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No reino da repetição O mundo paralelo é este mesmo. Alberto da Cunha Melo
Um dia desses, encontrei por acaso, entre minhas desordenadas notas de leitura, um trecho do livro Roncador, onde o sertanista Willy Aureli narra a expedição da Bandeira Piratininga, que comandou em 1936. Transcreve ele o pranto de uma índia Carajá, na Ilha de Bananal, Estado de Tocantins, que perdera o filho havia dois meses: — Oh! Meu rico filho, alma de minha alma, flor da mata, peixinho do Berokãan, dentinho de capivara, alegria de teu pai, por que não voltas?
Isso é poesia? É. Do mesmo jeito que uma bela mulher nua na praia é uma pintura ou no inverno ouvirmos a “música” da chuva no telhado. São poesia, pintura e música em sentido metafórico. Do mesmo modo que Bach é o matemático da música, Beethoven é o filósofo e Mozart é o poeta, conforme uma leitura de meu pai quando eu era menino. Aquela índia Carajá fez poesia com sua dor, diariamente, durante pelo menos os quinze dias em que Willy Aureli passou na sua aldeia. Fez poesia como o vento faz música, como a nuvem sobre a montanha faz pintura. Poesia, para mim, como construtivista que sempre fui, é uma estrutura verbal específica, variável no tempo e no espaço, coisa que fez o excepcional Tzvetan Todorov perguntar-se: “existiria uma ‘poeticidade’ transcultural e trans-histórica ou então seríamos apenas capazes de encontrar respostas locais, circunscritas no tempo e no espaço?”. Bem, deixo essa pergunta no ar e não vou tentar respondê-la até a morte, mesmo porque já saí da casa dos trinta anos, quando considerava a poesia, essa imensa perda de tempo, uma categoria do absoluto. Essa história comprida que acabo de contar não tem quase nada a ver com o assunto inicialmente imaginado para esta crônica, desculpem a digressão. O que pensara discutir eram as semelhanças dos rituais dos povos ágrafos, arcaicos, com os monumentais espetáculos da música pop nos dias de hoje, até do lixo não reciclável produzido pelas duplas sertanejas ou pelos golpes malandros do brega romântico. Nesses eventos, milhares de jovens fazem movimentos sincrônicos com os braços, já que estão formando uma multidão compacta que os impede, por falta de espaço, de dançarem. Quais seriam as similitudes desses espetáculos com os rituais dos povos primitivos (perdão, arcaicos) em toda a parte do mundo onde tribos e nações inteiras ainda não foram exterminadas pelos civilizados? Numa perspectiva generalista, só um antropólogo cultural da altitude de Melville Herkovits, em seu grande tratado Men and his horks pode nos dar uma pista: “Exatamente, como a poesia existe unicamente como palavras para a música, e a música e as palavras são partes essenciais da dança, tudo isso contribui para dar às representações dramáticas dos povos ágrafos sua atração estética e sua validez artística”. Essas “representações dramáticas” são, na verdade, rituais que funcionam como elementos de integração grupal, pois tratam periodicamente de valores comuns, como religião, guerra, colheita, núpcias e, em algumas sociedades primitivas, de cultos aos mortos, por exemplo. Nos grandes espetáculos pop de nossos dias, a música, a dança e as palavras parecem apenas representar valores hedonistas e se, por trás deles, e dos grandes interesses comerciais que atendem, existe o culto a algum valor, seria o culto puro e simples da juventude, atraída pela temática romântico-amorosa, numa amplitude planetária. Do ponto de vista estrutural, tanto os espetáculos pop quanto os rituais primitivos dos povos ágrafos apresentam um elemento comum, que é a repetição ou o paralelismo, sempre presente na maior parte da poesia ocidental pós-classicismo greco-romano. Ninguém melhor para defini-lo do que Roman Jakobson, ao falar da rima: “é apenas um caso particular, condensado, de um problema mais geral, poderíamos mesmo dizer do problema fundamental da poesia, a saber, o paralelismo”. As repetições sem fim de uma frase besta nos espetáculos pop são, talvez sem o saberem os laboratórios ocidentais da música kitsch, elementos estruturais da poesia dos hebreus, dos árabes e dos egípcios e, vejam bem, no que poderíamos chamar de proto-poesia dos Navajos e Esquimós, como nos lembrou o antropólogo Robert H. Lowie, e entre muitos outros, dos índios brasileiros Kadiwéu, como nos mostrou nosso Darcy Ribeiro. E querem saber mais? Na melhor literatura brasileira temos dois grandes escritores paralelísticos: João Cabral de Melo Neto e Gilberto Freyre. O ser humano parece gostar de repetir-se, na arte e na anti-arte, no bem e no mal. (Artigo originalmente publicado na revista Continente Multicultural, edição de janeiro de 2003) |