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Norma Godoy

       
 

 

Reflexões sobre conto e crônica

   
   

Norma Godoy*

   
   
  O homem, no seu mais significativo espaço 
de representação – toda grande arte – é, na sua (des) humanidade, pura excrescência.**
   
 



                
O conto de Manuel Lobato, O medo, dá-nos uma perfeita idéia do que Massaud Moisés (1978, p.19) chama de estrutura unívoca, “fechada como um ovo”. Univalência que se compreende da seguinte forma: a) pela unidade de ação constituída por apenas um conflito vivido pelos personagens - no caso do conto de Lobato - o motorista e o passageiro; b) pela unidade de espaço. No que tange ao conto mencionado, a célula dramática configura-se no interior do táxi, onde as personagens dialogam tensa e digressivamente, como que instigando, arrastando o leitor para o ambiente sufocante do veículo; c) pela unidade de tempo, que se dá sem a inserção de planos temporais, sem associações complexas de idas e vindas na mente dos personagens. Tudo se passa durante parte da madrugada; d) pela unidade de tom que se conserva eivado de dramaticidade até quase o desfecho da brevíssima narrativa. 
                O caráter uno do conto O medo não nos leva a uma experiência de leitura monótona ou a uma ausência de inventividade por parte do autor, contrariamente, Lobato, ao projetar, no início do texto, uma instância lírica em que o motorista de táxi se enternece com o mistério das madrugadas, “impercebível em outros horários”, provoca de imediato o desencadeamento da ação conflituosa, que se abre ao leitor de forma imprevisível, através das frases curtas e das constantes pausas de pontuação sintática, o que confere àquele passo do texto um ritmo sincopado, fragmentário. O leitor predispõe-se a acompanhar o precipitar-se da narrativa: 

Por causa do frio, verifica se os vidros das portas estão levantados, tateando-os; boceja, o hálito ofusca o pára-brisa, tira do porta-luvas uma flanela que está sobre o revólver, limpa a vidraça pelo lado de dentro; aperta o botão que borrifa água pelo lado de fora; a neblina também umedece a vidraça; liga o limpador de pára-brisa, não funciona; lembra-se de ligar a chave de arranque, põe o automóvel e o limpador em funcionamento; o barulho não acorda os companheiros, cada um debruçado no seu volante. Desliga o limpador e gira o dispositivo que aquece o veículo por dentro com ar vindo do motor; a temperatura continua baixando; liga o rádio, a estática o assusta, desliga. Olha através do pára-brisa, a refração aumenta a nebulosidade e ele tem consciência de que está sozinho. Liga de novo o limpador de pára-brisa, desliga-o; o vaivém lhe permite ver – pelo semicírculo desenhado na vidraça – um homem caminhando em direção ao ponto de táxi. (LOBATO, s/d)


               
  A presença do homem na madrugada é um sinal de perigo iminente para o motorista, fato revelador das contradições sociais e do próprio espírito de uma determinada época. Para todo grande produtor de contos, escrevê-los “não [é] um ato mecânico de mera catarse ou exorcização, mas também uma reflexão sobre a época”, (GIARDINELLI, 1994, p.13-14), em que vive o autor. Aliás, pelo clima de pré-tensão instalado já nas primeiras linhas da narrativa, o motorista, antes mesmo de ver o homem encaminhando-se em sua direção – “pelo semicírculo desenhado na vidraça” – já o temia. A partir daí, momento em que o pretenso passageiro entra no táxi, o texto conduz o leitor nas malhas de um diálogo feito de digressões e ambigüidades:

— Direto pela avenida.
— O doutor manda.
O homem levanta a gola do paletó, apalpa os bolsos. O chofer observa pelo retrovisor.
— Cigarro?
— Não fumo.
— Fiz tudo para deixar, tomei pílulas de farmácias, mas a gente fica esperando passageiros, precisa de distração.
— Deixar o vício só com força de vontade.
— A força é tudo. O cigarro sobe de preço a toda hora; a gasolina também subiu três pra quatro vezes, sem falar no óleo; ainda por cima, inventaram o psicotécnico...
— Acelere menos.
— Avançou o sinal.
— Nenhum jornalista esculhamba os de cima.
— Cuidado! Vermelho para nós.
— Isso não vai longe.
— Está perto. Pare na esquina. Está forçando a máquina.
— No distrito?
— É.
— O doutor está de plantão?
O motorista pára o carro, acende a luz interna, confere o taxímetro, bandeira dois. O homem faz o pagamento.
— O troco é seu. Gorjeta pouca, também ando sacrificado. Não posso reclamar, sou autoridade.
— Então é dos nossos. 
(...). (LOBATO)

                O clima de tensão depreendido do espaço/núcleo pleno de dramaticidade, o interior do automóvel, como que representa o sentimento de medo e a impossibilidade de comunicação do homem moderno. Forma e conteúdo amalgamados criam uma realidade vivida visceralmente pelo leitor. Nesse trecho do conto, o tempo/ritmo da leitura é acelerado para reforçar o caráter opressivo da situação em que se presentifica o vivido. O diálogo, além de realçar a imagem dos personagens que se previnem um contra o outro, faz do leitor um possível componente do texto. O narrador despreza idéias acessórias. Tudo é presente/urgente.
                 Em Manoel Lobato, o tom levemente lírico que encabeça o conto encerra-se no primeiro período do texto para dar lugar ao objetivo maior, que é a obediência a uma estrutura orquestral de impacto no leitor. Tudo se junta para impressioná-lo, dando-lhe a noção perfeita do dilema das personagens, que ganha consistência na mescla dos elementos de tessitura do texto. O narrador precipita os acontecimentos intencionalmente, de forma a desacomodar o leitor, possibilitando-lhe, no processo da recepção, uma relação dialógico-dialética com o universo do texto que reflete o externo, o real objetivo, que se internaliza como elemento estrutural. Fundem-se texto e contexto: “(...) o externo (no caso o social) importa, não como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na constituição da estrutura, tornando-se, portanto, interno”. (CANDIDO, 1985, p.4)
                Tensão e ambigüidade abrem fendas no texto, entrelinhas que ensejam um clima inquietante perpassado de medo, cujo efeito conduz o leitor avidamente para o desfecho. Ao descer do táxi, o passageiro permanece temeroso e intrigado com o que se passou dentro do veículo: 

(...) livre, ainda se aflige, os dedos molhados procuram no bolso pegajoso a chave da casa; chega ofegando, respira fundo, apalpa a fechadura, enfia a chave, abre a porta, pula para dentro, bate a porta com força, julga-se a salvo. Torna a respirar, agora com alívio. Afinal, consegue raciocinar: seria verdadeira a identidade do motorista? Com certeza, a carteira é graciosa. Talvez o chofer seja tão mentiroso quanto ele que se passou por delegado. Deveria ter dito uma frase de efeito, ambigüidade na inflexão: “vou anotar a placa pra ficar freguês.” (LOBATO)


