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Uma ilha no espaço
aberta à visitação*
Na semana dedicada à memória do escritor pernambucano Osman Lins, precocemente falecido há 25 anos, e durante a qual assistimos às homenagens promovidas por seus parentes, amigos e admiradores, gostaria de falar do meu incômodo com relação a este rótulo que considero injusto e impróprio, mas que volta e meia aparece vinculado ao seu nome: o do “hermetismo”, como justificativa para o silêncio que ainda cerca uma obra de tamanha estatura, cuja situação de ostracismo no cenário das letras nacionais, hoje, é incompreensível. Só para estabelecer uma comparação, lembremos a obra de Guimarães Rosa, que, embora tão ou mais “hermética” que a de Osman Lins, consegue ser muito mais prestigiada, publicada, lida e comentada. A cultura brasileira não pode prescindir de valorizar devidamente grandes artistas e criadores como Guimarães Rosa e Osman Lins. É preciso que se diga que Osman Lins foi um homem do seu tempo. Produzindo seus principais romances nas décadas de 60 e 70, época da ditadura militar no Brasil, pôs-se ao lado da esquerda política na defesa dos direitos humanos, da liberdade de expressão e da justiça social, questões que aborda explicitamente nos seus textos de intervenção em jornais, revistas e entrevistas, e implicitamente na sua obra ficcional, pela temática social e regionalista, onde a denúncia e a crítica ao sistema político aparecem veladas por uma peculiaríssima interpretação do realismo mágico ou maravilhoso tão em voga na literatura latino-americana da época, e tão utilizado na literatura brasileira com o objetivo de driblar a censura. Osman Lins não viveu para assistir à redemocratização do Brasil. Mas acreditava que, pior do que a censura, a indiferença é o que mata um escritor. E isso existe em qualquer tempo.[1] Embora sofrendo com essa indiferença, e apesar de ser um ardente defensor das causas sociais, Osman Lins não cedeu à tentação de fazer uma literatura imediatista e panfletária, provavelmente porque pensava que a saída para os problemas do país não estava na militância política, mas na educação, na elevação do nível cultural das pessoas, na formação de um público mais consciente, exigente e capaz. E essa capacidade implicava na liberdade de escolher, de decidir, e também de discordar. Talvez a melhor justificativa para a ficção que hoje se costuma chamar de “hermética” possa ser encontrada nas páginas que Osman Lins escreveu como professor e educador. Sua ficção não é “hermética” no sentido de obscura e inacessível; apenas se recusa, por convicção, a fazer concessões fáceis à vulgaridade, à superficialidade, à banalização tão em voga nos dias de hoje. É uma ficção que acredita poder trabalhar para instigar nas pessoas o que elas têm de melhor, aperfeiçoando os seus sentidos, aguçando a sua percepção, treinando a sua curiosidade. Paciência, persistência, pesquisa: são lições que ele se obriga a exercitar no leitor, como explica na “Carta a um escritor desconhecido”, quando diz que: “Realizar uma obra é construir um edifício. Lá está ele. Digam o que disserem, façam o que fizerem, lá está ele, plantado no mundo, com suas portas abertas. Alguns são mais habitáveis e mais procurados do que outros. Isso não significa que os mais habitados sejam os que ofereçam mais e signifiquem mais para os que neles se hospedam.”[2] Esta decisão, porém, parece não ter sido bem compreendida no meio crítico, como ele previa. A constante acusação de “hermetismo”, que faz pensar em Adorno e na sua repulsa pelo prazer do texto que corromperia as massas, não me parece muito apropriada ao caso de Osman Lins, e só contribui para o seu isolamento e para o afastamento do público de sua obra, coisa que ele repudiava. É preciso que se diga que ele queria ser lido, acompanhava muito de perto e com muito interesse a recepção de seus textos e condenava os escritores que abandonavam seus livros à própria sorte. Imaginar que fosse avesso ao prazer, então, é nunca ter lido uma página sua. Muito mais benjaminiano, portanto, Osman Lins é um escritor de esquerda seduzido pela modernidade. Daí as suas incursões pela televisão, por exemplo, que poderiam ter rendido frutos imprevisíveis, se não tivesse morrido tão cedo. Além disso, a curiosa estrutura de seus livros antecipa comportamentos de leitura que só viriam a ser conhecidos décadas depois, com a tecnologia dos computadores. Por outro lado, e ao contrário do que se costuma divulgar, os enredos de seus contos e romances não são difíceis; são, na verdade, de uma surpreendente simplicidade, muitas vezes beirando o lugar-comum. Avalovara[3], por exemplo, seu romance mais conhecido, narra uma clássica história de triângulo amoroso, com marido traído e desfecho fatal, inspirada no popularíssimo Jorge Amado, e apresenta longos trechos eróticos, que não vulgarizam a obra graças aos acentos ornamentais, primorosos e medievalizantes que o singular talento de Osman Lins como artista da palavra imprimem à narrativa. Avalovara
é, provavelmente, um caso único na literatura brasileira, no qual o
enredo encena a palavra. É ela que sobe ao palco, poderosa, e fala, com
a voz embargada, de um mundo estagnado, um mundo que se fossiliza a cada
dia pelo empobrecimento da imaginação, pelo reducionismo da emoção,
pelo minimalismo da visão. É ela que fala, pelo escritor quixotesco,
da inglória luta pelo ideal num mundo cada vez mais corrompido pela
falta de idéias, dessa guerra sem testemunhas que é insistir na beleza
e na profundidade quando a feiúra e a superficialidade estão em moda.
