro contos - “Felicidade
Clandestina”, “Restos do Carnaval”, “Cem Anos de Perdão”
e “Os Desastres de Sofia” – analisando a perspectiva da
infância erotizada.
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Felicidade Clandestina |
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O título do livro - Felicidade Clandestina - é
sugestivo porque colhido de um relato, contido neste volume, que
homenageia o pai da literatura infantil brasileira, Monteiro
Lobato, de maneira entusiástica: através da paixão de uma
menina (que se supõe ser a própria Clarice) pelo primeiro
volume da série d’O Sítio do Picapau Amarelo: As Reinações
de Narizinho. Provavelmente não foi casual a alusão a esta
obra por Clarice, uma vez que ela centraliza a ação numa
menina de sete anos, órfã – Lúcia, a “Narizinho” -, que
é criada pela avó. A famosa Emília ainda aparece como boneca
de pano, muda, que só ganhará voz e destaque ao longo do
tempo. Os principais episódios de abertura da série dialogam
com a temática clássica dos contos de fadas dirigidos
sobretudo às meninas: a espera do príncipe encantado, que
levará ao inevitável “final feliz” desse gênero de história:
o casamento. Os principais eventos do livro de Lobato, portanto,
são dois casamentos “arranjados”: o de Narizinho com o
“Príncipe Escamado”, rei do maravilhoso Reino das Águas
Claras, situado no ribeirãozinho do sítio; e o de Emília com
o porco do quintal, o célebre “Marquês de Rabicó”. A fina
ironia de Lobato com relação aos temas ligados à mulher, a
irreverência com que sugere às meninas atitudes de independência
e liberdade, bem como o senso profundamente crítico com que relê
os textos dedicados à infância, não devem, certamente, ter
escapado à percepção de Clarice. Um dos príncipes
“encantados” aparece “escamado”, o outro é emporcalhado
e indigno sequer da alcunha de “marquês”. Após o
casamento, as meninas abandonam os “maridos” e seguem suas
vidas. Emília cogita em “divórcio” ao longo da série,
numa época em que o divórcio era proibido no Brasil, razão
pela qual os livros de Lobato chegaram a ser queimados e
proibidos nos colégios católicos para moças. A busca da
verdade para além da convenção é uma constante na narrativa
infantil de Lobato, e a marca de sua originalidade e pioneirismo
na reformulação do gênero e na redefinição da imagem da
criança na sociedade moderna, até então “esculpida” pelos
textos moralistas, perpassados pelas noções de culpa e de
castigo.
O
enredo de Clarice é muito simples. Uma menina deseja ler o
livro de Lobato, sensualmente descrito como “um livro grosso,
meu Deus, para se ficar vivendo com ele, comendo-o,
dormindo-o”. O livro pertence a uma colega, cujo pai é dono
de uma livraria. Essa garota tiraniza a amiguinha longamente,
criando uma expectativa nunca satisfeita de empréstimo, e
estabelecendo uma relação cruel de dependência que só
terminará quando sua mãe descobrir o fato e entregar o livro
à menina desesperada, que todos os dias “batia à sua porta,
exausta, ao vento das ruas de Recife”. Desde o início, porém,
o relato ressalta as características físicas das meninas,
valorizando o estereótipo da “bonitinha, esguia, altinha,
loura e de cabelos livres”, que provocava a inveja da
“gorda, baixa, sardenta e de cabelos crespos”, que se
vingava impondo à outra o suplício da esperança. A rivalidade
que se estabelece entre ambas aproxima-se, assim, de uma disputa
pelo ser amado, objeto do amor real de uma, e da simples posse
interesseira de outra, que culmina com a revelação da
alegoria, quando da descrição da “felicidade clandestina”
da criança que obtém o objeto amado: “Não era mais uma
menina com um livro: era uma mulher com o seu amante”.
