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César
Leal: três análises sobre o livro Carne de Terceira de
Alberto da Cunha Melo. |
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1º artigo
Problemas de
poesia e teoria do poema
César
Leal (DP, Viver, p. D5, 1998)
Para entender a
poesia de Alberto da Cunha Melo é necessário que o leitor conheça um
pouco de teoria do poema — talvez mais da história da poesia — do
que propriamente das fontes que levam os poetas a criar um artefato de
imagens. Naturalmente haverá sempre quem veja uma relação estreita
entre Alberto da Cunha Melo e João Cabral de Melo Neto. O João Cabral
dos assonantados octossílabos. As pessoas que observam essa relação não
são leitores comuns. Têm um conhecimento da literatura acima do nível
vulgar mas não são “leitores perfeitos” — diria o poeta-crítico
J. A. Richards. Falta-lhes o conhecimento dos processos utilizados pelos
poetas ao inventar o poema e, o que é pior, não aprenderam a
considerar as diferenças, esquecidas de que “diferençar” é sinônimo
de crítica.
Há uma diferença
considerável entre a métrica do Romancero Hispânico e a métrica da
maior parte dos poemas de João Cabral de Melo Neto. Na métrica
espanhola, o octossílabo é o que denominamos de “heptassílabo” na
poesia de língua portuguesa. Todo poeta sabe disso e se não sabe devia
saber. Assim,o octossílabo de João Cabral tem como correspondente na
Espanha o eneassílabo (verso de nove sílabas). Calderón foi um poeta
cultíssimo, com um conhecimento muito vasto da poesia de seu País.
Escreveu — e isso se aplica também a João Cabral — em diferentes
metros, inclusive o octossílabo correspondente ao nosso redondilho
maior. Veja-se, por exemplo, a décima de “La vida es suño”,
iguais, no esquema das rimas, às décimas de nossos cantadores
populares. Contudo, João Cabral, em nenhum momento intentou esse tipo
de estrofe, restringindo-se ao quarteto assonantado, que é também a
estrofe utilizada por mim, especialmente nos hexassílabos, de quase
todos os duzentos poemas de O Arranha-Céu. Alberto da Cunha Melo
utiliza o quarteto, mas está tão distante do espírito do verso
espanhol quanto a constelação das “Plêiades” se encontra da
“serpens” ou da “Corona Borealis”. Sua dicção é também
diferente da de João Cabral de Melo Neto. O fato de utilizar estrofe e
metro semelhantes aos usados por um determinado poeta não constitui
influência. Assim, podemos dizer que os elementos sociais da poesia, os
elementos da composição propriamente ditos — metro, rima, assonância,
etc, — são patrimônio de todos os que escrevem poemas, e sua utilização
é apenas uma questão de gosto, do direito de escolha de cada poeta. A
originalidade não está nesse ou naquele metro, na eleição dessa ou
daquela estrofe, pois se metro e estrofes são sociais nenhum poeta pode
ser apontado como o “proprietário” desse ou daquele paradigma.
O que podemos
dizer é que antes de Alberto da Cunha Melo o quarteto octossilábico em
verso branco não é conhecido ou é um fenômeno tão raro quanto o
aparecimento de um verdadeiro poeta. Pois não é difícil fazer verso.
Difícil é “fazer” poesia.Acredito que Alberto da Cunha Melo operou
uma revolução na poesia brasileira do século XX, em relação ao
quarteto octossilábico, tão importante quanto a utilização do decassílabo
branco no século XVIII por Basílio da Gama, ao escrever o Uraguai.
Para dar ao leitor uma idéia do que aqui afirmo, mostrarei as diferenças,
ou algumas diferenças, entre o uso que João Cabral e Alberto da Cunha
Melo fazem de um metro e quarteto que não foram inventados por nenhum
dos dois, já que tais paradigmas existem numa tradição antiga na
Europa e não apenas na Península Ibérica. Vejamos primeiro João
Cabral de Melo Neto.
Um
núcleo de cabra é visível
por
debaixo de muitas coisas.
Com
a natureza da cabra
outras
aprendem muita crosta.
Um
núcelo de cabra é visível
em
certos atributos roucos
que
têm as coisas obrigadas
a
fazer do seu corpo couro.
A
fazer de seu corpo sola,
a
armar-se em couraças, escamas:
como
se dá com certas coisas
e
muitas condições humanas.
Os
jumentos são animais
que
muito aprenderam da cabra.
O
nordestino, convivendo-a,
fez-se
de sua mesma casta.
