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2.1 Primeira
Fase: Círculo Cósmico (1966), Oração pelo Poema (1969), Publicação
do Corpo (1974), Poemas Anteriores (1989) |
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Figura 8. Capa
do livro Círculo Cósmico, em preto e branco. Publicado pela
Imprensa Universitária da UFPE, 1966, em separata da revista Estudos
Universitários. Formato: 15 x 22cm, 15 páginas, 20 poemas escritos
entre 1960 e 1965). Figura 9. Capa do livro Oração pelo Poema,
em vermelho, preto e branco. Publicado pela Imprensa Universitária da
UFPE, em 1969, Recife, em separata da revista Estudos Universitários.
Formato: 22 x 15cm, 37 páginas. Poema único dividido em 30 partes,
escrito no verão de 1967. |
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Figura 10. Capa do livro Quíntuplo, em
preto e branco. Publicado pela editora Aquário, em 1974, Recife, onde
está incluso o livro Publicação do Corpo – páginas 13 a
58 – além de outros
quatro livros de diferentes autores. Edição financiada pelo pintor
João Câmara, com encarte de 4 serigrafias. Formato: 25 x 18cm, 200
p. |
Essa primeira fase da poesia de Alberto da Cunha Melo é exemplo claro de quanto a Geração 65 era avessa aos movimentos sulistas do concretismo, da poesia práxis e do poema processo e suas variantes, em voga nas décadas em que foram publicados. A poesia da Geração 65 caracterizava-se, principalmente, pelo zelo com a palavra – entendida como a não adesão à geometrização e à visualização da linguagem – e a adoção de variados metros. No caso do autor em pauta, desde o primeiro livro, Círculo Cósmico (1966), utilizou com maestria o verso octossílabo branco, formando cinco quartetos, salvo raras exceções em que usou quatro quartetos. Com esse rigor formal, o poeta parece ter encontrado a maneira mais pessoal de traduzir suas inquietações metafísicas, especialmente em Oração pelo Poema (1969), um longo metapoema, dividido em trinta partes. César Leal (1988, p. 173) esclarece:
O octossílabo,
por exemplo, agora presente em João Cabral, é marca individualíssima da
poesia de Alberto da Cunha Melo, desde o aparecimento de Círculo Cósmico,
cujo título foi lembrado por mim, em 1966, não apenas a partir do
nome de um dos poemas, mas tendo em conta, especialmente, a sua estrutura
interna. (grifos nossos).
O Quíntuplo (1974), onde está inserido o livro Publicação do Corpo foi a primeira estratégia editorial visando à acessibilidade de um público maior, como anunciava, à época, o Diário de Pernambuco (20 jan. 1974), em matéria não assinada:
| [...] O certo é que os volumes de poemas, sempre de poucas páginas, e com a edição mínima de mil exemplares, encontram uma grande dificuldade de mercado. É, pois, prático, reunir de uma só vez cinco livros de poesia em um só volume e anexar serigrafias soltas e ilustrativas do texto de autoria de um grande pintor. |
O “grande pintor” a que se refere era João Câmara, paraibano radicado em Pernambuco, cuja obra já se tornou internacional. Os outros autores e respectivas obras: Jaci Bezerra, A Onda Construída; José Carlos Targino, Sortilégios; Severino Filgueira, Aposentos do Sonho; e João Landelino Câmara, Um Triste Mundo.
Esses três livros – Círculo Cósmico (1966), Oração pelo Poema (1969) e Publicação do Corpo (1974) ) – serão incluídos em outro, Poemas Anteriores (MELO, 1989), que, como esclarece o título, apesar de editado quinze anos depois de Publicação do Corpo (1974), reúne uma seleção de 78 poemas inéditos dessa fase, onde a reflexão filosófico-metafísica predomina: a lembrança da infância, o cotidiano urbano e outros temas refletem principalmente os anseios de mudança ou a suspensão desoladora de crenças e esperanças, como no poema:
Provisões
A
palavra Deus está fria
como
uma máquina ao relento;
é uma palavra que morreu
sem
lã, na garganta dos pobres
Amarrado
a este tronco velho
e
esperando que ele apodreça,
que
grito agora tu darás
para
aqueles que se aproximam?
Amanhã
não é propriamente
uma
palavra que te salve.
É
um sonho que busca outro sonho
Mais
longínquo, para esganar-te.
É
cedo ainda porque as chamas
da
ventania não chegaram,
é
cedo ainda porque insistes
em
contemplá-las algum dia.
Vozes
isoladas nos campos
murados
não se comunicam;
e
alguém, que de longe de viu,
entre
espinheiros fecha os olhos.