A
descrição do amor para Clarice Lispector ultrapassa o
convencional. O amor em sua obra é quase sempre visto como um
instrumento de elevação espiritual, uma gestação iniciática,
um ritual de passagem de um estágio de compreensão para outro
mais sutil e delicado. Não é algo que se dirige a outro, ou
que exige do outro alguma coisa. É algo que o outro provoca,
mas que se desenvolve e é vivenciado em si. Suas personagens
experimentam as aflições e as delícias do amor em muitos estágios
da vida e sob formas diversas: o amor pode acontecer, com ou sem
carga erótica, entre seres da mesma espécie, de qualquer
idade; entre seres de espécies diferentes; e mesmo entre uma
pessoa e um objeto, como no caso deste conto. Por ser um livro,
objeto muito específico, o amor neste conto reifica a importância
da atividade literária como objeto de amor para a autora, no
sentido mais profundo da palavra – como razão de viver,
atividade missionária, rendição feliz, doação, às vezes até
mesmo maldição. Por haver identificado o livro, o amor
ultrapassa a referência ao objeto e atinge o seu conteúdo, o
seu criador. Quando Clarice Lispector, tornada criança, abraça
apaixonadamente o livro de Monteiro Lobato, é como se
expressasse o gesto desejado para todas as demais crianças: o
de se tornarem, como ela, leitoras daquelas idéias; às quais,
em suma, ela abraça com indisfarçável emoção. A felicidade
de encontrar um interlocutor para os seus sentimentos mais
profundos torna-se um amor clandestino, que se comunica num
clandestino intercâmbio de palavras, e acaba se confessando,
secretamente, nas entrelinhas de sua história.
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Restos do Carnaval |
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Em
“Restos do Carnaval” o procedimento narrativo é o mesmo: a
escritora adulta rememora um episódio da sua infância passada
nas ruas e praças de Recife, que encontravam “sua razão de
ser” no Carnaval. O episódio tem uma carga emocional muito
forte, porque expressa o conflito vivido pela menina pequena,
cercada pela alegria da festa alheia, a festa de rua, a festa de
todos, a festa em si mesma, e o peso de um drama familiar, nota
destoante de uma tragédia íntima, ameaçadora e terrível para
qualquer criança: a doença da mãe, que piora nesta data, e
que depois viria a falecer. O contraste é gritante, e aparece
até no título: “restos”. Restos de um carnaval que, por
qualquer motivo, a escritora relembra como “as quartas-feiras
de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de
serpentina e confete”, e que vem a se tornar alegoria de
outras situações semelhantes na vida, quando a própria vida
em festa parece rir, cruelmente, do seu luto pessoal.
A
história, porém, não ocorre numa quarta-feira. O carnaval está
apenas começando, e a menina - cujas dificuldades financeiras são
sempre enfatizadas, pelo aprendizado da privação e da conformação
a que a obriga desde cedo -, acaba de ganhar uma fantasia de Rosa,
dos restos da fantasia de uma amiguinha. Toda a dor que a autora
adulta revela pela consciência do contraste irônico da situação,
para ela imperdoável (“Muitas coisas que me aconteceram tão
piores que esta, eu já perdoei. No entanto esta não posso
sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é
irracional? É impiedoso”), inexiste na atitude da criança
descrita. Completamente alheia, ou alheando-se inconscientemente
do seu drama pessoal, a menina não pensa na mãe a sofrer. Não
pensa na morte que se aproxima, e a agitação da família em
torno da mãe doente é ignorada em função da fantasia. A
fantasia real, a roupa de papel crepom cor-de-rosa, que
pretendia imitar as pétalas de uma flor; e a fantasia abstrata,
a realização de um sonho: “pela primeira vez na vida eu
teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma”,
que revela o desejo de fuga daquela situação angustiante
demais para ser apreendida pela criança, e talvez da própria
vida real, sentida em seu limite e estreiteza.
O
clímax do conto acontece em meio à agitação da menina que,
preparada para a festa, é enviada depressa à farmácia para
comprar remédio para a mãe, que sofre uma súbita piora. Ela
vai, correndo, mas acompanhada de muda revolta e indignação
pela coincidência da tragédia que se atravessa no caminho da
sua alegria, sentimentos que perduram para além da infância,
sobrevivendo no espírito da mulher adulta que relembra o fato.
Nenhuma palavra de simpatia, preocupação ou dor é proferida
com relação à mãe, nem mesmo pela adulta que a rememora.
Clarice menciona apenas a lembrança de algum remorso da menina
pela sua “fome de êxtase”, que ameaçava voltar em meio à
festa da qual se sentia impedida de participar. De maneira algo
egoísta, o que dói é a quebra da magia da criança, que começava
a se acreditar uma Rosa, satisfazendo seu “sonho
intenso de ser uma moça”. O que dói é a súbita deserotização
da menina, que finalmente teria realizado o seu sonho de
transformação em mulher, com a inesperada roupa que
completaria a pintura forte nos lábios, o ruge nas faces e os
cabelos frisados pela irmã, a seu pedido, nos outros Carnavais.
O que dói, e o que a faz relembrar este episódio, é o
desencanto vivido: “não era mais uma Rosa, era um
palhaço pensativo de lábios encarnados”.