Agora vejamos o
poema “Plataforma” de Alberto da Cunha Melo:
Algum
amigo, talvez o único,
aconselhará
o combate:
mude
de amigo se não pode
mais,
nunca mais, mudar de vida.
Da
amada nem se fala, tudo
que
ela deseja é para si:
mude
de amada se não pode
mais,
nunca mais, mudar de vida.
A
poesia não é mais feita
de
água, de colírio indulgente:
mude
de verso se não pode
mais,
nunca mais, mudar de vida.
Diante
do nascente alugam-se
espaços
claros e andorinhas:
mude
de casa se não pode
mais,
nunca mais, mudar de vida.
Uma
terça parte dos anjos
já
veste túnicas vermelhas:
mude
de roupa se não pode
mais,
nunca mais, mudar de vida.
O ponto
fundamental a ser analisado é a diferença da composição e não a
semelhança, já que ambos estão utilizando o mesmo esquema métrico e
estrófico legado pela tradição. Sendo João Cabral de Melo Neto o
poeta famoso, muitos admitem a sua influencia sobre o poema de Alberto
da Cunha Melo. Não procuraram verificar a enorme “diferença” que
separa os dois na forma como cada um fala de seu tema. Em João Cabral,
todas as estrofes apresentam os versos 2º e 4º assonantados. Na poesia
— como nos ensinam os mestres — o importante não é o que se diz,
mas o “como se diz”. João Cabral fala das cabras do Nordeste, símbolo
da resistência ao meio áspero, logo comparadas ao jumento e ao próprio
homem. Alberto da Cunha Melo elimina as assonâncias e, numa época de
ditadura — o poema foi escrito no início da década de 70 — apela
para a necessidade de resistir, de mudar de hábitos e acena com a idéia
de que um terço dos habitantes da Terra — terça parte dos anjos —
já veste túnicas vermelhas. Todo este comentário, foi motivado pela
leitura de seu livro mais recente: Carne de terceira, que irei comentar
em outra ocasião. Nesse livro não se pode fugir ao encanto da arte levíssima
de Alberto da Cunha Melo. Poesia lírica de primeira água, um não sei
que de invisível, algo elaborado com rigor, ao mesmo tempo em que
inventa uma nova espécie poética ainda sem batismo. Um novo tipo de
poema em forma fixa, com quatro estrofes e um total de onze linhas, em
todas as sessenta composições que formam o conjunto de versos mais irônicos
e satíricos que li no corrente ano. Mas isso é tema para outro comentário.
O objetivo agora foi apenas afastar o equívoco dos que observam em tudo
o que se escreve influência de Cabral, talvez por ignorância, por
desconhecimento da tradição literária que afinal é maior fonte de
influência em todas literaturas do mundo. Leiam o grande João Cabral
de Melo Neto, mas não esqueçam de ler o Romancero de Menendez y
Pidal, Jorge Guillén, e até o Valéry do Cântico das Colunas.
2º
artigo
Alberto
da Cunha Melo: uma nova forma fixa.
(DP,
Viver, p. D5, 1998)
Em
geral, as pessoas ficam assustadas quando vêem o reverso das “boas
coisas” o que Alberto da Cunha Melo procura nos mostrar em seu mais
recente livro: Carne de Terceira. Inventando uma forma fixa,
Alberto da Cunha Melo ingressa em um fechadíssimo clube de poetas,
entre os quais se sobressaem Giacomo da Lentino, inventor do soneto, e
Arnaut Daniel, criador da sextina. Cito apenas essas duas formas fixas
porque tais formas têm atrás de si autores fundamentais na história
da literatura.