              
  Leitura e respiração dão-se num mesmo processo. Temos, portanto, um brevíssimo conto, “fechado como um ovo”, mas que se realiza singular e literariamente. 
Muitos são os questionamentos de alguns interessados em literatura, quando se trata de definir se um texto é conto ou crônica; no entanto, a despeito de quaisquer dúvidas, podemos vislumbrar as peculiaridades de uma e de outra estruturas. É claro que, mesmo havendo um modus proprius de realização para essas duas formas de expressão literárias, não se deve aprisioná-las a regras apriorísticas de estruturação do texto. Há que se observar, portanto, alguns princípios da teoria literária já consagrados entre os estudiosos e, a um só tempo, respeitar as particularidades de um determinado estilo, visualizando a arte como fenômeno da imaginação do autor e objeto/campo de plasmação de (des) humanidades. 
               Lendo atentamente a crônica Um cão apenas, de Cecília Meireles (1982, p.17-18), pensamos que, para o leitor incauto, não é difícil confundi-la com um conto. São dois modos de expressão literária que freqüentemente se caracterizam pela brevidade do narrar. Entretanto, no conto, isso ocorre sob um clima de maior tensão e densidade narrativa, aspectos reconhecidos por quase todos os que estudam e fazem literatura, como sendo indispensáveis a todo bom conto. Para reforçar nossos raciocínios, ainda nas pegadas de Giardinelli (1994), citando o teórico chileno Juan Epple, destacamos, como peculiaridades inerentes à estrutura do conto, as seguintes características: “brevidade, singularidade, tensão e intensidade.” 
              O narrar, na crônica Um cão apenas, dá-se com uma certa leveza e poeticidade, sem a tensão percebida no conto O medo. O cronista, diferentemente do contista, não tem a premência de forjar personagens que densifiquem uma célula dramática, em apenas um espaço privilegiado pelo clima conflituoso do texto. Ademais, “o cronista reage de imediato ao acontecimento, sem deixar que o tempo lhe filtre as impurezas ou lhe confira as dimensões de mito, horizonte ambicionado por todo ficcionista de lei.” (MOISÉS, 1978, p.247)
            No início da crônica Um cão apenas, a expressão “eis-me no patamar” coloca-nos diante da seguinte evidência: a autora, após breve e poética descrição do ambiente a sua volta, como que representando/anunciando a posição de narradora-observadora do acontecimento, passa a narrar sem perda de tempo, porém sem a urgência, a precipitação constatada n’O medo. Enquanto em Manuel Lobato o tom é eivado de dramaticidade, em Cecília Meireles há comoção e pungência na descrição da trajetória do personagem-bicho dotado de profunda fragilidade/humanidade (ao modo de Baleia em Vidas Secas de Graciliano Ramos):

(...) livre, ainda se aflige, os dedos molhados procuram no bolso pegajoso a chave da casa; chega ofegando, respira fundo, apalpa a fechadura, enfia a chave, abre a porta, pula para dentro, bate a porta com força, julga-se a salvo. Torna a respirar, agora com alívio. Afinal, consegue raciocinar: seria verdadeira a identidade do motorista? Com certeza, a carteira é graciosa. Talvez o chofer seja tão mentiroso quanto ele que se passou por delegado. Deveria ter dito uma frase de efeito, ambigüidade na inflexão: “vou anotar a placa pra ficar freguês.” (LOBATO)


                
O tom lírico-emotivo se dilui uniformemente por todo o campo narrativo-descritivo da crônica ceciliana, enquanto uma avalanche verbal compõe o conto O medo, opondo-se, pois, ao narrar lento da cronista-poeta do circunstancial. O contista urde de forma impactante e urgente; o cronista capta a imanência poética do acontecimento e/ou da situacionalidade que se lhe apresenta de forma inusitada: “A crônica oscila entre a reportagem e a Literatura, entre o relato (...) de um acontecimento trivial, e a recriação do cotidiano por meio da fantasia.” (MOISÉS, 1978, p.247) 
               Não seria de bom-senso fecharmos uma discussão que, mesmo antiga, permanece, de certa forma, em aberto. Teóricos da seriedade de um Cortázar, de um Giardinelli, só para exemplificar, em relação ao conto, seja ele breve ou longo, não definem sua estrutura de for-ma radicalmente fechada. Embora de improvável definição, o conto tem algumas regras que ao menos permitem identificá-lo. O mesmo acontece com a crônica, contexto em que o colo-quial e o literário se equilibram dialogicamente na plasmação do imediato cotidiano, 