O
“final feliz” surge como um anti-clímax, aí colocado para
impedir, talvez, que a condenação da mãe doente pela criança
frustrada em seus desejos apareça como o único desfecho cruel
dessa história. Daí a menção ao menino de doze anos, que
cobre de confete os cabelos “já lisos” da menina, fazendo-a
sentir-se, por um instante neste dia horrível, uma
“mulherzinha” de oito anos: uma Rosa.
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Cem anos de
perdão
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Quem me amasse, assim eu curaria quem sofresse de mim.
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Clarice Lispector |
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Neste breve conto, também passado nas ruas de Recife, Clarice
Lispector aborda novamente o tema da rosa, que lhe é tão caro.
Rosa é um anagrama de Eros, o deus do amor, e
essa flor tem sido consagrada às Deusas do Amor desde a Antigüidade.
Também é curioso observar que o termo sub rosa, para os
ocultistas, significa “algo feito em segredo”. A expressão
“sob o signo da rosa” tem um sentido bastante específico
para os iniciados nas doutrinas esotéricas. Para eles, o
segredo é a Rosa – a rosa vermelha da outra Maria, não
a mãe, mas a esposa; a Maria que representa Eros, o
aspecto nupcial apaixonado do feminino que foi negado pela
Igreja Católica. Os rosa-cruzes, cuja sociedade secreta
proliferou durante o século XVII, mas que provavelmente se
originou muito tempo antes, usavam o símbolo da cruz com a rosa
no centro, cujo real significado só era conhecido por um
pequeno grupo. Essa não era a cruz ortodoxa de Pedro e Jesus,
que foi repudiada pelos hereges como um impiedoso instrumento de
tortura. A sua cruz era o X vermelho da iluminação verdadeira,
símbolo de lux ou “luz”. E lux está contido
em “luxúria”, um dos pecados capitais condenados pela
Igreja. Para os hereges dos primeiros tempos do catolicismo, a
negação e a repressão do feminino haviam deformado a
sociedade, privando-a de sua alegria e independência. Desde então,
o trabalho de muitos artistas e intelectuais iniciados
voltou-se para o uso de uma simbologia oculta, na tentativa de
devolver a Mulher, o feminino esquecido, à consciência da
sociedade.
A
história de Clarice situa a menina, mais uma vez, num ambiente
de contraste entre um mundo de sonho, ao qual pertencem os
outros, e um mundo de privações, que é o seu. Se em
“Felicidade Clandestina” ela fala da dificuldade de comprar
livros e em “Restos de Carnaval” da dificuldade de ter uma
fantasia – o que, afinal, é quase a mesma coisa -, em “Cem
anos de perdão” ela fala de outra fantasia, tornada talvez
realidade, e cuja satisfação da conquista se assemelha a uma
visita aos bairros ricos da cidade, diferentes do seu, onde em
vez de sobrados simples como aquele em que mora há imponentes
palacetes cercados de pomares e jardins, que despertam a sua
admiração e cobiça.
O relato memorialístico lembra a menina Clarice, com uma
amiguinha, olhando “com a cara imprensada nas grades”,
estrangeiras e ávidas, o mundo de beleza e fartura que lhes é
vedado, do qual se sentem exiladas e no qual são, efetivamente,
proibidas de entrar. O enredo se desenvolve em torno dos cálculos
da menina para roubar uma rosa de um jardim. O objeto do roubo
é tão pequeno para a importância que lhe dá a autora, que
chega a produzir uma suspeita no leitor. Ao contrário dos
demais contos, nos quais ela implora a outros a satisfação de
seus desejos, ou cede à frustração dos mesmos, neste conto
ela não espera nem se conforma, ao contrário, tece os seus
ardis e vai em busca daquilo que deseja, sem se importar com as
conseqüências. É como se toda aquela exuberância e alegria
alheias pudessem ser experimentadas por vias sorrateiras,
ilegais, mas tão legítimas quanto quaisquer outras.
Uma
carga simbólica fortemente erótica envolve todo o relato desta
mulher, cujo nome, Lispector – literalmente
“flor-de-lis no peito” –, evoca o lírio, outra flor mística
que na tradição bíblica é símbolo da eleição do ser
amado, como aparece no Cântico dos Cânticos, e na tradição
heráldica representa a flor de glória, fonte de fecundidade. A
brancura do lírio, símbolo de pureza, inocência e virgindade,
contrapõe-se ao vermelho da rosa, que na iconografia cristã é
a taça que recolhe o sangue de Cristo, ou a transfiguração
das gotas desse sangue, ou o signo das chagas de Cristo. Por sua
relação com o sangue derramado, a rosa parece ser freqüentemente
o símbolo de um renascimento místico através do amor.
Curiosamente, Clarice cria uma alcunha para si que ultrapassa a
“marca” de pureza atávica impressa em seu sobrenome: Rosa.
