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Geraldino Brasil: uma “Literatura de Acusação?”* Cláudia Cordeiro
Os que acompanharam os trabalhos anteriores de Geraldino Brasil sentirão no longo poema “Todos os dias, todas as horas” (Cadernos da Poesia Pernambucana — vol. 1, Ed. Pirata, 1985) — o acirramento do seu testemunho das injustiças cotidianas, da hipocrisia, da violência e do abandono legado à grande maioria da raça humana. O tom de súplica, quase oração, faz lembrar o seu poema “Pessoas e coisas” (do livro Cidade do Não). Mas há uma grande diferença: o “deus” de “Todos os dias, todas as horas” é um “deus” caluniado e desamparado, não contando mais com a benevolência do seu filho que o carrega de lástima: É muito sofrimento para um Pai e se possível me
fosse ser
absoluto em alguma coisa eu teria uma pena absoluta, infinita da Tua tristeza
e da
Tua solidão, quando Te escondes no Céu para chorar nos Teus
desgraçados
momentos dos teus filhos ofendidos, momentos de todos os dias, de todas as horas,
de todos os
minutos no mundo, porque eu não sei de um em que não Te ofendam,
(...) (grifos nossos) O clima de mútuo desamparo (do poeta e da própria divindade) é utilizado para que possa incursionar, através do espaço lírico da recordação, no registro cáustico do real, um real que ganhará autonomia na obra literária porque, conforme afirmação do próprio autor, “Felizmente o poeta não é a poesia que faz...”. Assume o poema o caráter de denúncia e a força da inquirição que se segue poderia dizer-se unicamente didática se não surgisse tão orgânica do texto literário, impelindo-nos a indagar com o poeta: “por quê?” Registro mais que teu filho doente foi assassinado dentro
do cárcere, que tem o outro lado do duro Código Penal, seu lado
bom,
de o proteger. Pois a honrada sociedade exigiu segurança e armou e
elegeu
autoridades. Como então sob sua proteção eles, também Teus fihos, são
assassinados? (grifos nossos) Este é um dos registros mais singulares do poema, pois o Estado, movido pela sociedade que exigiu segurança, termina por acumpliciar-se com a tirania e o caos violento dessa mesma sociedade que diz proteger. Pondo guizos nos “professores da mentira e da simulação” que, protegidos pelas mais modernas técnicas, promovem o engodo para os mais desavisados, o poeta registra a deterioração dos meios de comunicação e quebra toda a possibilidade de pieguismo: “No momento em que eu mudava de canal de Televisão o jovem repórter/dizia que a autoridade se revelava chocada com o fato acontecido quando ele dormia.” Não escapará também ao crivo do poeta a relação dialética entre o “Pedinte milenar e necessário” e a beata que dele precisa para ganhar os céus. Ou mesmo o sorriso burocrático e eufemístico da enfermeira a querer esconder a morte de um paciente, para que o outro, movido pela revolta da farsa social que dava esperança ao moribundo, não queira “rasgar as bulas/mentirosas que o animavam”, e olhe “desconfiado o crucifixo de soslaio...”. E o poeta se volta sobre seus próprios passos. Até a poesia é vigiada: “Lugares férteis para poemas, um hospital ou um cárcere”. Esse caráter de denúncia das coisas encobertas pela farsa social atravessa todo o longo poema arrastando-nos mais uma vez para as sempre polêmicas questões que envolvem a literatura de acusação, recentemente contemplada com um interessante artigo de Franklin de Oliveira (Caderno Cinza, ano 1, pp. 22 a 30, RioArte, 1984). O crítico tenta — e até certo ponto consegue — elucidar com mais clareza a origem e o conceito dessa categoria artística, segundo ele introduzida no Brasil por Otto Maria Carpeaux. Para ele , essa categoria artística nasceu com o Velho Testamento: quando os profetas contestavam, fundaram a literatura de acusação e, quando preconizavam novos modelos de vida, realizavam a literatura empenhada, ou engajada. Ora, como próprio do lírico, e ao contrário da literatura engajada, a poesia de Geraldino não propõe receitas — propostas políticas, religiosas etc. — para a solução do caos desnudado no texto. No entanto, fica claro que o poeta contesta: “tenho o dever de fazê-los saber/ que não fiquem tranqüilos, que há os que sabem das suas omissões,/ há os que têm vigilância (...)”. É, pois, uma literatura a par daquela que, conforme citação do próprio Franklin de Oliveira, fez Uvarov, ministro da Educação do tzar Nicolau I, dizer que “só quando não houvesse mais literatura, seria capaz de dormir em paz”. Estaria então caracterizada a literatura de acusação na poesia de Geraldino Brasil? Para fazermos tal afirmação seria necessário despojar-nos da afirmação de Franklin de Oliveira de que na literatura de acusação há “tão só e exclusivamente a representação — a transposição da realidade social para o plano da realidade literária,vindo a posição contestatória”. Conseqüentemente, o romance, conforme aponta o crítico, é seu melhor instrumento. Ora, há uma posição contestatória clara na poesia de Geraldino, embora a contestação só se justifique por ela própria, seu caráter de denúncia. O resto é puro desamparo, porque a perquirição que a caracteriza é puro efeito e conseqüência do “estado anímico” do poeta embotado no caos. É voz uníssona com o leitor que a sente emergir orgânica do texto, cheia da indignação que beira à cólera. Portanto, ao efeito de demonstração, que na poesia de Geraldino implica num envolvimento por habitar o espaço da recordação, segue-se clara, contextualizada, esse tipo de posição contestatória que tem o tom de súplica, mas uma divindade golpeada, desamparada que também não o pode socorrer. Desse modo estaria descaracterizada na poesia de Geraldino a literatura de acusação? Atendo-se mais ao romance não caracterizando como a literatura de acusação poderia ocorrer ou não em poéticas que apresentassem com maior freqüência indicadores do lírico (Emil Staiger), Franklin de Oliveira, apesar do brilhantismo de muitas de suas elucidações, não ajuda a resolver a eterna polêmica sobre o teor artístico/didático da poesia engajada. Mas nossa intenção, aqui, é apenas registrar que existem na poesia de Geraldino Brasil matizes mais freqüentes da literatura de acusação que da literatura engajada. Isso procuramos exemplificar com o poema aqui indicado e fragmentariamente citado. No entanto, para nós, o mais importante, agora, é dirigirmos ao poeta a mensagem de Eurípedes: “... quando desesperamos, encontramos uma saída.”
________________________ Cláudia Cordeiro é professora especialista em Literatura Brasileira, ensaísta, webmaster e webdesigner do site Plataforma para Poesia e Trilhas Literárias
*Artigo publicado no Recife: Diario de Pernambuco, Caderno Viver, Panorama Literário, 30 de maio de 1986, data em que Geraldino Brasil (27.02.1926-06.01.1996) lançava seu nono livro de poesia: Bem Súbito (1986). Esse grande poeta brasileiro, mais conhecido na Colômbia que no Brasil, graças, principalmente, à sensibilidade de outro grande poeta, Jaime Jaramillo Escobar, precisa ser redescoberto urgentemente pelos que fazem e lêem nossas Letras. |
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