(...) livre, ainda se aflige, os dedos molhados procuram no bolso pegajoso a chave da casa; chega ofegando, respira fundo, apalpa a fechadura, enfia a chave, abre a porta, pula para dentro, bate a porta com força, julga-se a salvo. Torna a respirar, agora com alívio. Afinal, consegue raciocinar: seria verdadeira a identidade do motorista? Com certeza, a carteira é graciosa. Talvez o chofer seja tão mentiroso quanto ele que se passou por delegado. Deveria ter dito uma frase de efeito, ambigüidade na inflexão: “vou anotar a placa pra ficar freguês.” (LOBATO)

         Alguns aspectos diferenciadores das estruturas em prosa, ora em observação, são os níveis de intensidade e tensão dramática e o diálogo. Com maior destaque nos contos e menor nas crônicas. Essas peculiaridades se encontram em O medo e em Um cão apenas. É verdade que um conto pode se realizar sem presença marcante do diálogo. Há aqueles essencialmente descritivos, como é o caso de todos os que se encontram em Laços de família de Clarice Lispector (1993). São eles: Devaneio e embriaguez de uma rapariga (p.17), Amor (p.29), Uma galinha (p.43), A imitação da rosa (p.47), Feliz aniversário ( p.71), A menor mulher do mundo (p.87), O jantar ( p.97), Preciosidade (p.103), Os laços de família (p.117), Começos de uma fortuna (p.129), Mistério em São Cristóvão (p.139), O crime do professor de matemática (p.147) e O búfalo (p.157). No entanto, o elemento tensão/dramaticidade esta-rá sempre entrelinhado em todo grande conto, a que não se obriga a crônica.
           Pela índole ensaística deste estudo, pretendemos, de algum modo, conservá-lo em aberto, o que nos permite passear por entre os mais diversos pontos de vista, ou seja, manter uma certa liberdade para, ora observar o que já se estabeleceu canonicamente acerca de conto e crônica, ora aderir aos posicionamentos mais flexíveis de alguns dos pesquisadores atuais. Se atentamos para algumas possibilidades teóricas, no que tange a essas formas narrativas, é porque esperamos que existam nelas coerência e respeito a certos limites do texto. Também não promovemos a dissolução dos gêneros literários, mas cultuamos a idéia de arte numa perspectiva multivocal, que extrapola os mecanismos de estruturação linear. Estamos entre o sim e o não, num jogo de mediações, que é o que nos parece mais sensato. Ora, se tratamos de arte, na sua singularidade e significância, haverá sempre algo de excrescente ou contraditório, mas profundamente humano lastreando sua estrutura. 
                  Em Um cão apenas, crônica avizinhada à poesia, é notória a presença de um sujei-to de enunciação que narra um acontecimento aparentemente banal através de uma linguagem de função expressivo-emotiva. O tom de comoção, utilizado pelo cronista/narrador nas descri-ções, intensifica significativamente o cotidiano circunstancial e o nível imagético do texto, levando o leitor a refletir, à passagem claudicante do cão jogado à própria sorte, numa condi-ção de vida humana em seu final: “Depois pensei que nós todos somos, um dia, esse cãozinho triste, à sombra de uma porta. E há o dono da casa, e a escada que descemos e a dignidade final da solidão.” 
                  Em Amor, conto de Clarice Lispector, o elemento poético também se faz marcante, subjacente ao cotidiano representado no campo literário, as impressões/sensações de uma do-na-de-casa às voltas com os próprios pensamentos e inquietações existenciais. A personagem Ana perscruta-se a partir de experiências vividas em momentos de vida intensa, de forma a significar as próprias excrescências. (Ver pensamento epigrafando este estudo). Trata-se de um conto em que, mesmo na sua brevidade, se abrem abismos insondáveis para a compreensão do leitor menos avisado. Aqui, a respeito da história contada, não cabe a expressão massaudiana “fechada como um ovo”:

O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, (...). Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida. Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. (LISPECTOR, 1993, p.29)

          As instâncias lírico-dramáticas, em Amor, se diluem ao longo do campo narrativo, apesar de uma maior concentração durante a experiência epifânica, vivida pela personagem, provocada pela visualização da figura do cego, no ponto de ônibus, mastigando com trejeitos próprios dos cegos, parecendo “sorrir e de repente deixar de sorrir” mecanicamente: 

Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles. (...) olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mastigava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento de mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir – como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher de uma mulher com ódio. (LISPECTOR, 1993, p.32) . 