A forma
inventada por Alberto da Cunha Melo tem quatro estrofes: um quarteto,
com rima ou assonância no segundo e quarto verso; um dístico, com rima
ou assonâncias emparelhadas; um terceto rimado ou assonantado no
primeiro e terceiro versos e um dístico final emparelhado, com predomínio
de rimas consonantais. A pontuação é regular, terminando o primeiro
quarteto e primeiro dístico de cada poema com o ponto e vírgula. É
claro que esses sinais podem ser modificados por outros poetas que
venham a usar o seu modelo. O que não pode ser alterado é o esquema
estrófico num total de onze versos. A primeira parte do livro
intitula-se “Um dia”, divide-se em três blocos de quatro poemas,
simbolizando cada bloco uma etapa da marcha do homem dentro desse tempo
que lhe é reservado:— manhã, tarde e noite. — Indica, também, a
brevidade da vida. O primeiro bloco representa a manhã (Manhãzinha)
começa com esse substantivo e termina com o poema cujo primeiro verso
se inicia com o verbo amanhecer e no passado (amanhecido). A essa altura
da vida, o homem já passou pela infância, juventude e chega ao ponto
terminal dessa fase, época em que a pessoa “amanhece, o corpo/ a
sentir-se sobrar-se, e/a colher de si a sua próprio flor”. O terceiro
poema nos mostra a alegria da meia-idade, revelada pela metáfora do
“sol do meio-dia”. Com a “Tardezinha” chega o homem a segunda
idade. O sol entra em declínio e imagens cósmicas de grande beleza
associam-se, num contraste chocante, com a extrema aridez da existência
a que está condenada a maioria das pessoas na Terra. Fazendo uma
permuta ente elementos de natureza física, de longa duração, e os
elementos da natureza humana, ele compõe essa imagem da natureza física,
de longa duração, e os elementos da natureza humana, ele compõe essa
imagem de transcendente beleza: solúvel é a luz/dos seios, o
leite/do sol... , em que a claridade solar é aproximada da experiência
do leitor que não compreendendo que o Sol possa ser comparado a um
grande seio que alimenta com sua luz a vida em seu sistema, entende,
contudo, o que chamamos seios (mamas) e o quanto significa esse termo
para o homem, termo que transporta em si uma carga simbólica de peso
considerável. Nossa galáxia — a Via-Láctea — foi chamada por
Jorge de Lima de “esperma celeste”.
A tais imagens,
sempre seguidas por uma crítica mordaz, ácida, corrosiva a um pequeno
grupo que exclui da estrutura social a maioria das pessoas, Alberto da
Cunha Melo lhes dá uma “visibilidade” de cunho nitidamente
expressionista. O fim da segunda idade é assinalado pela imagem do
homem procurando cobrir a calva com “um gorro cor de abacate”, os pés
metidos no “chinelo com forro” essa imagem do sol no poente, como se
o seu olho cósmico estivesse com uma catarata, semelhante às
“cataratass irmãs” do homem
que já não vê tão bem o que é “essencial”. Cumprindo-se, de
certa forma, o enigma proposto pela Esfinge e decifrado por Édipo,chega
a “Noitezinha”, — segmento equivalente a terceira idade — e cujo
término se pressente pela presença do verbo anoitecer (anoitecido).
Chegando ao fim, o homem abre a última porta do tempo, sonha em fazer a
viagem de retorno. O retorno é a memória. A viagem de Ulisses após a
guerra de Tróia. Os versos de Alberto da Cunha Melo ganham beleza nessa
passagem: “Ainda cobre a amiga/ a carne anoitecida,//anoitecido
examina/a trave da janela/ uma chuva fina/ já começa a cair/ é hora
de dormir”. No simbolismo da poesia de todas as épocas, “dormir”
significa morrer. Há algo de Montaigne nessa primeira parte dos 60
poemas do livro. Num de seus ensaios, escreve Montaigne: “Et si vous
avez vécu um jour, vous avez tout vu. Um
jour est égal à tours jours. Il. n’y a point d’autre luminère,
ni d’autre nuit” (“Se haveis vivido um dia haveis visto tudo. Um
dia é igual a todos os dias. Não há outra noite”).
“Adágios” dá
início a segunda parte da Carne de terceira. Esses provérbios
— que a rigor não os são — funcionam como se fossem mapas das ações
humanas: “Tenha sempre na agenda/ uma excursão futura;/ quanto à
data, é nuvem,/ só não mude a moldura;//levante âncoras, antes/ que
as águas se encantem”. É assim, a língua poética de Ablerto da
Cunha Melo. Para ele, um dos maiores defeitos do poeta é a falta de
humildade. Aprender não humilha ninguém:
Preso
no corredor
polonês
das estantes,
melhor
confessar
nunca
ter lido Dante...
E prossegue:
“quem não se rebusca se acha:/diga ‘não sei’ e receba/ uma aula
de gaça;// seguir sábios não humilha,/ não é humildade, é
guerrilha”. Não se pode ocultar a força presente neste poema obscuro
e aparentemente claro:
Quando
o próprio invisível
torna-se
um critério,
uma
lente maior
devasta
o mistério;
encapuzar
o dia
não
é boa liturgia;
nem
o dogma é gado
que
se pode vender
no
estio prolongado:
nem
se mede com a cruz
o
diâmetro da luz.
