César Leal e Charles Baudelaire: poesia entre cegos e sonâmbulos

Ermelinda Ferreira

 O céu é para o olho uma taça invertida, o interior de uma bacia de safira, a perfeita beleza da forma e da cor. Diante do céu, o olho não experimenta exatamente a sensação dada pelos objetos sólidos e limitados: sente que está em seu poder, diante do ilimitado, transcender aquilo que vê. Coleridge 



               Num dos poemas de seu livro de estréia Invenções da Noite Menor (1957), César Leal elabora na imagem do sonâmbulo uma concepção do poeta, do artífice da palavra, como alguém que cria no escuro: da noite, do sono, da cegueira. E, no entanto, esse alguém parece perpassado de luz, é um “corpo de luz suspenso pelas cordas do arco-íris” cujas “fluidas mãos erguidas/como chamas ou estrelas/buscam luz, anestesiadas”. Nesses versos de bruma e de sombras, “sonâmbulo” vira um adjetivo que qualifica indistintamente o poeta e o espelho. Sonâmbulos poetas, sonâmbulos espelhos. Olhos que vêem transformam-se em olhos que refletem, desmaterializando o objeto da percepção na fluidez das palavras, assim como “os mistérios do céu/refletidos nas vagas/devolvem ao mar os nimbos/na luz dissolvidos”. 

               Liberto num estado entre o sono e a vigília, o sonâmbulo do poema de César Leal lembra os cegos do poema de Baudelaire: criaturas paradoxais porque incrédulas, ignorantes ou inconformadas com a sua incapacidade de ver. Os cegos adquiriram os trejeitos do sonâmbulo: parecem manequins, vagamente ridículos, deslocando-se na realidade com os passos do sonho, atravessando a noite, que Baudelaire julga “ilimitada, irmã do silêncio infinito”, e que César Leal considera apenas uma “noite menor”. A escuridão dos cegos, porém, é verdadeira, e se parecem lançar as “pupilas tenebrosas” para o céu é por hábito, não por esperança de ver. Tal não acontece com o sonâmbulo, porém, cuja visão é clara na dimensão do imaginário, ainda que se mova como um cego no mundo. 

               Em seu estudo sobre a variedade das interpretações literárias criadas a partir da imagem do céu, Gaston Bachelard propõe a existência de quatro classes de poetas, conforme a predominância das associações feitas entre esta imagem e os elementos fundamentais da água, do fogo, da terra e do ar. Haveria, assim, aqueles que vêem no céu um líquido fluente e animam-se com qualquer nuvem, os que vêem o céu como uma chama imensa, os que o contemplam como uma abóbada pintada e consolidada e, finalmente, os que realmente participam de sua “natureza aérea”. Segundo o autor, uma de suas surpresas, ao estudar os poetas mais diversos, foi constatar como são raras as imagens do céu realmente “aéreas”:

O céu azul é tão simples que acreditamos não poder onirizá-lo sem materializá-lo. Mas, em via de materialização, materializa-se demais. Faz-se o céu azul demasiado duro, demasiado cru, demasiado pungente, demasiado compacto, demasiado ardente, demasiado brilhante. Por vezes o céu azul nos olha demasiado fixamente. Atribui-se a ele demasiada substância, demasiada constância, porque a alma não se converteu à vida da substância primitiva.[1] 


               Embora refira-se ao céu diurno, ou mais especificamente ao azul do céu, o comentário de Bachelard é interessante mesmo para poetas notívagos como os aqui considerados. Isso porque a imagem do céu utilizada como metáfora de uma “doutrina da representação” ocupa-se basicamente da mesma questão por eles trabalhada: a relação entre o visível e o invisível no ato da criação artística.

                Assim, Bachelard afirma que o ser, para tomar consciência de sua faculdade de representação, deve passar por um estado de vidente puro, de devaneio ou admiração, onde o mundo imaginado situa-se antes do mundo real: “O mundo é belo antes de ser verdadeiro. O mundo é admirado antes de ser verificado. Toda primitividade é onirismo puro”. O autor transfere, portanto, para a dimensão do sonho, o lugar primordial da percepção do poeta. Ele não é o que observa a natureza com a lucidez dos olhos abertos, mas o que a observa com os olhos da imaginação. Quanto maior se mantiver, no momento posterior da contemplação - que é o momento da recordação e da elaboração literária das sensações primeiras - o vínculo entre o poeta e o imaginário, tanto mais legítima será a sua participação na natureza aérea, desmaterializada e liberta da poesia.  