O
conto é permeado por símbolos: há a alusão ao jardim ou
pomar, que evoca o Paraíso bíblico; há a interdição às crianças
– ou aos não-iniciados – da experiência das delícias e
dores do conhecimento; há os diversos motivos ocultistas que
ligam à paixão física à Paixão mística, como a rosa e seus
espinhos. O erotismo não se expressa explicitamente, portanto,
mas na escolha dos objetos roubados: rosas e pitangas;
no motivo elementar e ausente do roubo: roubava simplesmente
para possuir as rosas, para comer as pitangas;
mas, sobretudo, nas descrições ardentes e sensuais da flor e
do fruto, cuja adjetivação generosa não deixa dúvidas quanto
ao papel alegórico desses elementos na narrativa: “A flor
soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários
entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava e
seu coração quase parecia vermelho”. Vermelho como as
pitangas, que “escondidas na folhagem era preciso buscar às
apalpadelas cegas, até sentir o úmido da frutinha”. O colher
das pitangas, que muitas vezes, na sua “pressa”, deixava-lhe
os dedos “como ensangüentados” – imagem que também é
utilizada na descrição da colheita da rosa: “Finalmente começo
a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando
o sangue dos dedos” – chega a sugerir sucessivos
defloramentos, dedução que a autora reforça no último parágrafo,
quando diz que “as pitangas pedem para ser colhidas, em vez de
amadurecer e morrer no galho, virgens”.
Não deixa de ser estranho a autora atribuir à menina o
papel de defloradora de virgens. Mas não há como negar que a
descrição das rosas e das pitangas são sugestivas evocações
do órgão sexual feminino. A evidência da proibição e a
presença marcante de uma culpa que deveria, mas não é
sentida, são contrapostas à excitação do roubo e à
detalhada descrição do processo, feito a duas: “a menina
vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa
na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória
que ninguém me tirava”. A satisfação do resultado contribui
para a perpetuação da brincadeira: “Foi tão bom. Foi tão
bom que simplesmente passei a roubar rosas”.
Uma confissão íntima, velada, de algum jogo sexual
infantil, arrancado alegoricamente à memória culpada (por não
sentir culpa) da mulher adulta? Um texto ocultista, que esconde
na aparente simplicidade do tema uma mensagem vedada aos não-iniciados?
Uma alusão metalingüística à natureza do exercício do seu mestrado
literário? “Não me arrependo” – diz ela, afinal. “Ladrão
de rosas e de pitangas tem cem anos de perdão”.
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Os Desastres de Sofia |
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Eu daria tudo o que era meu por nada, mas queria que tudo me fosse dado por nada |
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Fechando
a série da nossa seleção de quatro narrativas autobiográficas,
este longo conto também alude, como o primeiro, a um livro
infantil: Os Desastres de Sofia, da Condessa de Ségur,
grande sucesso na França e no Brasil até meados do século XX.
Também neste caso a alusão não parece ser gratuita. Muitos
elementos neste livro são de importância fulcral para a
autora. O nome da menina, por exemplo, que significa
“sabedoria”, entra em choque com a sua atuação dita
“desastrosa” no mundo, narrada sob a forma de episódios
onde a efabulação conduz a uma inevitável “moral da história”,
de cunho fortemente religioso e repressor. Expressa por um
adulto - em geral a mãe, que ocupa o lugar da educadora –,
esses ensinamentos direcionam-se sempre ao julgamento e à
condenação dos atos da criança, desfiando os itens de uma
cartilha de normas sobre a formação de uma “menina
exemplar”. As meninas exemplares é, aliás, o título
do segundo volume da “edificante” série desta autora, um gênero
que durante décadas foi considerado de eleição para a leitura
do público infantil. Neste livro, reforça-se o contraste do
comportamento de duas irmãs “perfeitas”, Camila e Madalena,
e da “pobre Sofia”, agora órfã de mãe – como a menina
Clarice –, que após um breve período de castigos e
sofrimentos atrozes com a madrasta, passa a viver com uma nova
família, a fim de continuar o seu aprendizado para a vida.
Numa
pedagogia que se pretende moderna e menos repressora, a Condessa
sublima a agressão física, descrevendo técnicas variadas de
tortura psicológica para refrear os impulsos indesejados das
crianças. Os livros deixam clara a noção de treinamento:
a literatura infantil deveria ser um aliado importante na árdua
tarefa da família e da escola de criar o adulto ideal,
obedecendo a parâmetros pré-estabelecidos. Assim, o leitor da
obra da Condessa de Ségur poderá acompanhar a transformação
da alegre e irreverente Sofia, uma menina interessante e
curiosa, cheia de vida e de idéias, numa pálida versão de si
mesma, irreconhecível na criaturinha tímida e oprimida,
silenciosa e submissa que aparece, em papel exemplarmente secundário,
no terceiro volume da série, As Férias.
