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O professor Lauro de Oliveira, que me ensinou português no Ginásio Pernambucano, sempre saudoso do que chamava a “áurea latinidade”, não dizia, como nós mortais, “cada cabeça é um mundo”, mas “quot capita, tot sensus”, algo como: tantas sejam as cabeças, tantas serão as sentenças. Lembrei-me do velho ditado ao ter, nas mãos, o livro A Caça Virtual, uma coletânea poética de Ivo Barroso. Mas, no caso, pensando em alterar o provérbio: cada poeta são muitos mundos. E, para o poeta em questão, poder-se-ia acrescentar: ou várias maneiras de ver o mesmo mundo.
O estamento intelectual brasileiro, sempre surpreendido com as traduções magistrais de Barroso, descobre agora a existência de um poeta superlativo que a modéstia ou uma cruel autocrítica manteve escondido por tantas décadas. Eu o admirava como tradutor, mas não prestara a devida atenção à sua bibliografia e, quando a li agora, corri para a estante e tirei de lá o romance O Lobo da Estepe, do alemão Hermann Hesse. Esse livro, ao lado de Fome, de Knut Hansun, foram obras emblemáticas do chamado “Grupo de Jaboatão”, de que eu fazia parte. Mas, só agora, que ele está na 26ª edição, dou-me conta de que foi traduzido por Ivo Barroso. Isso talvez porque, ligado à poesia, chamaram-me mais a atenção suas traduções de Rimbaud, Shakespeare e T.S. Eliot, por exemplo.
Bem, como fui promovido, ou despromovido, a resenhista da Continente, devo botar para moer meu frágil engenho e tentar expor algo da complexidade e grandeza de A Caça Virtual. Ao olhar para a poesia brasileira atual, enlutada com a morte de João Cabral de Melo Neto, eu me pergunto por que uma obra de tal porte era uma montanha oculta na bruma, por tanto tempo, enquanto os outeiros resplandeciam ao sol.
Do ponto de vista formal, embora a variedade de estruturas verbais me dê a impressão de que o poeta atravessou várias fases, o volume foi dividido em seis partes, duas delas, as mais longas e que iniciam o livro, me parecem reunir poemas com o mesmo clima intelectual, ou mesma postura cognoscitiva. Poemas da juventude e da maturidade certamente convivem indiferenciáveis no mesmo espaço. Só existe um poema datado, “Os Poetas de Setenta Anos” (16.05.1991) e só uma das partes se uma fase, confessa um período experimental do poeta (aliás, com poucas composições), que é “Poemas da Fase Concretista”. O prefaciador, Eduardo Portela, destaca que a falta de pistas identificadoras de fases cronológicas revela que o poeta evita tudo que pudesse parecer “justificativa inútil ou a tentativa de autodefesa”.
No livro inteiro, por traz do arrojo inventivo e moderno das figuras de linguagem, há o comando, invisível quase, mas sensível sempre, de um espírito clássico. Mas, de repente, ele se explicita na expressividade maior de “Três Sonetes”, um ensaio de forma fixa (ver quadro), numa composição de dez versos decassílabos, divididos em quatro estrofes: um monóstico, um dístico, um terceto e um quarteto. Sobriedade e elegância atravessam todas as páginas, cobrindo as dores surdas, enxugando as lágrimas de pedra deste incurável anti-romântico. Se, como disse Pedro Botelho, “a sensibilidade é a inteligência dos sentidos”, a poesia de Ivo Barroso nos sensibiliza sem nos sentimentalizar, mesmo em composições leves, como “Litania” (“Mãos de camélia,/ Olhos de anêmona./ Sentida Ofélia./ Pobre Desdêmona”) ou “Valsa Triste”.
O livro, mesmo se engajando nas principais aventuras estético-poéticas do Ocidente, no último milênio, não cede aos modismos preocupados somente em “épater le bourgeois”, sendo o curto experimentalismo concretista uma mera curiosidade de percurso. Nele se encontrarão poemas em alexandrinos ortodoxos, respeitando-se a obrigação da sílaba oxítona na cesura, ou da grave, quando paroxítona, com elisão na próxima também grave, e de sonetos decassílabos, com versos sáficos ou heróicos perfeitos. Mas perpassam, pela maior parte do livro, ou versos livres, em poemas que, para meu uso, considero polimétricos.
Sempre senti uma necessidade de classificação dos chamados poemas em “verso livre”. E resolvi, que Deus me ajude, classificá-los em poemas-polimétricos, quando o poeta usando de vários metros, tenta uma cadência, recorrendo a uma espécie de banda métrica, que é, em analogia à banda cambial, uma oscilação controlada entre um mínimo e um máximo de sílabas e em poemas-crônica (Bandeira e Drummond neles pontificaram, e que nada mais são que a “poetry as speech”, de Pound), sempre assimétricos, mas que tentam definir o ritmo que, para mim, é harmonia, e não só na arte poética, entre forma e conteúdo. Isso nos remete à clássica distinção entre poesia e prosa, sendo a primeira o discurso medido (mas correto seria dizer cadenciado) e a segunda o discurso livre. Enfim, o livro de Ivo Barroso é um desafio para a chamada, impropriamente “ciência da literatura”. Mas, não fica só neste desafio um livro que já se incorporou, desde agora, com todos méritos, à história de nossa Literatura.
Alberto da Cunha Melo
é poeta, jornalista e sociólogo.
| Este artigo foi publicado originalmente na revista Continente Multicultural, na coluna do autor, Marco Zero, em março de 2002. |