JOSÉ NÊUMANNE
Quando
Chamie se refere a Mário de Andrade, chamando a atenção do
leitor para o fato de que o autor de Macunaíma
tem um discurso sincrônico, “o que nos permite ter uma visão
do todo a partir de uma obra isolada”, ele não deixa de se
estar referindo a outro poeta de prenome Mário – ele próprio.
Assim como o de Andrade, o outro Mário tem um percurso
identicamente sincrônico na literatura em que milita: na
poesia assim como na prosa ensaística, seu trabalho é
revolver a palavra como o lavrador revolve a terra, germiná-la
como faz o semeador e vê-la brotar até se tornar uma árvore
frondosa e cheia de frutos. O ensaio que abre seu livro A palavra inscrita (Funpec, 2003), é, portanto, duplamente
revelador: ao ser consistente na apresentação da hipótese
de que qualquer crítico cometerá grave erro se tentar isolar
um texto do escritor que ele analisa, distinguindo o
folclorista do romancista, este do poeta e o poeta do
militante da cultura, o fundador da Práxis também deixa
claro que não é correto dissecar um texto isolado de sua
lavra – seja um ensaio, seja um poema -, sem ter em mente de
que ele faz parte de um universo maior, de um combate que se
prolonga ao longo do tempo e se trava num espaço tão amplo
quanto possa ser a espaçosa galáxia dos signos verbais.
A
palavra inscrita é uma coletânea de ensaios, artigos
para a imprensa, conferências e entrevistas de perguntas e
respostas, textos nos quais o autor se revela por inteiro e de
forma profunda, escrevendo e falando sobre um tema que domina
como poucos: a palavra, não apenas a oral ou a escrita,
manifestações superficiais, mas sobretudo a “inscrita”,
como indica o título. A abordagem do autor é semelhante á
leitura de um palimpsesto – termo grego que traduz a
superposição em camadas de um texto sobre outro nos
pergaminhos medievais – o que permite a revelação de
textos ocultos que persistem apesar da superposição do que
se faz revelar. Mário recusa, seja como poeta, seja como
prosador, seja como ensaísta, a condição menor de
manipulador do signo verbal: ele se propõe a flagrá-lo em
movimento ou em pleno processo de expansão.
Renovação
na revisita – Numa das entrevistas anexadas ao livro, o
poeta reivindica a condição de renovador de si próprio. Ou
seja, cada nova obra sua é uma visão original e instigante
dos processos de composição que ele mesmo havia desenvolvido
nas obras pregressas. Essa declaração, é em si mesma, uma
profissão de fé e uma definição exata de tudo quanto ele
vem fazendo desde que, há 42 anos, patrocinou a instauração
práxis, recuperando com Lavra
lavra o verso desestruturado pelos modernistas em 22,
venerado pela geração de 45 e decomposto pela vanguarda
concretista, da qual ele foi contemporâneo. E fazendo mais
que isso, ao enfrentar a tendência de parte da crítica
(seguindo a voga estruturalista) e da poesia brasileira pós-cabralina
de petrificar e totemizar a palavra, como se ela fosse um
objeto em si, quem sabe o
“seixo” descrito no poema de Francis Ponge que, à guisa
de ilustração de um ensaio sobre o poeta francês, é
reproduzido em anexo neste seu livro novo.
Da
mesma forma como propõe uma nova leitura unificadora da obra
plural de seu xará no ensaio que abre o livro, o ensaísta de
A palavra inscrita
revela a fluidez do mel de engenho que há por trás do rigor
formal de seu colega pernambucano João Cabral de Melo Neto:
chama ele a atenção do leitor para um aspecto que passou
despercebido de praticamente todos os seus exegetas, alguns
dos quais tidos e havidos como sacerdotes supremos da análise
literária no Brasil. Sob a rigidez mineral da precisão
formal do texto aparente do poeta que se destacou entre todos
os seus pares na segunda metade do século 20, não apenas no
Brasil, mas também no mundo inteiro, Chamie resgata subtextos
tão ou mais importantes que essa característica apontada em
uníssono como não apenas a mais importante, mas praticamente
a única.
Sertão,
mar e mel - É instigante a forma como ele delata as
lacunas na leitura crítica da obra cabralina, ao perseguir
nela a extensão do mar nas dunas, das dunas no canavial e,
por fim, do mar de cana no relevo topográfico ondular do
semi-árido. Chamie revela ao leitor os subtextos fluidos do
palimpsesto poético de Cabral, mostrando que sob a dialética
mítica e mística do sertão/mar subsiste uma síntese
fractal, que faz justiça à enorme capacidade plástica do
poeta por excelência da paisagem, que foi o mestre recifense.
A palavra no universo cabralino – ele mostra ao ler, ao
comentar e ao puxar o leitor pela mão para lhe mostrar com
clareza, citando e recitando exemplos convincentes – não é
imóvel nem, muito menos, imutável. Nessa visão nova,
sedutora e revolucionária do autor, João Cabral, conterrâneo
do gênio da raça Gilberto Freyre - que Chamie coloca no
panteão que lhe é devido -, produz debaixo do texto mineral
revelado na superfície camadas de poesia fluida como o mel de
engenho, metáfora que percorre outros veios e sulcos abertos
ao longo do livro aqui comentado. A indefinição física do
subproduto da cana moída também é lembrada na leitura crítica
do autor da crítica feita por Lévi-Strauss a nossos Tristes
trópicos, a respeito da qual este texto se refere logo
abaixo.