No livro resgatado por Clarice, portanto, a pequena Sofia
tem inacreditáveis três anos de idade para a severidade do
exercício de doutrinamento ao qual é submetida, e que deve ter
atingido a jovem leitora Clarice de perto, pois menciona questões
que lhe são pessoalmente caras. Como a vaidade da menina, por
exemplo. Num dos episódios que começa, como os demais,
definindo o “pecado” de Sofia que se vai procurar corrigir
– “Sofia era vaidosinha. Gostava de estar sempre bem
arrumada e de que a achassem bonita. No entanto, ela não era
bonita.” -, a Condessa narra a admiração de Sofia pelos
cabelos cacheados. Como vimos, esse também era um tópico
importantíssimo para a menina Clarice, cujos cabelos
irremediavelmente lisos causavam-lhe tristeza. Como diz, no
conto “Os desastres de Sofia”: “Suportando com desenvolta
amargura as minhas pernas compridas e os sapatos sempre
cambaios, humilhada por não ser uma flor, e sobretudo,
torturada por uma infância enorme que eu temia nunca chegar a
um fim – sacudia com altivez a minha única riqueza: os
cabelos escorridos que eu planejava ficarem um dia bonitos com
permanente e que por conta do futuro eu já exercitava
sacudindo-os”.
No
livro da Condessa, a condenação de Sofia por haver molhado os
cabelos na chuva para encrespá-los vem sob a forma de um
castigo humilhante. A mãe a expõe, deliberadamente, ao riso e
às pilhérias dos outros, obrigando-a a comparecer ao jantar
toda suja e molhada. O resultado é sempre definido numa frase
de arremate, onde a Condessa resume o sucesso do seu método
educacional: “Desde esse dia Sofia nunca mais se expôs à
chuva para encrespar o cabelo”. Em outros episódios: “Nunca
mais procurou fazer nada para ficar com sobrancelhas bonitas”;
“Nunca mais foi aonde não devia ir”; “Nunca mais disse o
que não devia dizer”; “Nunca mais fez o que não devia
fazer”. Assistimos, assim, à paulatina destruição da
auto-estima da criança, à amputação do seu intelecto, ao
cerceamento da sua criatividade e ao encaminhamento de sua história
para um fim previsível e insípido, onde a “sabedoria”
impressa no nome da menina é associada à mera habilidade de
repetir as regras ditadas, obedecendo-as para corresponder às
expectativas dos adultos.
Em
seu estudo Literatura Infantil –Teoria, Análise, Didática,
Nelly Novaes Coelho discute a radical mudança dos valores
tradicionais da sociedade, ocorrida no século XX, e determina
quais os principais aspectos temáticos e formais que
diferenciam as literaturas destinadas ao público
infanto-juvenil de ontem e de hoje. No quadro abaixo transcrito,
ela oferece um resumo das características dos dois paradigmas
de representação da criança vigentes nas obras para e/ou
sobre a infância, que podem ser úteis para analisarmos os seus
princípios nas autoras aqui consideradas:
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| Paradigma
tradicional
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Novo
paradigma |
| . Espírito
individualista |
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. Espírito
solidário |
| . Obediência
absoluta à autoridade |
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.
Questionamento da autoridade |
| . Sistema
social fundado na valorização
do ter e do parecer, acima do ser |
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.
Sistema social fundado na valorização do fazer
como manifestação autêntica do ser |
| . Moral
dogmática |
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. Moral da responsabilidade ética |
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. Sociedade
sexófoba |
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.
Sociedade sexófila |
| . Reverência
pelo passado |
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. Redescoberta
e reinvenção do passado |
| . Concepção
de vida fundada na visão
transcendental da condição humana
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.
Concepção de vida fundada na visão cósmica,
existencial e mutante da condição humana |
| . Racionalismo |
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.
Intuicionismo fenomenológico |
| . Racismo |
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. Anti-racismo |
| . A
criança: adulto em miniatura |
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. A criança: ser em formação
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Essa
dicotomia de valores aparece de maneira evidente quando
contrastamos a Sofia da Condessa e a “Sofia” de Clarice.