Acredito que
nenhum repórter de jornal informou aos seus leitores sobre o horror do
trabalho dos “justiceiros”, como tão grande precisão de linguagem
e tão forte realismo, quanto se pode ler neste poema de “Presságios”:
Perto
da linha férrea,
entre
o regato e o aterro,
tarde
da noite, passa
o
mais secreto enterro;
faróis
baixos, no escuro,
chega
um carro ao monturo;
só
fica o tempo fixo
de
um passageiro frio
ser
jogado no lixo:
quando
chega a alvorada,
ninguém
sabe de nada.
A publicação
desse livro no final de 1996 é um fato literário que merece registro.
Mário Hélio o apontou como “o mais sério, grave e amargo livro
publicado no Brasil neste ano”. Nele foram registrados os emblemas
característicos da violência, do horror, da ausência de um código de
ética que transforme o País em uma sociedade mais humana e, conseqüentemente,
mais justa.
3º artigo
Futebol, poesia e
arte
César Leal
(13 de julho de 1998 – DP, Viver)
O poeta Alberto da Cunha Melo, ao escrever Carne de Terceira,
criou uma “forma fixa”, um poema cujo esquema estrófico encontra-se
rigorosamente submetido a regras de composição que não permitem a
liberdade freqüentemente concedida aos poetas. Tais liberdades são bem
conhecidas. Não precisam ser mencionadas. Quando um poeta domina o seu
ofício, sabe o que é “assonância”, “metáfora”, “símbolo”
e como empregá-los visando alcançar efeitos estéticos. Esses valores
estão presentes em qualquer poema. Sabe, também, o que é forma fixa.
“Sextina”, “soneto”, “rondó”, “gazel” etc. são formas
fixas.
A forma fixa criada por Alberto da Cunha Melo tem sua origem no
nosso esporte nacional: o futebol. A forma fixa se caracteriza pela
regularidade de seu padrão métrico e estrófico, pelo numero de verso
e outros fatores menos relevantes,. Vejamos o soneto, uma das “formas
fixas” Mais popularizadas. Essa espécie foi inventada por um
italiano, Giacomo da Lentino, no fim da Idade Média. Dante aperfeiçoou-a
na Vita Nuova e Petrarca tornou-se o mais forte representante dessa
“forma” e seu divulgador na Europa. O soneto é uma composição de
14 versos, divide-se em quatro partes: dois quartetos e dois tercetos. O
soneto inglês, derivado de Petrarca, tem três quartetos e um dístico
(dois versos emparelhados). A modificação foi feita pelos poetas
ingleses Sidney e Spencer no século XVI.
São poucas as “formas fixas” na poesia. A mais difícil é a
sextina, inventada pelo provençal Arnaut Daniel. Ao publicar seu mais
recente livro, Alberto da Cunha Melo verificando que um time de futebol
é formado por 11 jogadores, criou uma nova forma fixa, a única
inventada até agora em nossa língua o que não deixa de ser uma façanha,
uma vez que se trata de fato cultural mais importante do que sete vitórias
numa copa mundial de futebol. Ele nunca falou nessa descoberta, mas eu a
“descobri” ao analisar os poemas do livro.Embora o esporte não
deixe de ser atividade relevantes na cultura de um povo, não devemos
compará-lo com a força da poesia.
A “forma fixa” criada por Alberto da Cunha Melo tem quatro
estrofes: um quarteto, com rima ou assonância no segundo e quarto
verso. Um dístico com rimas ou assonâncias emparelhadas; um terceto
rimado ou assonantado no primeiro e terceiro versos da estrofe e um dístico
final, ou seja, um emparelhado, com predomínio de rimas consonantais.
É claro que essa disposição pode ser modificada, mas o que não se
pode é alterar a “forma fixa”, baseada nos 11 versos de cada poema.
Os poemas serão bons ou maus, dependendo de quem os escreve, da mesma
forma como ocorre com os times de futebol. No caso de Alberto da Cunha
Melo, que é funcionário da Secretaria de Cultura do Estado, sua
“forma fixa” é eficaz. Exemplo:
Perto
da linha férrea,
entre
o regato e o aterro,,
tarde
da noite passa
o
mais secreto enterro;
faróis
baixos, no escuro,
chega
um carro ao monturo;
só
fica o tempo fixo
de
um passageiro frio
ser
jogado no lixo;
quando
chega a alvorada,
ninguém
sabe de nada.
Um poema como esse se converte em “monumento”, porque é o
testemunho de uma época que a humanidade incorpora à sua recordação,
à sua memória. É uma obra criada pela força da linguagem e será
mais duradoura do que o bronze e a “fábrica imortal das pirâmides”,
diria Horácio.
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