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FESTA PARA
A INTELIGÊNCIA
Ricardo
Vieira Lima
Para T.S. Eliot, o crítico de poesia é
aquele que tem, como objetivo primordial, ajudar o leitor a compreender
e a sentir prazer na leitura do poema. Já S.H. Burton entende que “o
crítico deve primeiro tornar claro ao leitor o assunto de um poema e a
atitude do poeta em face do mesmo; segundo, dar ao leitor, clara e
inequivocamente, a opinião que ele (o crítico) formulou sobre o valor
do tema e sobre o tratamento que lhe dá o poeta.” E Carlos Bousoño
arremata: “Estudar um poeta é comprovar o que este tem de comum com
seus contemporâneos e com a tradição mediata ou imediata, e o que tem
de diferente, de inovador, de inventor.”
Acreditando que estes sejam os três
grandes axiomas que devem ser observados por aqueles que se dedicam ao
estudo da palavra poética, é com alegria que constatamos que Antonio
Carlos Secchin os cumpre rigorosamente, conforme se vê em Escritos
sobre poesia & alguma ficção (EDUERJ, RJ, 2003), reunião de
artigos, ensaios, conferências, trabalhos ficcionais e até mesmo
entrevistas que o autor concedeu a alguns veículos de comunicação.
Dessa eclética miscelânea de textos, sobressai um ponto em comum: um
estilo sóbrio, claro e elegante, associado a comentários e análises
inteligentes, argutos e quase sempre apropriados aos objetos de estudo.
Essas qualidades confirmam Secchin,
atualmente, como o principal crítico militante de poesia do Brasil, e
filiam-no a uma das mais nobres linhagens da nossa crítica: aquela que
se inicia com Sérgio Buarque de Holanda, e prossegue com M. Cavalcanti
Proença, Sérgio Milliet, Franklin de Oliveira e Fausto Cunha. Em
verdade, Antonio Carlos Secchin é, dentre seus pares, o crítico literário
que melhor transita entre o ensaio acadêmico (o autor é professor
titular de literatura brasileira da UFRJ) e a crítica de jornal. De um
lado, o rigor teórico e metodológico. Do outro, o poder de síntese e
a comunicabilidade. Assim, ambas as características estão presentes,
em profusão, nestes Escritos,
os quais constituem – de acordo com o pensamento de Paul Valéry,
citado por Secchin a respeito de Davi Arrigucci Jr. – uma verdadeira
festa para a inteligência.
Desentranhado do subtítulo da coletânea
anterior de ensaios do autor (Poesia
e desordem – escritos sobre poesia & alguma prosa. Editora
Topbooks, RJ, 1996), o título do presente volume foi levemente
adaptado, para indicar, com precisão, o que o livro realmente é: escritos
sobre poesia – logo, no vocábulo escritos
estariam compreendidos artigos, ensaios, conferências, resenhas,
etc. – e alguma ficção
(neste sintagma, uma ambigüidade: há dois textos críticos sobre a ficção
de dois escritores contemporâneos, e dois textos ficcionais do próprio
Secchin). Sobre a ficção do crítico, calcada em dois cânones da
literatura brasileira, Castro Alves e Machado de Assis, o primeiro,
“Memórias póstumas de Castro Alves”, é um espirituoso e, ao mesmo
tempo, instrutivo texto biográfico sobre o “poeta dos escravos”, o
qual, à maneira de um Brás Cubas, começa a contar sua vida pela notícia
de sua morte. O segundo, “Carta ao Seixas”, precedido de um pequeno
mas eficiente histórico sobre o que já se escreveu, no plano do
ensaio, em torno da possível traição ou inocência de Capitu, no
romance Dom Casmurro, é um delicioso e originalíssimo conto, escrito a
partir do mesmo tema, i.e., a culpabilidade ou não da esposa de
Bentinho, e seu desfecho arrebata o leitor. Só por esse texto, Secchin
mereceria ser considerado como uma importante revelação da ficção
brasileira contemporânea dos últimos anos, não fosse a existência de
Movimento, instigante e premiada novela publicada pelo autor nos
idos de 1976, quando então iniciava sua carreira literária.
Quanto à parte ensaística do volume, há
estudos para todos os gostos: da poesia modernista de Drummond, Cecília,
Jorge de Lima e Murilo; passando pelos românticos Casimiro de Abreu e
Álvares de Azevedo, ou analisando contemporâneos como Alphonsus de
Guimaraens Filho, Ferreira Gullar, Ivan Junqueira, Antonio Cicero,
Alexei Bueno e Eucanaã Ferraz, até os novíssimos Fabrício Carpinejar
e Renato Rezende. Ressalte-se que, em todas as análises, Secchin
enuncia um profundo respeito pelos poetas, suas obras e, conseqüentemente,
seus leitores. Logo, seu tom nunca é agressivo, rancoroso ou vingativo
e, mesmo quando não admira o poeta que estuda, posiciona-se com
sutileza, pois jamais abre mão da elegância no que diz. Neste sentido,
percebemos uma certa reserva com relação aos poetas da chamada “geração
mimeógrafo”, o que justificaria, a nosso ver, as rápidas leituras
das produções de Waly Salomão e de Ana Cristina Cesar. O curioso é
que Antonio Carlos Secchin foi um dos poetas participantes da clássica
antologia 26 poetas hoje, organizada e lançada pela professora e ensaísta
Heloisa Buarque de Hollanda, na segunda metade da década de 1970.
Idiossincrasia à parte, ainda hoje o crítico conserva uma das marcas
desse período – o apreço pelo uso dos trocadilhos nos títulos,
assim como no corpo dos textos que produz.
À exceção dos notáveis estudos “Cruz
e Sousa: o desterro do corpo”, “Viagem à beira de Bopp” e “João
Cabral: do fonema ao livro”, e, ao contrário do que ocorrera na
reunião pregressa de ensaios, o melhor de Escritos
sobre poesia & alguma ficção concentra-se, sobretudo, nas análises
panorâmicas empreendidas por Secchin, a exemplo de “Algumas notas
sobre o parnasianismo” e “Simbolismo e modernismo”. Na mesma
linha, “Poesia e gênero literário” é, indiscutivelmente, o
melhor estudo já escrito sobre os jovens poetas brasileiros que se
firmaram na última década. Esses panoramas credenciam plenamente o
autor para que, se quiser, possa vir a escrever a tão necessária e,
até o momento, inexistente história da poesia brasileira, desde as
suas origens até os dias atuais.
A lamentar, apenas, a ausência de um índice
onomástico no final do livro. Em se tratando de uma obra de 300 páginas,
composta de uma variada gama de assuntos e de escritores analisados,
tal providência editorial parece-nos imprescindível. Com relação
às entrevistas que encerram o volume, não obstante haver a referência
ao jornal ou revista que as publicou, foram omitidos os nomes dos
entrevistadores. Sendo a entrevista um trabalho de parceria entre
entrevistado e jornalista, acreditamos ser relevante a divulgação
desses dados. No conjunto da obra, porém, esses pecadilhos são
perfeitamente corrigíveis, para o caso de uma próxima edição, a
qual, tendo em vista a importância destes Escritos,
torna-se praticamente obrigatória.
RICARDO
VIEIRA LIMA é jornalista, crítico literário e poeta.
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