(MELO,
1989, p. 38)

Na “Nota do Autor” esclarece-se: “Esses poemas, de sabor simbolista e universo vocabular paradoxalmente coloquial/quotidiano, foram os que sobreviveram a uma seleção feita do que sobrou de todos os meus textos octossilábicos, em versos brancos, praticados por mais de uma década e suspensos por volta de 1974.” (grifos nossos). O professor, poeta e crítico Nelson Saldanha (1989) acrescentaria: “Surpreendente, mesmo para quem sempre soube do grande poeta que é Alberto da Cunha Melo, eis o que é este livro: pela extensão (insuspeitada pra muitos), pela homogeneidade e pela riqueza que, apesar da homogeneidade, apresenta.”
Quando o próprio autor faz a observação sobre o seu “universo vocabular [...] coloquial”, chama a atenção para uma das características mais sistêmicas de sua poesia, pois a esse coloquialismo da linguagem se alia o rigor formal das estruturas métrica e estrófica, em um corpo simbolista rico em alegorias. No posfácio, o crítico e jornalista Mario Hélio (1989, p. 179) anota:
| Alberto da Cunha Melo é poeta da modernidade, e sendo-o, a sua preferência é pelo coloquial (sem falar na temática agônica), onde vale, mais uma vez, lembrar Eliot que afirmou num ensaio (já de 1942) que ‘toda revolução poética está apta a ser uma volta ao falar comum’. Não é outra a estratégia deste Poemas Anteriores, embora disfarçada sob a aparência aprisionadora do metro. |
Eis, a priori, um perfil da poesia dessa primeira fase da poesia de Alberto da Cunha Melo: rigor formal, coloquialismo da linguagem, universo alegórico denso, freqüência temática da angústia humana, no seu cotidiano urbano invadido constantemente pelo insólito e pelo grotesco, talvez, por isso mesmo tão afinizado com o metro octossílabo – um metro que poucos poetas em língua portuguesa (Cabral, Jorge de Lima e Fernando Pessoa e poucos outros, sem sistematização) ousaram utilizar – o menos cantante e ainda sem rimas (ao estilo dos clássicos), resultando em um lirismo denso, condensado, contido: “Meu desespero submisso/ parte a coleira de repente:/ Dá-me a força de dominá-lo / ainda, pela última vez. (MELO, 1969, p. 159).
Todas as críticas e referências a essa parte da obra são consagradoras, embora aqui tenhamos feito referências breves, por não ser condizente com o objetivo maior deste trabalho uma análise mais profunda. No entanto, constatamos apenas dois registros que ultrapassaram as fronteiras pernambucanas. Um deles é o do crítico Fábio Lucas (1973, p. 48), antes mesmo da edição de Publicação do Corpo (1974), portanto referente apenas aos dois primeiros livros publicados, Círculo Cósmico (1966) e Oração pelo Poema (1969). A análise que faz do momento de uma aparente “crise” da poesia justifica talvez a falta de repercussão no Sul do país, não só da obra de Alberto da Cunha Melo, mas de toda a Geração 65, que tinha contra si, inclusive, o fato de não ter aderido aos movimentos em voga e melhor divulgados naquela região.
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De que crise, então, haveremos de falar? Talvez daquela inspirada num dos sentidos etimológicos da palavra krísis: ‘momento decisivo’. Aí, então, se explica por que os rumos são tantos, as experiências tão variadas e, entre elas, muitas marcadas com o signo da permanência. De Drummond a Wilma Vilela (ou Alberto Cunha Melo, um novo pernambucano de grande força lírica), que amplo teclado, que terreno fecundo, mesmo para os espíritos mais insatisfeitos. Não devemos é confundir a crise do livro, os fatores de atraso cultural e a inapetência para a leitura, proveniente de um grande e passageiro tédio coletivo, com uma suposta crise da poesia. (Grifos nossos) |
Interessante, no entanto, é observar que essa primeira fase de sua poesia resistirá ao tempo e novos críticos a citarão, como se encravada definitivamente nas páginas literárias brasileiras. Exemplo disso é um registro do poeta Bruno Tolentino, que teve grande repercussão devido à grande penetração da revista Veja. Ele cita, em sua longa entrevista, os primeiros versos do poema Lembrança do Amigo José Vilela (MELO, 1989, p. 117): “Quem já ouviu falar de Alberto Cunha Melo, que vive escondido no Recife, e é nosso maior poeta desde João Cabral? São dele estas palavras: ‘Viver, simplesmente viver,/ meu cão faz isso muito bem’.” (TOLENTINO, 1996, p. 8).
Exemplo maior é a seleção feita por Claufe Rodrigues e Alexandra Maia de um dos poemas dessa fase – “Relógio de Ponto” – para a antologia 100 Anos de Poesia – um Panorama da Poesia Brasileira no Século XX, publicada no ano de 2001, pela editora O Verso (RJ).