           Os textos que exemplificam nossas conjecturas sobre conto e crônica representam circunstâncias relativamente habituais, ou seja, situações de um cotidiano ordinário e de nós muito próximas. Há ainda quem associe a forma a temas específicos. Concordamos que, “em literatura não há temas bons nem maus, há somente um bom ou mau tratamento do tema.” (CORTÁZAR, 1974, p.149). Porquanto, tratamos de textos bem urdidos e nada vulgares, até porque seus autores tratam de temas universais: os sentimentos de medo e abandono que qualquer homem, de qualquer parte do mundo poderá sentir um dia. São formas de expressão que, direta ou indiretamente, se ligam aos destinos humanos. Mas, façamos outras reflexões acerca do gênero crônica atentando para um pensamento de Antonio Candido: 

A crônica não é um “gênero maior”. Não se imagina uma literatura feita de grandes cronistas, que lhe dessem o brilho universal dos grandes romancistas, dramaturgos e poetas. Nem se pensaria em atribuir o Prêmio Nobel a um cronista, por melhor que fosse. Portanto, parece mesmo que a crônica é um gênero menor. (...) Por meio dos assuntos da composição aparentemente solta, do ar de coisa sem necessidade que costuma assumir, ela se ajusta à sensibilidade de todo dia. Principalmente porque elabora uma linguagem que fala de perto ao nosso modo de ser mais natural. Na sua despretensão humaniza; e esta humanização lhe permite, como compreensão sorrateira, recuperar com a outra mão uma certa profundidade de significado e um certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição. (CANDIDO, 1985, p.5-6)

            O que aqui projetamos não esvai o assunto, entretanto distinguirá, mesmo que relativamente, as formas conto e crônica. Mas, abramos outras perspectivas mediadoras do nosso estudo, analisando a crônica Madrugada, de Rubem Braga, em que o autor, ao delinear uma imagem de mulher entrevista em sonho, o faz de forma poética e policromática:

E havia muitas vozes, de homens e de outras mulheres, ruídos de copos, música. Mas isso tudo era vago: eu fixava a jovem mulher da poltrona, atento ao jogo de sombra e luz em sua testa, em sua garganta, nos braços: seus lábios moviam-se, eu via os dentes brancos, ela falava alegremente. Talvez fosse alguma coisa dolorosa para mim, eu percebia trechos de frases, mas ela estava tão linda assim, sentada sobre as pernas, os joelhos dobrados parecendo maiores sob o vestido leve, que o prazer de sua visão me bastava; uma luz vermelha corou seu ombro esquerdo, desceu pelo braço como uma carícia, depois chegou até o joelho. (...) Sobre o nascente, onde a barra do dia ainda era uma vaga esperança de luz, havia nuvens leves, espalhadas em várias direções como se durante a noite o vento tivesse dançado no ar. Depois, aos poucos, foi se acendendo um carmesim, e sob ele o mar se fez quase verde, (...). (BRAGA, 1998, p.25-27)

          A crônica em pauta confirma as conclusões de Massaud Moisés, no seu Criação Literária – Prosa (1978), uma vez que a leveza do tom lírico-reflexivo, espraiado no texto, juntamente com os indícios de literariedade permitem uma leitura de envolvimento estético do leitor:

O cronista pretende-se (...) o poeta ou o ficcionista do cotidiano. [Busca] desentranhar do acontecimento sua porção imanente de fantasia (...). Em toda crônica, os indícios de reportagem se situam na vizinhança, quando não mescladamente, com os literários; e é a predominância de uns e de outros que fará tombar o texto para o ex-tremo do jornalismo ou da Literatura. (MOISÉS, 1997, p. 247-8). 

