José Nêumanne

 

   

 

José Nêumanne é jornalista (O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde; SBT e rádio Jovem Pan) poeta e ficcionista. 

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Lançamento mais recente: O Silêncio do Delator. A Girafa, 2004. (romance). Clique na capa para ter acesso à Livraria Virtual.

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Esta pistola de disparar palavras  

Orelha do livro: Contra o Consenso, de Reinaldo Azevedo

           O jornalista Reinaldo Azevedo é uma exceção em sua classe. Ele não se deixa ofuscar pela luz dos holofotes e resgata dos porões escuros para onde são relegados pelos jardineiros do óbvio acomodado flores belas e perfumadas da arte e da cultura e temas do cotidiano da política e da economia condenados pelos parasitas do ódio à diversidade e à clarividência. Este livro contém parte de seus textos produzidos para as revistas Bravo e Primeira Leitura em que sua erudição, rara num ambiente onde se acumpliciam a ignorância e a arrogância, é distribuída sem parcimônia a quem se interessar em adquirir conhecimento. Seu espírito tolerante denuncia o totalitarismo rastaqüera e suas formas de dominação, que vão do sociologismo da crítica literária à prepotência travestida de bom mocismo no convívio social e nas relações políticas. Estes textos, na periodicidade perecível das revistas ou nesta precária reunião em livro, são leitura obrigatória para quem não aceita passivamente o orgulho que os parvos sentem da própria estupidez nem o jugo à banalidade e à vulgaridade no mercado de pulgas do “bundalelê” vendido como papa fina pela cultura populista submetida aos piratas do capitalismo selvagem travestido de demagogia socialista nem muito menos a esterilização das instituições pela tacanha severinice petelha vigente. Não há lugar comum nem patrulha que lhe escapem à lâmina afiada do anátema preciso, impiedoso e procedente. O admirador da prosa enxuta e exata de Graciliano Ramos não perdoa o modismo que entroniza a obra barroca e deslumbrante, mas pouco lida e ainda menos absorvida, de Guimarães Rosa (a coincidência das iniciais dos nomes dos grandes escritores brasileiros torna a polêmica mais instigante) no altar-mor das letras pátrias. Sua notória preferência por anti-heróis leva-o a comparar nosso romântico precoce Álvares de Azevedo com Arthur Rimbaud... e dando vantagem a nosso poeta sobre o francês. E essa vocação de navegador contra as correntes o conduz a corredeiras de grande risco, como as que enfrenta ao exumar o cadáver insepulto do extinto ainda jovem poeta piauiense Mário Faustino, contrapondo sua obra fina e fecunda, ainda que quase anônima, contra a esterilidade ululante da vanguarda concretista paulista, que leva ao delírio os basbaques fanáticos de pirotecnia fátua. Da mesma maneira como delata, sem medo de contrariar interesses cristalizados da intelligentsia cult, preconceitos sólidos, caso do nunca justificado a contento “pré-modernismo” que condenou um gênio como Monteiro Lobato a uma espécie de purgatório: entre o Paraíso da jeunesse dorée da Semana de Arte Moderna e o Inferno a que foram cruelmente relegadas jóias da literatura parnasiana por preguiça, comodismo e falta de caráter (aqui não no sentido “macunaímico” do termo). O autor deste livro é um agnóstico contra igrejinhas literárias, um inimigo anarquista da ordem estabelecida de quem chafurda o pântano do poder político e cultural (que antes prometia drenar). E um cowboy justiceiro, que usa sua pistola de repetição de argumentos balísticos para executar a cretinice reinante no universo de “amém, sim, sinhô” da academia estruturalista e da imprensa semi-alfabetizada, que faz do besteirol marqueteiro de Michael Moore signo da sã rebeldia. E também para trazer de volta ao reino dos vivos reputações assassinadas pela mistura de ignorância e má-fé que tornou um cineasta como Walter Hugo Khoury vítima fatal da própria competência.

José Neumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde e autor de O silêncio do delator.
       

 

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