Sofia também era curiosa – explica a Condessa num
outro episódio, intitulado “Os peixinhos”, no qual, sem
querer, e imitando a cozinheira, a menina salga e pica os
peixinhos do aquário, sem perceber que os estava matando. Esse
episódio terá sido de tal maneira marcante para Clarice que
ela o retoma numa narrativa expressamente dirigida às crianças,
intitulada: A mulher que matou os peixes. A relação das
crianças com os animais é muito importante para a autora,
sobretudo com os bichos de estimação, e são diversas as vezes
em que menciona os efeitos desastrosos não da violência, mas
do amor humano sobre os seres indefesos. O que, de certa forma,
funciona como metáfora do tratamento dado pelos adultos às
crianças indefesas. Salgamos e cortamos os “peixinhos do aquário”,
cheios de boas e nobres intenções, sem perceber que os estamos
matando. Esmagamos os “pintinhos” nas mãos, por apertá-los
demais, cheios de tanto encantamento e afeição, sem perceber
que os estamos sufocando. E assim por diante.
Essa
é, portanto, a temática do conto “Os desastres de Sofia”,
que focaliza o ambiente escolar; ao contrário da Condessa, que
se centra no ambiente familiar, talvez porque as meninas, à época
em que foi escrito o livro, não freqüentassem as escolas. A
menina Clarice é mais velha que Sofia, tem nove anos. Como
Sofia, ela também trava uma disputa com um adulto, não a
mulher e mãe, mas um homem e professor. E como Sofia, também
sai derrotada, mas por razões diferentes. Enquanto a Condessa
derrota a criança com o seu modelo de adulto perfeito e ideal,
Clarice mostra como o seu esboço de criança imperfeita e
rebelde acaba triunfando sobre o adulto falho e incompetente que
ela tenta corrigir, para que ele a ensine a contento. Sua
vitória é experimentada, portanto, como uma derrota:
descobrindo-se mais forte do que o adulto, a criança sente-se
desamparada e aterrorizada num mundo sem regras e sem certezas.
A
ação pedagógica da Condessa obedece a esmagadoras
verticalidade e unilateralidade: do alto, a mãe rotula a criança
e escreve o roteiro correto para a sua vida. Nada aprende com
Sofia, porque nada tem a aprender. Já a ação pedagógica de
Clarice opera na horizontal e nos dois sentidos: tanto a criança
como o adulto, nivelados num desconhecimento mútuo, aprendem
com os choques do convívio e se surpreendem com a descoberta um
do outro. A relação entre eles é descrita como uma relação
de amor, com todos os percalços, asperezas e delicadezas a que
essa relação obriga, o que não se percebe na fria e quase
indiferente relação de Sofia com a mãe, sempre muito distante
e inacessível.
A
relação professor-aluno é um tema de predileção, e mesmo
recorrente na obra de Clarice Lispector, desde o seu primeiro
romance, Perto do coração selvagem. Neste conto, a relação
da menina Clarice com o professor é intensa. Começa como um
desafio de sua parte, que gera um aborrecimento da parte dele.
As provocações da criança vão aumentando, e a irritação do
homem vai ficando maior e mais forte, como num jogo de sedução
erótica sem envolvimento sexual. Como diz Clarice: “Não o
amava como a mulher que eu seria um dia, amava-o como uma criança
que tenta desastradamente proteger um adulto, com a cólera de
quem ainda não foi covarde e vê um homem forte de ombros tão
curvos”. A menina Clarice também tem a sua sophia:
“sem saber que obedecia a velhas tradições, mas com uma sabedoria
com que os ruins já nascem, eu estava sendo a prostituta e ele
o santo”.
A
crítica ao sistema educacional que diviniza um dos pólos do
aprendizado e demoniza o outro é tão forte que a própria
Clarice recua: “Não, talvez nem seja isso. As palavras me
antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se não
tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu
as ter dito.” Mas a dicotomia está estabelecida nesses
termos. O “santo” professor e a menina “prostituta”,
disposta a vender o seu amor por uma promessa de aceitação,
ainda que precisando pagar por isso o alto preço já pago pela
Sofia da Condessa: a perda de si mesma. Para ser amada, a menina
Clarice – como todas as crianças em geral, “ávidas matérias
de Deus” –, pujante de afeto em estado bruto, estava
disposta a se entregar inteiramente, e nesta entrega se perder
para sempre. Ela aguardava, com esperança e total confiança,
entrar no mundo dos adultos, no qual pensava poder se libertar
de suas angústias e medos infantis. Daí a revolta contra o
professor, um homem cujas fraquezas eram por demais evidentes:
“Qualquer que tivesse sido o seu trabalho anterior, ele o
abandonara, mudara de profissão, e passara pesadamente a
ensinar no curso primário”. Daí também a atração por ele,
como se intuísse que precisava arrancar a sua máscara para
revelar o desconhecido que ali se ocultava, a fim de que ele lhe
revelasse a verdade que seria a derrota de sua própria ilusão.
