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Barros, o caçador do invisível
Alberto da Cunha Melo
A obra de Manoel de Barros vem-se afirmando no país de uma maneira bastante singular. Diferentemente de outros bons poetas contemporâneos que, quando não são lidos apenas pelos outros poetas, têm um público fiel mas limitado a uma parcela do estamento intelectual, Barros vem ampliando, cada vez mais, o espectro de seus leitores e conquistando pessoas de bom-gosto que, no entanto, antes não demonstravam interesse pela poesia. Seu último livro, Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo, que é o 16º de sua bibliografia, dá prosseguimento a uma temática que lhe é recorrente e muito particular. O tema, que é condição necessária mas não suficiente, não só para a poesia mas para qualquer obra de arte, sempre recai nesse autor sobre as coisas normalmente despercebidas, mínimas, microscópicas, ínfimas, como o “cisco”, por exemplo, que merece um dos melhores poemas do livro. Ao fixar-se nas insignificâncias da Terra, nesse microcosmo invisível para os mortais comuns, Manoel de Barros parece estar tentando, como o faz Blake, “to see a world in a grain of sand”, o que seria, não resta dúvida, uma outra forma de definir a sua poética. Mas essa maneira de ver o mundo não implica no mau humor característico da maior parte da poesia brasileira. Como se complementasse a sua definição de poesia, Barros confessa abertamente: “Palavras/ Gosto de brincar com elas/ Tenho preguiça de ser sério.” Mestre na elaboração de imagens inesperadas, ele parece utilizar como técnica de composição a fórmula do humor, ou seja, a ruptura de expectativas. Ao destorcer o modo comum de percepção das coisas, ele procura quase sempre dar predominância ao mundo natural sobre o cultural: “prédio que ficava em frente das pombas”, ou às coisas pequenas sobre as grandes: “Uma rã se achava importante/ Porque o rio passava nas suas margens”. Ainda no plano semântico das significações eleitas por Manoel de Barros, fica explícito neste seu último livro, como de resto na maior parte da sua obra, que a diferença entre o poético e o racional estaria, para ele, como estivera para a retórica clássica, a diferença entre prosa e poesia. Estes dois versos do poema intitulado Infantil confirmam com eloqüência o que digo: “Olha, mãe, eu só queria inventar uma poesia/ Eu não preciso de fazer razão.” Para aquela antiga retórica, “a poesia era a linguagem da paixão e da imaginação viva e animada” e a finalidade do poema era “deleitar e comover”, como se pode ler nos manuais escolares de um José Joaquim Alves Albuquerque (1880) ou de um Jerônimo Thomé da Silva (1883). Tais definições já seriam novas reformulações do “docere cum delectare”, o ensinar deleitando, do velho Horácio. Ensinar o leitor a ver o mundo através de um grão de areia, como propõe a fórmula blaqueana e, ao mesmo tempo deleitá-lo (para Barros, com brincadeiras verbais) eis um projeto elaborado por Horácio no século I e que volta, não se sabe se programática ou inconscientemente, a ser retomado pelo nosso poeta do Pantanal. Mas a opção pelo “cisco” impõe-lhe um risco, do mesmo modo que a irresistível atração que os seus textos vem exercendo sobre um público não intelectual. O de ser futuramente confundido com, por exemplo, o hoje esquecido J.G. de Araújo Jorge, o único best-seller da poesia brasileira. O fato de a qualidade dos seus textos estarem a anos-luz dos escritos por aquele fenômeno editorial não impede, como já está prematuramente acontecendo, que alguns críticos, quase sempre poetas frustrados, fiquem pinçando versos ruins nos seus livros. Esses versos ruins existem na obra de Manuel de Barros e, mesmo, neste Tratado das Grandezas do Ínfimo, mas se fôssemos colocar, uns sobre os outros, os maus versos de Fernando Pessoa, teríamos no fim um alto edifício e terminaríamos não reconhecendo ser ele o maior gênio poético de Portugal depois de Camões. Um outro aspecto do livro agora resenhado, que me chamou atenção, foi o propósito da maioria dos textos de constatar ou acompanhar o quotidiano da natureza, como a pretender revelar a eterna contemporaneidade do mundo natural, porque uma rosa nunca sai de moda. Por falar nisso, recentemente foi publicado pelo Ministère des Affaires Etrangères da França uma antologia sob o título Des Poètes Français Contemporains, com textos de vinte e dois poetas, que dão ênfase no cultural-urbano do presente. Há bons poemas, especialmente um trabalho do consagrado Yves Bonnefoy. Mas o que dizer desse horrível verso de Michel Deguy: “La nature morte du jour et de l’armoire”. À natureza morta do guarda-roupa prefiro mil vezes a natureza viva do Pantanal matogrossense, cantado por Manuel de Barros. Alberto da Cunha Melo é poeta, jornalista e sociólogo.
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