              A plasticidade no cromatismo das cores sensorializa intensamente o universo narrativo em Madrugada, o que se dá a perceber no decorrer de todo o texto, quando o narrador-personagem sai do clima onírico, mergulhando na realidade objetiva com o mesmo vagar, recordando o sonho vivido na contemplação da imagem de mulher. Se formos contrastar as crônicas Madrugada e Um cão apenas, veremos que ambas se realizam em textos brevíssimos e destensionados, apesar dos tons díspares. Em Braga, alheio e poético, em Meireles, pungente e lírico.
                  A tentativa de fazermos distinção entre conto e crônica não apaga o impasse criado por alguns renomados estudiosos da literatura. Até porque há que se gerar muitas polêmicas em torno das mais diversas formas literárias. Sem elas, o que fariam os investigadores e críticos de arte? Nós, como adeptos da literatura e de outras tantas artes, torcemos para que se faça bastante alarido em torno delas. Talvez, mesmo parecendo contraditório, essa seja uma maneira de pôr em destaque o veio resistente de toda grande arte. Viva, portanto, todos os disparates e acertos publicados por aí.

           Considerando a idéia de não se definir a grandeza de um conto ou de uma crônica pela sua aquiescência ou fuga aos cânones de produção/estruturação textual, observemos como uma crônica pode ser facilmente confundida com um conto. Ao lermos O assalto (VERÍSSIMO,1997,p.25-6), pelo clima de tensão instalado na narrativa desde o começo, questionamos se se tratava de um conto ou de uma crônica. Vejamos, pois, o trecho inicial:
Quando a empregada entrou no elevador, o garoto entrou atrás. Devia ter uns dezesseis, dezessete anos. Preto. Desceram no mesmo andar. A empregada com o coração batendo. O corredor estava escuro e a empregada sentiu que o garoto a seguia. Botou a chave na fechadura da porta de serviço, já em pânico. Com a porta aberta, virou-se de repente e gritou para o garoto:

Quando a empregada entrou no elevador, o garoto entrou atrás. Devia ter uns dezesseis, dezessete anos. Preto. Desceram no mesmo andar. A empregada com o coração batendo. O corredor estava escuro e a empregada sentiu que o garoto a seguia. Botou a chave na fechadura da porta de serviço, já em pânico. Com a porta aberta, virou-se de repente e gritou para o garoto:
— Não me bate! (...) .(VERÍSSIMO, 1985)

          O que vem em seguida a esse excerto é a continuação de um diálogo bastante ambíguo. Aliás, a ambigüidade é marca predominante nessa crônica de Veríssimo, em que o garoto é tomado por assaltante sem o ser. Até aí nada fazia crer tratar-se de uma crônica, no entanto, para um leitor com um mínimo de aviso, a dúvida se dissiparia logo após a conversa entre a empregada e o garoto. Este se introduz no apartamento, tentando explicar que é inocente, de onde surgem novos personagens, dois velhos que, assustadíssimos, passam a dialogar com o aparente invasor até o desfecho da narrativa em que se define o garoto como assaltante. Durante todo o texto, o suposto malfeitor, que foi ali apenas “pegar umas garrafas”, é mal entendido por todos, o que gera um certo clima de comicidade, abrindo-se a dimensão do risível para o leitor, de forma a acordá-lo para a questão social. Aliam-se no texto tensão e elasticidade: 

O que a vida e a sociedade exigem de cada um de nós é certa atenção constantemente desperta, que vislumbre os contornos da situação presente, e também certa elasticidade de corpo e de espírito, que permitam adaptar-nos a ela. Tensão e elasticidade, eis as duas forças reciprocamente complementares que a vida põe em jogo. (BERG-SON, 1983, p. 18)