Não há neste conto, como nos outros, referências explícitas
às ruas do Recife, mas ao sobrado onde Clarice morou na Praça
Maciel Pinheiro. Do colégio também não há referências,
exceto algumas descrições da ampla e arborizada área do
recreio, mas sabe-se que a autora estudou na escola pública João
Barbalho e freqüentou o Ginásio Pernambucano em Recife. A
referência ao sobrado aparece como uma ruptura na evolução
temporal da narrativa. A autora interrompe o relato e salta
quatro anos à frente da história, mostrando a menina Clarice já
aos treze anos, “toda composta e bonitinha como um cromo de
Natal”, desmoronando “como uma boneca partida” ao receber
a notícia da morte do professor. Após esse ligeiro flash,
que mostra a importância do professor na vida da menina, e
conseqüentemente a importância do aparentemente banal episódio
que se vai narrar, o conto atinge o seu clímax, que também se
relaciona, como em Felicidade Clandestina, com uma revelação
de ordem literária. Essa revelação é feita através de um
longo diálogo, tecido de maneira muito similar à técnica
cinematográfica do slow-motion ou câmara lenta, no qual
se assiste ao desmoronamento das máscaras dos personagens.
Assim, uma inesperada criança aparece sob a máscara do
professor e uma inesperada mestra aparece sob a máscara da
criança.
A
revelação do aprendizado é profunda. Descrita como um
verdadeiro e desentranhado parto, com vísceras expostas e tudo,
o homem se percebe, com imprevista alegria, como aprendiz e
liberto, e a menina se descobre, com surpresa e pavor, como
mestra e libertadora. Os papéis tradicionais da relação
educador-educando se invertem, já não mais relacionados ao
mero repasse/recepção de informações, que seriam esperados
na relação convencional, e os indivíduos envolvidos mergulham
numa radical descoberta de si mesmos.
Tudo
se passa em torno de uma redação. O professor solicita à
classe que reescreva “com suas próprias palavras” uma
dessas histórias de cunho edificante, que ele acaba de ler em
voz alta, na qual um homem, após buscar um tesouro em terras
estrangeiras, consegue ficar rico no próprio quintal, através
do seu trabalho. A moral da história, portanto, recaía na clássica
conclusão de que o trabalho árduo era o único meio de se
chegar a ter fortuna.
Para
desafiar o professor, como de hábito, a menina escreve a sua
composição invertendo deliberadamente o final da história:
“Não consigo imaginar com que palavras de criança teria eu
exposto um sentimento simples mas que se torna pensamento
complicado. Suponho que arbitrariamente contrariando o sentido
real da história, eu de algum modo já me prometera por escrito
que o ócio, mais que o trabalho, me daria as grandes
recompensas gratuitas, as únicas a que eu aspirava. Eu daria
tudo o que era meu por nada, mas queria que tudo me fosse dado
por nada. Ao contrário do trabalhador da história, na
composição eu sacudia dos ombros todos os deveres e dela saía
livre e pobre, e com um tesouro na mão”.
De
que maneira aquilo atingiu o professor infeliz, “monte de
compacta tristeza” que trabalhava por obrigação, com
indisfarçável aborrecimento, e que ocultava um passado
misterioso, não se pode saber. Mas certamente atingiu-o, a
ponto de ele, que jamais se alegrava e jamais se dirigia a ela,
falar-lhe com atenção e carinho, e esboçar o sorriso mais
sacrificado que Clarice jamais terá visto na vida, tal é a
maneira como o descreve: “E bem devagar vi o professor todo
inteiro, vi que era muito grande e muito feio, e que ele era o
homem da minha vida. Aquilo que eu via era anônimo como uma
barriga aberta para uma operação de intestinos. Vi uma coisa
se fazendo na sua cara – o mal-estar já petrificado subia com
esforço até a sua pele, era a careta vagarosamente hesitando e
quebrando uma crosta – mas essa coisa que em muda catástrofe
se desenraizava, essa coisa ainda se parecia tão pouco com um
sorriso como se um fígado ou um pé tentassem sorrir, não sei.
(...) Até que o esforço do homem foi se completando todo
atento, e em vitória infantil ele mostrou, pérola
arrancada da barriga aberta – que estava sorrindo”.
O
processo inverso acontece com a menina, que, afogueada pela
corrida e sorridente pelo hábito, diante da transformação do
professor sente-se recuar e colar-se à parede, enquanto seu
corpo inteiro vai-se reduzindo, como o do gato da história de Alice
no país das maravilhas, a um sorriso sem rosto.
