A cultura sob o signo Was

 

Alberto da Cunha Melo

 

“Que é que poderia proibir dizer-se a verdade rindo?”(Horácio – Sátiras)

 

 

            Signos Involuntários é o recém-lançado livro de um estranho arquipoeta brasileiro, conhecido apenas — até aqui — por uma rala irmandade que viceja entre os desvãos da kitschlândia nacional. Seu nome para os leigos é Wilson Araújo. Mas, para os iniciados, WAS, o poeta que não estava, era, desde sempre no ministério da poesia. Signo é o encontro necessário de uma ânsia de dizer com seu meio material de reprodução/imitação, o significante. Signo é, como o encontro de um próton com um elétron, o átomo da informação. Mas, por que Involuntários? Porque a ânsia de dizer esta condenada a ser. No caso de Wilson, a ser a que chamo de tecnologia de ponta da palavra, a Poesia.

Antes de qualquer comentário formal sobre os poemas, submeto-me, contrariando Cabral (“conversar sobre poesia é conversar sobre forma”) ao comodismo de considerações semânticas, conteudísticas, tão do gosto preguiçoso (ou incompetente?) do que restou da crítica literária no país, fora do âmbito universitário. Não vou dizer grande coisa, mas vou me expor tentando falar sobre o que o livro diz antes da rápida abordagem sobre “como” o diz.

Com suas 360 p., Signos Involuntários é, bibliotecariamente falando, o primeiro “livro” de WAS, um sujeito que daqui a pouco é sexagenário. De súbito, posso dizer que é uma visão, ao mesmo tempo, crítica e lúdica da arte, com simpatia pela ruptura e respeito pela tradição. Na verdade trata-se de um longo e monumental trailer da cultura artística ocidental no último século, ou uma espécie de painel minimalista de variadas tendências estéticas, em tom bem humorado (afinal, nem só a “indignação faz o verso”, como queria Juvenal), onde não poderia faltar a estesia do carnaval: “tropical melancolia/ da janela/ examina a folia”.

Os poucos privilegiados com a aparição episódica da poesia de WAS acostumaram-se com sua vertente satírica que, na verdade, é sua impressão digital, e pouco ou nenhum contato tiveram com a outra face dessa rara moeda, que é a sua vertente lírica, da qual fazem parte os versos citados e outros deste jaez: “um urubu pousou no azul/ a um pássaro da eternidade”, ou “a POESIA não tem paz:/ a VIDA quer ser poema”, ou ainda: “a sombra magra da arte/ assombra/ a casa agra da morte”. Embora seu livro mostre um número considerável de poemas representantes de sua face lírica, a face mais brilhante e exposta ao sol é a satírica, como é um forte exemplo esta “ECOLOGIA SOCIAL: é arrancar o ipsilone/ de Gilberto Freyre/ pela raiz/ e plantar uma árvore/ no local// insone ipsilone/ lonely ícone”. São dezenas de invenções assim, sem fim...

A poesia satírica de WAS está próxima do conselho antigo: “Ridendo castigat mores” (Rindo castiga os costumes), uma sátira amena, alegre, horaciana, distinta daquela “mordaz, azeda”, de Juvenal, segundo classificação didática de Massaud Moisés. Mas essa distinção entre poesia lírica e poesia satírica é baseada num critério antigo, o do conteúdo, e sem qualquer valia hoje, eu o uso para mostrar que no Brasil atual temos WAS e Bruno Tolentino como poetas completos, da natureza de Horácio, o pai da poesia construtivista ocidental: grande na lírica e na sátira.

Em 1870, no entanto, Henrique Carlos Midose, em seu POESIAS SELETAS — Diversos Gêneros de Composições Poéticas (Fábula, Didático, Pastoril, Epigramático, Elegíaco, Lírico, Épico e Dramático) não inclui o satírico. Chama-os de “gêneros”, quando deveria chamá-los de espécies. A modernidade pôs fim a essa numerosa classificação. René Wellek diz: “Na sua maioria, a moderna teoria literária mostra-se inclinada a pôr de parte a distinção entre prosa e poesia e dividir a literatura imaginativa (Dichtung) em ficção (romance, conto, épica), drama (quer em prosa quer em verso) e poesia (centrada no que corresponde à antiga ‘poesia lírica’). Nesta concepção, até João Cabral “malgré lui” (oxente!) é lírico.

Mas, ao que interessa: como se expressa formalmente o poeta WAS? Majoritariamente em versos de 1 a 4 sílabas, com algum peso especial naqueles de 1 e duas sílabas (quando Said Ali diz que “o verso propriamente começa com o trissílabo.”). Os poemas têm a linguagem descontínua que lhes é própria, mas, na verdade, são composições com alto refinamento de prosa fragmentada, ostensivamente discursivas, como uma grande parcela da poesia de descendência concretista que procura distribuir-se geometricamente no espaço.

WAS não se preocupa com o espaço, faz uma poesia de prosa estilhaçada como também o faz Ferreira Gullar, nos seus últimos livros. O interessante é que, quanto mais o faz, mas os equivocados dizem que ele “aboliu a discursividade da poesia”. Ora, quem estiver pensando que essas constatações diminuem, aos meus olhos, os dois poetas, está maquiavelicamente enganado. Quem considera Kafka o maior escritor do mundo pouco está se lixando para autonomia do poema e diferença específica da poesia. Concorda ou não, WAS?

 

Alberto da Cunha Melo é poeta, jornalista e sociólogo.

(Artigo originalmente publicado na revista Continente Multicultural, fev2004, onde o escritor mantém a coluna Marco Zero)