Antes
disso, convém chamar a atenção do leitor interessado pela
inversão proposta pelo atento leitor de João Cabral, que
Chamie sempre foi e continua sendo: a contestação da
imobilidade pela fixação do conceito oposto, o da “poesia
peregrina”. Para apoiar seu comentário de que o veio poético
cabralino segue o curso dos rios que lhe servem de tema –
ele, que é por
excelência o cantor do Capibaribe e do Beberibe -, Chamie
recorre em mais de um ensaio a uma citação convincente:
“Para os bichos e rios / nascer já é caminhar”. Frutos
de um estro poético genial, esses dois versos sugerem o
movimento que explicitam e vão além, parafraseando a secular
constatação filosófica de Heráclito de Éfeso, para quem
ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio.
Preconceito
versus conhecimento – A descoberta de ângulos novos na
leitura crítica de uma poesia dissecada até os ossos como é
a de João Cabral revela a erudição e a inteligência de
quem a faz, mas também não deixa de denunciar seu gosto pela
oposição e pela polêmica. Ao jovem colega Rodrigo Petrônio,
em entrevista, Mário revela que sempre fez questão de
enfrentar os consensos. E o fez sem medo em sua luta quase
fratricida contra os irmãos Campos como continua a fazê-lo
ao enfrentar o establishment
acadêmico “uspiano” ao examinar criticamente a obra de um
de seus mitos fundadores, o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss
e defender uma das vítimas mais notórias de sua patrulha
ideológica, o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre.
O
analista agudo que não teme polêmicas promove a demolição
do mito dos Tristes trópicos
usando a arma favorita daqueles que o adotam com a mesma
convicção com que detestam o autor de Casa
Grande & Senzala. Baseando-se no relato do próprio
antropólogo, Chamie desnuda seu método eurocêntrico e
branco de interpretar a realidade desconhecida do trópico que
visitou e tentou, em vão, entender e, o que é pior,
consertar. A visão preconceituosa, racista até, de Lévi-Straus
pode muito bem ser qualificada como “colonialista” no
sentido dado pelo ensaísta, ao contrapor os métodos
coloniais da Europa anglo-saxã, contrapostos à colonização
da miscigenação promovida pelos portugueses e registrada na
obra de Freyre, tal como o relata Chamie. O método “científico”
de elaborar um sistema e, depois, ir a campo ver como a
realidade pode confirmá-lo é usado até hoje por cientistas
sociais brasileiros, muitos dos quais formados na USP, que o
francês ajudou a criar. Estes tratam Chamie como um inimigo a
ser combatido e este não costuma deixar desaforo sem
resposta. Daí, a notória (e, por que não dizer, estúpida)
cortina de silêncio que se abate sobre seu discurso crítico
e, sobretudo, sua obra poética numa academia regida pela
confirmação do preconceito e não pela busca do
conhecimento.
“Aquele”
Gilberto – Com a mesma coragem de combatente e polemista
com que critica Lévi Straus e, com ele, todo o mito da
superioridade da ciência branca sobre a “superstição”
afro-índia, Chamie faz justiça ao trabalho luminoso de
Gilberto Freyre. Cita um estudo do inatacável Antonio Candido
de Mello e Souza e, como convém quando se cita um totem da crítica
acadêmica nacional, lhe presta todas as homenagens
em adjetivos. Mas
lembra que o título do estudo, “Aquele Gilberto”, revela
por si só a posição dúbia da intelligentsia
“uspiana” sobre o mais importante sociólogo
brasileiro de todos os tempos. O “aquele” define com
clareza os dois Gilbertos, tal como o cientista social
pernambucano foi tratado pela USP: o fundador da Nova
Sociologia brasileira com Casa
Grande & Senzala, respeitado no mundo temperado e, por
isso também, aceito aqui nos trópicos, e o “conservador”
atacado como se fosse (o que não era) cúmplice da tirania
militar sob cuja égide o Brasil viveu em sua velhice. O
estudo de Chamie é exemplar, por expor os defeitos e vícios
da crítica estruturalista-marxista ao mestre de Apipucos –
fraquezas de natureza teórica e de mera vilania pessoal –
que em nada diminuem a importância da obra do mestre, mas
apenas revelam a escala liliputiana de seus detratores.
Além
do material acima citado, a coletânea de textos publicada no
novo livro propõe uma forma de interpretar o texto de
Euclides da Cunha como uma obra de arte em si mesma e não
como um veículo panfletário de um pensamento científico a
que se tem tentado reduzi-lo. Inclui ainda estudos – todos
eles no mínimo provocativos – da obra do poeta negro
simbolista Cruz e Souza e até de um opúsculo de Betty Milan
sobre o amor, julgado sob o prisma de um clássico antigo do
cancioneiro brega nacional, Coração
materno, de Vicente Celestino, regravado por Caetano
Veloso na época tropicalista. Aliás, a MPB é abordada num
ensaio sobre a influência da Instauração práxis nas letras
de Chico Buarque, Gilberto Gil e do citado Caetano Veloso. Há
também uma palestra sobre a literatura brasileira neste século
21 e um verbete sobre danças populares escrito para um dicionário
da lusofonia, que está sendo preparado em Portugal.
E
há, por fim, um ensaio interessantíssimo
sobre o maior prosador brasileiro de todos os tempos
– “Machado na sua” –, que dá bem uma idéia da verve
e da atenção do leitor que o escreveu: ele parte de uma citação
do autor de Dom Casmurro
que poderia ser usada pelos jovens de Ipanema nos anos 60
- “Eu ainda estou na minha: acho que foi a nostalgia da
lama”. Essa sentença dá bem uma idéia do espírito do
autor e de sua obra: a curiosidade instigante e polêmica a
serviço da restauração da verdade histórica escondida nos
palimpsestos canônicos das igrejinhas no comando da academia
excludente.
José
Neumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde e autor de O
silêncio do delator.