          No universo da crônica O assalto, percebe-se de imediato uma crítica social, através dos comportamentos da empregada e dos velhos para com o garoto, que, induzido por todos, leva consigo o dinheiro oferecido pelos próprios moradores do apartamento. Forja-se um assaltante em potencial. A representação do real objetivo é ponto de identificação do leitor com a vida em sociedade. Mais uma vez a arte apresenta-representa parte da vida. O social - o externo - torna-se parte estruturante do texto. Se o texto ressoa esteticamente/literariamente no espírito do leitor e, ainda por cima, reveste-se de caráter social, qual a relevância de ser um conto ou uma crônica, um romance ou um poema? Deixemos que cada produtor de arte escolha a forma adequada à sua necessidade de expressão artística. Continuemos em meio às mediações, pois.
                 Ainda questionamos: Qual a importância de definirmos rigidamente a estrutura de um determinado texto literário? Como já aventamos, é necessária a observação de certos limites de estruturação e da junção forma/conteúdo, mas a adesão radical ou não à fôrma, por parte do autor, não legitima o valor de uma obra nem diz do seu mérito ou demérito literário.
                  Vivemos numa era de extremos em que a vida é descoberta e estupor; grito e silêncio. Tudo latente no esgar do homem, acima de tudo, solidamente solitário. Como pode a arte bem representar esse ser, ora cotidiano, ordinário; ora existencialista, transcendental, senão em liberdade? Que se exorbitem os textos em todas as dimensões, ora! Arturo Gouveia é quem apregoa: 

Ora, o conto é um gênero que ainda carece de conceituação. No dia em que esta for atingida, hei de transgredi-la nas primeiras linhas de um conto de oitocentas páginas, cheias de digressões e desumanidades e que se passarão em meio segundo. O século XX e suas vanguardas, extensão, extensão pura do romantismo, já reelaborado em outro grau, trouxeram a contribuição da “ mistura dos formas.” (GOUVEIA, 2003, p.8) 

            Relendo Os nove décimos (1998) e A arte do breve (2003), livros de contos de Arturo Gouveia, pensamos em aplicar uma espécie de teoria do abismo à escritura desse autor paraibano. Gouveia cria sua arte do breve num processo associativo só percebido por muito atentos observadores. Tudo na composição dos seus livros de contos concorre para o entendimento da sua proposta literária. Desde a capa, orelhas, contra-capa, epígrafes e predifíceis, que são paratextos definidores do resultado estrutural de sua arquitetura literária, vê-se o poder de invenção do autor, além de chamar a atenção para um universo narrativo de ruptura com o convencional artístico, onde o mundo configura-se apocalíptico como é o próprio homem contemporâneo e o planeta onde sobrevive:

Ora, o conto é um gênero que ainda carece de conceituação. No dia em que esta for atingida, hei de transgredi-la nas primeiras linhas de um conto de oitocentas páginas, cheias de digressões e desumanidades e que se passarão em meio segundo. O século XX e suas vanguardas, extensão, extensão pura do romantismo, já reelaborado em outro grau, trouxeram a contribuição da “ mistura dos formas.” (GOUVEIA, 2003, p.8) 


                  No Pró-Ética, que antecede os contos de Os Nove Décimos (1998), Arturo Gouveia de Araújo deixa como que uma lição/concepção de arte literária contemporânea, quando pontua: “(...) torná-la expressiva e inimaginável até os padrões de terror que se aproximam, com um abraço cosmopolita do Inferno”. Certamente é muito pouco o que dissemos acerca da escritura desse autor paraibano. Numa próxima empreitada, arriscaremos um estudo específico dos seus contos. Tarefa já agendada por nós.
                  O que percebemos, nas mais diversas visões teóricas do conto e da crônica, notadamente da crônica, sem preocupação em discutir a evolução desses conceitos no perpasse dos tempos, são pontos de vista oscilantes, deixando ao exegeta a possibilidade fronteiriça e híbrida de realização dessas formas literárias, o que, em nós, fortalece o princípio de que toda grande arte, em essência, é insubordinada. Não aceita camisas de força. Atentemos para a orientação de dois grandes autores da teoria do conto que nos ajudarão a dialogizar este estudo: 