Da solidão do escritor, que se insiste em chamar de “hermetismo”, e
que nada mais é do que a sua resistência no âmago de uma casa que se
esvazia. Esse doloroso isolamento do artista é transformado em metáfora bem-humorada por Osman Lins no roteiro fantástico que escreve para o caso especial da Rede Globo, levado ao ar nos anos 70, A ilha no espaço.[4] Nele, Osman relata a história de um homem que insiste em permanecer morando sozinho no edifício Capibaribe, um arranha-céu em Recife, cujos apartamentos vão-se esvaziando pela morte misteriosa de seus ocupantes e pelo medo dos sobreviventes, até que o próprio homem desaparece, por obra e graça de um ardil que terá um desfecho imprevisível. O conto nos faz pensar no escritor, ironicamente imaginando-se refém das alturas, vivendo o terror de habitar o silêncio de uma construção cujo único sinal de vida é o ruído anacrônico de um elevador subindo até o seu andar e descendo, sem que viv’alma apareça na porta que abre e fecha automaticamente. A angústia de habitar essas alturas despovoadas, a tristeza de ser a única testemunha da beleza que percebe ao abrir as janelas de par em par para o rio lá fora, que desliza serenamente em seu curso, é uma angústia sempre revisitada por Osman Lins, como já se viu na comparação que tece entre a obra e o edifício desabitado, e mesmo na cena principal do romance Avalovara, que se passa na sala de um apartamento no edifício Martinelli em São Paulo, decorada pelo autor de modo a criar a impressão de um “fausto declinante”: há objetos antigos, tapetes, cortinas, lustres de cristal, candelabros, castiçais, poltronas de veludo, livros de pesadas lombadas e ricas encadernações. Essa ilha luxuriante no espaço - uma alegoria possível de sua obra - é cercada de modernidade por todos os lados. As janelas não podem abrir de par em par, como em Recife, porque já não há beleza nem rios lá fora, há apenas prédios construídos e em construção, e ruídos de estacas, britadeiras e serras elétricas. A sonoridade nesta sala também é sugestiva. Toca na vitrola a cantata cênica Carmina Burana, adaptada pelo compositor alemão Carl Orff a antigos cancioneiros medievais, mas cujos elementos não se distanciam da moderna tríade “sexo, drogas e rock’n’roll”: “Com a sua percussão vulcânica, a música de Carmina Burana quase alcança a pulsação de um show de heavy metal. Seu texto lascivo ou bizarro vem embalado em música de acentos medievais com influência do canto gregoriano. Quem não conhece a letra - cantada em latim, francês e alemão antigo - pode achar que se entoam hinos religiosos onde, na realidade, se descreve uma grande orgia”.[5] Nada poderia elucidar melhor a proposta de Avalovara do que a música Carmina Burana, posta, por isso, em primeiro plano no clímax da história. Um livro terrivelmente moderno no contexto de uma obra medievalizante, produto de uma mente talvez mais do que moderna, futurista ou mesmo atemporal, capaz de sintetizar passado e presente numa desenfreada vertigem, exprimindo com clareza o espírito de nosso tempo, para depois volatilizá-lo numa ilha de serenidade, uma ilha que continua a nos falar de esperança, de beleza e de bem-aventurança, uma ilha convidativa, que vale a pena visitar. * Trecho da palestra apresentada no encontro realizado em homenagem a Osman Lins, em memória à passagem dos 25 anos do seu falecimento. Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), Recife, em 06/08/2003. ** Doutora em Letras, professora na UFPE e autora do livro Cabeças compostas: a personagem feminina na narrativa de Osman Lins (2000). [1]
“Pois,
para dizer a verdade, e é principalmente no Brasil que penso, nossa
liberdade é desgastada e anulada pelo silêncio que nos cerca,
pelas exaustivas dificuldades com que nos defrontamos a fim de
realizar dignamente nossa obra. Mais eficaz, em alguns casos, que a
Censura, mais anuladora que a prisão e distanciando-se de seu país
com o peso de um degredo, age em torno do escritor brasileiro,
impedindo o desenvolvimento de suas faculdades, a realização de
seus planos e restringindo ao mínimo a ressonância do que escreve
e publica, uma indiferença que é a nossa morte.” Osman Lins. Guerra sem
testemunhas. São
Paulo: Ática, 1974, p. 190. [2] Osman Lins. “Carta a um escritor desconhecido”, in: Evangelho na taba. Problemas inculturais brasileiros. São Paulo: Summus, 1979, pp. 43-46. [3] Osman Lins. Avalovara. São Paulo: Melhoramentos, 1973. [4]
Osman Lins. “A ilha no espaço”, in: Casos especiais de Osman
Lins. Conteúdo: “A ilha no espaço”, “Marcha fúnebre”
e “Quem era Shirley Temple?”. São Paulo: Summus, 1978; e Osman
Lins. A ilha no espaço. São Paulo: Moderna, 1997. [5] Carmina Burana (Canções de Beuern). Edição bilíngüe, latim-português. Apresentação de Segismundo Spina, tradução, introdução e notas de Maurice van Woensel. São Paulo: Ars Poética, 1994. |