                Por isso são tão procedentes as figuras do cego e do sonâmbulo como imagens do poeta. E, não obstante, as imagens do cego e do sonâmbulo não parecem partilhar da mesma natureza, talvez porque a cegueira seja uma condição, enquanto o sonambulismo é apenas um estado. O fato é que um cego não pode acordar. A cegueira não é um sonho, nem um pesadelo. 

                 O andar trôpego do cego deve-se então à perda de uma capacidade e à tentativa de adaptação do sujeito ao mundo circundante, o que não acontece com o sonâmbulo, que só tropeça porque a disposição das coisas no mundo não corresponde à disposição das imagens no sonho aonde se desloca com mestria. O cego sabe que não vê. O sonâmbulo age como se visse. O cego experimenta como ninguém a sensação dos objetos sólidos e a concretude das coisas palpáveis. O sonâmbulo age como se tudo à sua volta fosse etéreo e volátil. A realidade submete o cego, conscientizando-o de suas limitações, do perigo iminente da queda. O sonâmbulo impõe-se, impondo a realidade onírica à realidade empírica, como se fosse possível transformá-la por intermédio de sua intervenção solitária. Para um sonâmbulo, como diz César Leal, “na terra não há curvas nem vulcões nem abismos: - o círculo do horizonte é infinito e cego”. 

               Cotejar a relação entre a imagem dos cegos no poema de Baudelaire e a imagem do sonâmbulo no poema de César Leal pode revelar, segundo os critérios de Bachelard, o quão ligado à terra parece ser o poeta das Flores do Mal e o quão ligado ao ar parece ser o autor de Invenções da Noite Menor. Para o primeiro, olhar o céu é um ato que hesita entre a imploração e o êxtase: cego, o criador busca na memória o que já não pode ver ou na imaginação o que ainda não pode ser visto. Para o segundo, porém, olhar o céu é fixar-se apenas na imaginação, com olhos irreais e virgens, ignorantes do mundo e de si mesmos. Talvez por isso é que Baudelaire indaga ao leitor, ao final do seu texto, "Que procuram no céu todos esses cegos?", enquanto César Leal afirma, embalado por uma canção ao sul da linguagem, dentro do losango absurdo que é a noite do sonâmbulo, não procurar substâncias, posto que “meu engenho nada explica/não responde nem indaga/quem decifra esta mensagem”. Como diz Bachelard, diante de um céu de onde estão banidos os objetos nascerá um sujeito imaginário de onde estão banidas as recordações: 

Extrema solidão em que a matéria se dissolve, se perde. Dúvida que perde sua forma em face de uma matéria duvidosa. Se quiséssemos substituir o método da dúvida - método excessivamente virtual, pouco apto a libertar-nos da representação - por um método de apagamento - método mais efetivo, pois que tem para si o próprio declive do devaneio -, perceberíamos que o devaneio aéreo permite descer ao mínimo do ser imaginante, isto é, ao minimo minimorum do ser pensante.[2]


                Em outras palavras, descer à noite menor, palco onírico de que se serve este poeta da rara imaginação aérea da poesia, para dele extrair, como um sonâmbulo - “entre as sombras e o sono a linguagem do sonho, martelos de fogo explodindo na treva” -; para dele extrair, como um sonâmbulo, as suas invenções. 

 