Estou falando do conto contemporâneo, digamos o que nasce com Edgar Allan Poe, e que se propõe como uma máquina infalível destinada a cumprir sua missão narrativa com a máxima economia de meios; (CORTÁZAR, 1974, p. 228)

 

Estou falando do conto contemporâneo, digamos o que nasce com Edgar Allan Poe, e que se propõe como uma máquina infalível destinada a cumprir sua missão narrativa com a máxima economia de meios; (CORTÁZAR, 1974, p. 228)

          E, no que tange à crônica, ninguém melhor do que o mestre Candido (1978), para enriquecer nosso jogo de mediações: 

Ora, a crônica está sempre ajudando a estabelecer ou restabelecer a dimensão das coisas e das pessoas. Em lugar de oferecer um cenário excelso, numa revoada de adjetivos e períodos candentes, pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas. Ela é amiga da verdade e da poesia nas suas formas mais diretas e também nas suas formas mais fantásticas, sobretudo porque quase sempre utiliza o humor. (CANDIDO, 1980, P. 8 -9)

          Por vago que pareça, trata-se também de uma questão de sensibilidade. Pressentimos, se avisados para as trapaças do criador, quando estamos lendo um conto ou uma crônica. Aliás, há quem diga tentando simplificar, que o próprio autor define o seu texto quando o publica, como conto ou crônica. Estamos certos de que isso também é relativo como tudo que paira sob os céus.




BIBLIOGRAFIA



BRAYNER, Sonia. Labirinto do espaço romanesco.Rio de janeiro: Civilização Brasileira, 1979.
BRAGA, Rubem. Madrugada. In: O verão e as mulheres. Rio de Janeiro: Record, 1998.

BRICOUT, Bernadette. Conto e Mito. In: BRUNEL, Pierre (org). Dicionário de mitos literá-rios. Trad. Carlos Sussekind et alli. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997.

BERGSON, Henri. O riso. Ensaio sobre a significação do cômico. Rio de Janeiro: Zahar Edi-tores S. A. , 1983.

CANDIDO, Antonio. A vida ao rés-do-chão (prefácio). In: Para gostar de ler. Vol. 5, crôni-cas. São Paulo: Ática, 1980.

________________. Literatura e Sociedade. São Paulo: Ed. Nacional, 1985.

GIARDINELLI, Mempo. Breve história do conto. In: Assim se escreve um conto. Porto 
Alegre: Mercado Aberto. 1994.

___________________. Estrutura e morfologia do conto. In: Ibidem.

GOUVEIA, Arturo. Os Nove Décimos. Contos – João Pessoa: Manufatura, 1998.

_______________. A arte do breve. João Pessoa: Manufatura, 2003.

CORTÁZAR, Julio. Alguns aspectos do conto. In: Valise de cronópio. Trad. Davi Arrigucci Jr e João Alexandre Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 1974.

GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do Conto. São Paulo: Ática, 1988.
LOBATO, Manuel. O medo. (Sem outros dados)
MOISÉS, Massaud. A Criação Literária. Prosa. São Paulo: Cultrix, 1979.
MEIRELES, Cecília. Um cão apenas. In: Janela mágica. São Paulo: Moderna, 1982.
SÁ, Jorge de. A crônica. São Paulo: editora Ática, 1985.


   
  * Professora de Literatura Brasileira e de Teoria da Literatura da FAFIRE
** Epígrafe nossa.
1-Não descobrimos em que obra foi publicado o conto O medo, de Manuel Lobato, portanto, deixamos de registrar alguns dados bibliográficos relativos a esse texto.


   
      

 

   

 

   

          

CD Plataforma para a Poesia - Poemas Indispensáveis - Apresentação de Deonísio da Silva 

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