Acompanhamos lentamente o seu processo de desaparecimento
enquanto criança: o riso despreocupado e confiante
amarelando-se, artificial; uma gota de suor escorrendo
lentamente pela testa e pelo nariz até dividi-lo ao meio, e
finalmente o seu completo desaparecimento numa desusada,
inusitada e madura seriedade.
A
transformação atinge a ambos com inesperada violência.
Enquanto a menina, num insight precoce, percebe a sua
missão no mundo como escritora – “Mas se antes eu já havia
descoberto em mim todo o ávido veneno com que se nasce e com
que se rói a vida – só naquele instante de mel e flores
descobri de que modo eu curava: quem me amasse, assim eu
curaria quem sofresse de mim” -, o professor se revela
desamparadamente feliz “como um menino que dorme com os
sapatos novos”. Um tremendo bem havia feito a composição de
Clarice àquele homem, sem que ela desse por isso ou tencionasse
fazê-lo. Era à revelia de si mesma que suas palavras atingiam
os outros e os transformavam, e a consciência desse poder
advindo de um estranho talento conduz a menina à terrível
conclusão: “Tudo o que em mim não prestava era o meu
tesouro”.
A
revelação para ela é tão forte que terá crises de vômito
em casa. O que o professor lhe ensinava, sem querer, era
sério demais para ser apreendido com tranqüilidade pelos seus
nove esperançosos anos. A partir daí passava a saber que não
haveria segurança mais adiante, porque não havia uma verdade
interditada, na posse da qual sairia confiante pelo mundo dos
adultos – ilusão que a escola e a literatura infantil
edificante se compraziam em reforçar: “Na minha impureza eu
havia depositado a esperança de redenção nos adultos. A
necessidade de acreditar na minha bondade futura fazia com que
eu venerasse os grandes, que eu fizera à minha imagem, mas a
uma imagem de mim enfim purificada pela penitência do
crescimento, enfim liberta da alma suja de menina. E tudo isso o
professor agora destruía, e destruía o meu amor por ele e por
mim”.
Ao
lado dessa revelação, há outra relacionada com a sua profissão.
A literatura seria para ela uma penitência, o exercício de um
apostolado onde se faria amada para curar os que sofrem. Curar
com as belas mentiras da invenção, avançando lentamente para
perceber que, muitas vezes, essas mentiras são mais verdadeiras
do que as verdades do senso-comum. O professor terá sido,
talvez, o seu primeiro contato com o efeito dessa sua
irreverente escritura, nascente no mundo; daí a sua importância
para a menina e a importância desse episódio, tão longamente
rememorado, para a autora.
No
final do conto, Clarice parodia a clássica história infantil
de Chapeuzinho Vermelho – também permeada de erotismo
e admoestação às jovens sobre os perigos relacionados ao
crescimento –, mas descreve os seres humanos, indistintamente,
como feras, feras que se interrogam assustadas. Na sua narrativa
destituída de maniqueísmos já não há a menina ingênua e o
lobo malvado, apenas duas feras numa relação de ódio e amor
– cujas longas unhas tanto servem “para arranhar de morte”
como para “arrancar espinhos mortais”; cuja boca de fome
tanto serve para “morder” como para “soprar”; cujas mãos
“ardem” e “prendem”. O caçador e o lobo, a santa e a
prostituta convivem em cada homem e em cada mulher, em todas as
suas idades ao longo da vida. Na conclusão do Chapeuzinho
Vermelho de Clarice, portanto, as duas feras olham
intimidadas para as suas próprias garras, “antes de se
aconchegarem uma à outra para amar e dormir”.
No
conto “Os desastres de Sofia”, Clarice se reporta à infância
para falar, com extrema poesia, da sua descoberta como
escritora, homenageando com carinho o mestre, que só
atuou como tal quando procedeu como aprendiz, fazendo-a
perceber o poder das palavras: o de suavizar a dor de quem não
ama, no sentido erótico e esotérico que confere ao termo.
Escrever como Clarice, invertendo a moral das histórias, é um
duro ato de amor, porque pode libertar, fazer desmoronar,
desentranhar o ser que se esconde sob as máscaras impostas pela
sociedade e reforçadas por todos os sistemas pedagógicos do
mundo, e isso não se faz sem medo e sem sofrimento. No pátio
da escola, cercada pelos desenhos gravados a canivete nas cascas
das árvores pelos namoradinhos, a menina Clarice descobre que,
se o papel de Eros é fincar a flecha do ilusório amor
nos corações humanos, o papel da Rosa será o inverso:
arrancar amorosamente, dos humanos corações, a flecha farpada
– e sem nojo do grito.
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