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Ponte
entre sensatez e encantamento
José
Nêumanne
Contigo
emergem a lucidez e o alumbramento. Este é um verso de Neide Archanjo
e, entretanto, aí vai ele, assim mesmo sem aspas, abrindo um texto cuja
pretensão, talvez excessiva, talvez escassa, é abrir um livro na qual
está reunida toda a obra inédita e pregressa, nesta ordem, pois é do
inédito para o primevo que este livro se desdobrará aos olhos do
leitor, de um fazer poético de 40 anos. Não de um fazer poético
qualquer, mas do artesanato paciente e lúdico, profundo e cristalino de
alguém que não escolheu o ofício, mas por ele foi escolhido. A falta
de aspas denota, em primeiro lugar, a inveja. O autor destas linhas
daria um dedo, ou quem sabe um braço inteiro, pelo orgulho de havê-lo
escrito. Pois esta pequena jóia literária resume em começo, meio e
fim não apenas a trajetória de Sor Juana Inês de la Cruz (e se
Octavio Paz, que escreveu sobre essa mestra da poesia em castelhano uma
obra vasta e completa vivo fora, me apoiaria), mas também a da própria
autora. E não faltará o que me apóie ao longo da leitura deste livro
que parecerá volumoso ao leitor, mas jamais pesado, pois ele flutua em
marinhas, evolui no ar com epifanias e será, apesar de todas as suas
quase 600 páginas, um mínimo e indelével oratório de um poeta maior
para um anjo. Sendo Neide arcanjo, ela comunga com Sor Juana o mistério
gozoso da poesia que aos homens – nem sequer a São João da Cruz –
não foi dado revelar: o de que esta arte da síntese suprema, esta
linguagem falada apenas pela alma sem auxílio de língua, tímpano ou
íris, é o pacto supremo do criador com o Criador. Não importa aqui e
agora se Neide, mesmo sendo arcanjo, tenha ou não fé nos anjos que
invoca, como tem, por exemplo, sua colega Adélia Prado. Mas, como esta,
ela sabe muito bem que sua arte de si só tem a letra, ela só pode lhe
ter sido soprada por uma força superior, um espírito celeste capaz de
torná-la uma sacerdotisa profana de um futuro que ainda não foi
construído e uma profeta imperfeita de um código imemorial, intemporal
e ecumênico que atravessa os limites do profano e do sacro com a mesma
desenvoltura com que fala a incréus, gentios, pagãos e devotos de
mares muitas vezes singrados e pontes de suspiros, dor e gozo. Em 40
anos de prática, a poesia de Neide é épica em seu lirismo e lírica
na epopéia de si mesma. Sensata e encantada, ela aparece sob a forma do
canto das sereias que tentavam desviar Ulisses de seu caminho de volta
ao regaço de Penélope e da cera com que o herói tapou os ouvidos para
evitar escutá-lo. Ao debulhar palavras e estrelas, ao prantear o
toureiro abatido às cinco em ponto da tarde pelas aspas do touro
condenado à morte, ao perder um outro olhar no alçapão do espelho, ao
vagar entre girassóis e sombras, esta senhora poeta fala de amor, ainda
que a solidão o mine como mágoa e ele venha a se extinguir como fogo
fátuo entre as pequenas delícias esquecidas que produz. Esta é uma
poeta, ainda que pareça advogada e psicóloga e ainda que pareça
paulista, é apenas e tão somente uma poeta com sua capacidade
inescapável de nos tornar lúcidos pelo alumbramento e de nos encantar,
irremediavelmente, com a magia improvável da sensatez. Este Todas
as horas e antes é, desde sempre, a ponte de chumbo sobre o pélago
do mistério tornando as margens da ação e do sonho um só continente.
É voar e largar, leitor atento!
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José
Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde,
comentarista da Rádio Jovem Pan e do SBT e autor de Solos
do silêncio: poesia reunida; e do romance O Silêncio do Delator
(no prelo).
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