________________________________________

Referências Bibliográficas



- BACHELARD, Gaston. “O Céu Azul”, in: O Ar e os Sonhos - ensaio sobre a imaginação do movimento. São Paulo, Martins Fontes, 1990.
- BARDI, Pietro Maria (consultor). Pieter Bruegel. Coleção Gênios da Pintura. São Paulo, Abril Cultural, 1967.
- BARTHES, Roland. O Óbvio e o Obtuso. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990.
- BAUDELAIRE, Charles.”Les Aveugles”, in: As Flores do Mal. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985.
- BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire - Um Lírico no Auge do Capitalismo. São Paulo, Brasiliense, 1989.
- CALVINO, Ítalo. “Visibilidade”, in: Seis Propostas para o Próximo Milênio. São Paulo, Companhia das Letras, 1993.
- DERRIDA, Jacques. Mémoires d'Aveugle. L'autoportrait et autres ruines. Paris, Réunion des Musées Nationaux, 1992.
- GOMBRICH, E.H. “’The sky is the limit’: the vault of heaven and pictorial vision”, in: The Image and the Eye. Further studies in the psichology of pictorial representation. Oxford, Phaidon, 1982.
- HAGEN, Rose-Marie e Rainer. Pieter Bruegel, o Velho. Camponeses, loucos e demônios. Lisboa, Taschen, 1995.
- HEFFERNAN, James. Museum of Words. Chicago and London, The University of Chicago Press, 1993.
- HINTIKKA, Jaakko. Knowledge and Belief. An introduction to the logic of the two notions. Cornell University Press, 1962. 
- JAY, Martin. Downcast Eyes. The Denigration of Vision in Twentieth-Century French Thought. Berkeley, Los Angeles, London. The University of California Press, 1993.
- JOACHIM, Sébastien (org.). César Leal: poeta e crítico de poesia. Recife, Universitária, 1994.
- KRAUSS, Rosalind. The Optical Unconscious. London, Cambridge, Massachusets, The Mit Press, 1992.
- LEAL, César. Invenções da Noite Menor. Edição Comemorativa 1957-1997. Recife, Bagaço, 1997.
- LEVIN, D.M.(ed.) Modernity and the Hegemony of Vision. Berkeley, University of California Press, 1993.
- MERLEAU-PONTY. O Visível e o Invisível. São Paulo, Abril Cultural, 1975.
- MITCHELL, W.J.T. Iconology. Image, Text, Ideology. Chicago and London, The University of Chicago Press, 1987.





Les Aveugles

Charles Baudelaire


Contemple-les, mon-âme; ils sont vraiment affreux!
Pareils aux mannequins, vaguement ridicules;
Terribles, singuliers comme les sonnambules;
Dardant on ne sait où leurs globes ténébreux.

Leurs yeux, d'où la divine étincelle est partie,
Comme s'ils regardaient au loin, restent levés
Au ciel; on ne les voit jamais vers les pavés
Pencher rêveusement leur tête appesantie.

Ils traversent ainsi le noir illimité,
Ce frère du silence eternel. O cité!
Pendant qu'autour de nous tu chantes, ris etbeugles,

Éprise du plaisir jusqu'à l'atrocité,
Vois! je me trâine aussi! Mais, plus qu'eux hébété
Je dis: Que cherchent-ils au Ciel, tous ces aveugles?





Os Cegos


Contempla-os, ó minha alma; eles são pavorosos!
Iguais aos manequins, grotescos, singulares,
Sonâmbulos talvez, terríveis se os olhares
Lançando não sei onde os globos tenebrosos.

Suas pupilas, onde ardeu a luz divina,
Como se olhassem à distância, estão fincadas
No céu; e não se vê jamais sobre as calçadas
Se um deles a sonhar sua cabeça inclina.

Cruzam assim o eterno escuro que os invade,
Esse irmão do silêncio infinito. Ó cidade!
Enquanto em torno tu cantas, ris e uivas ao léu!

Nos braços de um prazer que tangencia o espasmo,
Olha! também me arrasto! e, mais do que ele pasmo,
Digo: que buscam estes cegos ver no Céu?



(Tradução de Ivan Junqueira)



O Sonâmbulo (César Leal)


Os mistérios do céu
refletidos nas vagas
devolvem ao mar os nimbos 
na luz dissolvidos,
a noite é um losango,
o sono é vertical,
a morte, a luz de um sonho adormecido.
No seio da linguagem
por um astro
- vesti-lo em brumas
quando despertado,
ter sempre um ar de vivo, 
se dormindo, 
de morto, sempre um ar
quando acordado.
As sombras do ciclone
são árvores oblíquas,
vozes adormecidas
dentro de mim carrego,
na terra não há curvas
nem vulcões nem abismos:
- o círculo do horizonte é infinito e cego.



[1] BACHELARD, 1990.
[2] BACHELARD, 1990.

 

 
Ermelinda Ferreira é Doutora em Letras, professora na UFPE e autora do livro Cabeças compostas: a personagem feminina na narrativa de Osman Lins (2000) e organizadora da antologia Vitral ao Sol: ensaios sobre a obra de Osman Lins, Recife: Editora Universitária da UFPE, 2004 , lançada recentemente nas comemorações dos 80 anos desse escritor pernambucano.

Clique na marca Plataforma para ter acesso à poesia de César Leal,  inclusive o poema comentado neste artigo. Ao acessar o poema, maximize a tela e ligue o som.

www.plataforma.paraapoesia.nom.br