Escritora
mostra domínio do ofício em A Comédia dos Anjos, cuja trama
envolve um jogador às vésperas da Copa de 58, e em PS
Beijei, parceria com Mariana Verissimo
JOSÉ NÊUMANNE
AE
SÃO
PAULO - O que mais impressiona na leitura de qualquer texto da
lavra de Adriana Falcão é a naturalidade gaiata, lúdica e
pueril com que ela lida com as palavras. Na crônica
esportiva, costuma-se medir a perícia de alguns craques (caso
de Ronaldinho Gaúcho, eleito o melhor jogador do mundo pela
Fifa) pela intimidade que eles possam ter no trato com seu
instrumento de trabalho, a bola. Diz-se que quem conhece bem a
bola a tuteia, enquanto os pernas-de-pau, coitados, maltratam
o esférico e o tratam com reverência exagerada, de Sua Excelência
para cima. Se há no ofício da escrita algum habitante da Pátria
do poeta lisboeta Fernando Pessoa, esta nossa língua
portuguesa, alguém a quem a metáfora futebolística se
amolda à perfeição é ela. A metáfora esportiva vem a
calhar, porque a sra. Falcão elegeu como personagem
importante de um de seus novos livros, A Comédia dos Anjos,
um ser humano que, presume-se, passeia de chuteiras pelos
gramados como se nada calçasse, assim como ela própria não
recorre às luvas para armar parágrafos.
A
ação desse texto hilariante, irreverente e saboroso
transcorre em maio de 1958, às vésperas da primeira grande
conquista da história desse esporte bretão que consagrou Fio
Maravilha e Roberto Dinamite e que deu glória e fortuna a Romário
e Rivaldo: a da Copa do Mundo da Suécia. Um mês antes de
cair o queixo do mundo com os dribles de Garrincha e os gols
de Pelé, uma zelosa mãe morre, mas se recusa a se recolher
ao sono eterno para evitar que a filha caia na lábia de um
jogador de futebol, prestes a ser convocado para a seleção.
A autora não se faz de rogada em esclarecer que a
protagonista intrometida é inspirada na própria mãe, já
morta, embora ela mesma não possa ser identificada com a
filha sonsa e indecisa, cujo coração balança entre o craque
malandro e o honesto e malsucedido dono de bar falido, que
amanha o empedernido coração materno.
VERTIGEM
LAPIDAR - A sra. Falcão tem experiência no métier. Em
parceria com o marido, João, já escreveu para teatro (o
musical Cambaio, com canções de Edu Lobo e Chico
Buarque) e cinema (O Auto da Compadecida) e, em seus vôos-solo,
enriqueceu o complicado universo da literatura infantil (Mania
de Explicação), se aventurou pelos campos minados dos
livros juvenis (Luna Clara e Apolo Onze),
parodiou em nossa linguagem cotidiana O Pequeno Príncipe,
de Saint-Exupéry (A Máquina) e desempenha, com
galhardia, a missão de fazer o povo rir na nova versão da
bem-sucedida série cômica da televisão A Grande Família,
criada por Oduvaldo Viana Filho e Armando Costa. Mas A Comédia
dos Anjos vai muito além de um trabalho bem feito por um
profissional que domina a carpintaria de seu ofício. Seu
texto, curto, vertiginoso, original e lapidado como uma pedra
faiscante é a prova de que rir pode ser a atividade mais
inteligente do homem. E que diversão e boa literatura não se
excluem, como prova este livro leve e solto.
Nisso
é confirmado por outro, PS Beijei, escrito por ela em
parceria com Mariana Verissimo, filha (de Luis Fernando) e
neta (de Érico) de grandes artesãos da prosa em português.
Adriana
Falcão é internauta de carteirinha, viciada até a medula no
intercâmbio verbal via internet e, com a mesma facilidade com
que inventa histórias impressas, salpica as frases na telinha
do computador como se fossem varinhas de condão com
estrelinhas na ponta, seduzindo o leitor com seu estilo
gaiato, ágil e acelerado. Mariana e ela criaram Bia e Lili,
duas adolescentes em cuja correspondência por e-mail
compartilham as delícias ainda não testadas, mas já
imaginadas, de um beijo e as expectativas de prazer e emoção
das festas que podem levar a esse sonho de consumo.
O
PRAZER DA VELOCIDADE - Este outro livro, de leitura ainda
mais rápida e digestiva que o anterior, é um excelente
exemplo de como a linguagem dos escribas da rede internacional
de computadores pode enriquecer o estilo literário sem
agredir a língua nem provocar arrepios de indignação nos
cultores dos cânones gramaticais. As autoras executam com
habilidade a tarefa de contar a história a que se propõem
sem trair os códigos e posturas das personagens, mas também
sem confundir o leitor com a barafunda profusa de seus códigos
secretos que impediriam a compreensão do enredo. Com a devida
vênia pelo eventual exagero da metáfora empregada, eis um
livro que é uma delícia de ser lido.
Enquanto
A Comédia dos Anjos leva o leitor ao paroxismo do
riso, a ponto de lhe furtar o fôlego, alterando-lhe o ritmo
da respiração, portanto, e assim atendendo a uma das exigências
da boa prosa, tal como enunciadas pelo craque colombiano
Gabriel García Márquez, PS Beijei reproduz o apreço
da juventude pela velocidade sem tropeçar em clichê nenhum.
Em ambos os textos, a superficialidade aparente é apenas um
jeito diferente, inteligente e interessante de ser profundo.