"A cem quilômetros por hora,/ solto a direção do automóvel,/ para escrever alguma coisa/ mais urgente que minha vida!" Alberto da Cunha Melo , em  Oração pelo Poema

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ALBERTO DA CUNHA MELO   Entrevista Coletiva - continuação...

"Qualquer tema é susceptível de submeter-se ao estilo, à poética de um autor, desde que, para tanto ele tenha competência. Essa tem sido a minha luta, a minha experiência, para o bem ou o mal escrever." (A.C.M.)

 
   

 

Os entrevistadores:

 

 

Alcir Pécora

     

 

Alfredo Bosi

    

 

Anderson Braga Horta

 
      Convenções: links que ilustram a entrevista; clique nas palavras para as quais apontam, a fim de ter acesso a essas páginas especiais.indica quais os entrevistadores da página acessada
Astier Basílio

 

Deonísio da Silva

 

Domingos Alexandre
  Eduardo Martins

 

Ermelinda Ferreira

 

Evandro Affonso Ferreira
  Isabel Moliterno

Ivan Junqueira

 

Ivo Barroso
      José Nêumanne Pinto

 

Mário Hélio

 

Martim Vasques da Cunha
                   

 

 

01

José Nêumanne Pinto O Padre Gerard Manley Hopkins achava que a poesia equivalia à tentação carnal e, por isso, queimava tudo o que produzia. O que escapou do fogo o fez um dos grandes poetas em língua inglesa em todos os tempos. Para você, poesia é pecado ou remissão?
a
Alberto da Cunha Melo Essa pergunta só poderia ter sido feita por um grande poeta erudito como Nêumanne. Pelo pouco que sei, Virgílio e Kafka também quiseram destruir  suas obras, talvez porque não sentissem ter alcançado a perfeição. Renan diria a eles que "a perfeição é o começo da decadência". Para Virgílio, áulico do imperador Augusto, a poesia poderia ser remissão. Para Kafka, modelo do desespero kierkegaardiano ou da angústia metafísica, a literatura talvez representasse uma extensão do pecado original. Eu não pendo nem pra um nem para o outro, nem para o pecador Baudelaire, nem para o "remido" Juan de la Cruz. Poesia, para mim, foi apenas uma grande perda de tempo. Coloco o verbo no pretérito, porque estou tentando me aposentar da poesia — com vários livros inéditos —, aposentar-me deste duro e não remunerado terceiro expediente. 

02

Alcir Pécora

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Em sua poesia, há ostensivamente temas clássicos e temas de comunicação de massa, do cinema à crônica de futebol. Como pensa essa amplitude temática e como a resolve em termos estilísticos?
a
Alberto da Cunha Melo

Eu sou um lírico, poeta do varejo, e não um épico, poeta do atacado. René Wellek parece que resolveu o problema dos gêneros literários, embora tivesse mantido a classificação tríade: Ficção (romance, conto, épica), drama (em prosa ou verso) e poesia ("centrada no que corresponde  à antiga 'poesia lírica'"). Estamos todos, poetas contemporâneos, num mesmo saco, de que Cabral sempre esperneou para sair. Como concordo com os que dizem que o mundo se tornou um imenso shopping-center, eu tenho ido, de loja em loja, desde o meu livro Noticiário, comentando as vitrines. Mas, quando termina perguntando como eu resolvo a amplitude temática em termos estilísticos, você resvala no problema central da poesia, o dualismo forma e conteúdo. Pertencendo à família dos construtivistas e, até certo ponto, aparentado com os formalistas russos, tenho lá meus namoros com o Estruturalismo, mas não largo a história nem a vida que levo, segundo a segundo. Meu clã é, portanto, mais aristotélico que platônico. Quem segue, até mesmo sem saber, as pegadas de Platão, termina por acreditar que a poesia é um ensinar deleitando, ou o "docere cum delectare" de um Horácio que eu, no entanto, paradoxalmente (um dia conseguirei explicar) considero o pai da poesia construtivista do Ocidente. Sou da gang de Aristóteles, para quem a arte é um valor em si, um valor estético, e não um meio, um veículo para a difusão de idéias religiosas, políticas, filosóficas e éticas. Pode acontecer que se transforme num instrumento dessa ordem, mas o que importa é que o artista, como lhe cabe, se ocupou preponderantemente no esforço de encontrar a forma ideal para veicular este ou aquele tema, este ou aquele conteúdo. O que não pode é a obra de arte ser encarada, segundo Afrânio Coutinho, como "um instrumento de outros valores". Para mim, tudo é tema, tudo é conteúdo. Como tive a pretensão de ser uma artista, minha preocupação sempre foi a forma, e um mero calendário de papelão que cai no assoalho é tema demais para qualquer poema. Invertendo a fórmula: é inspirar 10% de conteúdo e expirar 90% de realização formal. Quem é platônico em arte é didático. Por dar predominância a ideais políticos e doutrinários, é que é difícil encontrar um poeta engajado que preste. É didático, quer ensinar, é muito presunçoso. Pode ser uma pedra na cabeça de um banqueiro, mas não é uma pedra a mais na montanha da Poesia. No entanto, respondendo especificamente à sua pergunta: Qualquer tema é susceptível de submeter-se ao estilo, à poética de um autor, desde que, para tanto, ele tenha competência. Essa tem sido a minha luta, a minha experiência, para o bem ou o mal escrever.

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