"Viver, simplesmente viver,/ meu cão faz isso muito bem."   Alberto da Cunha Melo, em Poemas Anteriores

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ALBERTO DA CUNHA MELO   Entrevista Coletiva - continuação...  

 

"É esse anti-poema que o Modernismo liberou, fazendo de cada alfabetizado um candidato a poeta..." (A.C.M)

 

 
   

 

Os entrevistadores:

 

 

Alcir Pécora

     

 

Alfredo Bosi

  

 

Anderson Braga Horta

 
 
      Convenções: links que ilustram a entrevista; clique nas palavras para as quais apontam, a fim de ter acesso a essas páginas especiais.indica quais os entrevistadores da página acessada
Astier Basílio

 

Deonísio da Silva

 

Domingos Alexandre  
  Eduardo Martins

 

Ermelinda Ferreira

 

Evandro Affonso Ferreira  
  Isabel Moliterno

 

Ivan Junqueira

 

Ivo Barroso  
        José Nêumanne Pinto

 

Mário Hélio

 

Martim Vasques da Cunha  
                   

 

 

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Alcir Pécora:

Li algumas comparações de sua obra com a de João Cabral. No entanto, basta passar os olhos pelos seus poemas para perceber que a sua poesia se alimenta de um bocado de humor, que havia escassamente em Cabral. Gostaria que comentasse tanto a variante de humor que lhe interessa quanto a pertinência da referência a Cabral em sua poesia.
Alberto da Cunha Melo:

      A incidência maior de humor em minha poesia procede. No entanto, esse humor-ironia está mais presente em minha fase de verso livre, que durou uns 14 anos. Não dou importância a similitudes semânticas, temáticas, mas às aproximações formais entre a minha poesia e a de Cabral. A Geração de poetas que precedeu a minha, todos com mais de 40 anos, sempre falavam de sua poesia como se tivessem saído do nada. Ora, do nada, nada sai, como nos ensinam os monistas. Jamais ouvi um deles elogiar Cabral, Drummond, Murilo, Bandeira, Cecília, Henriqueta Lisboa, os grandes nomes nacionais de nossa poesia. Os poetas "velhos" do Recife eram oriundos de classe média, enquanto nós, afora uma ou duas exceções, viemos do proletariado. Talvez por isso, fora aquelas exceções, sejamos menos presunçosos, o que não quer dizer melhores poetas. A poesia cabralina eu a descobri num dia da década de sessenta, quando retirei Terceira Feira da Biblioteca da Faculdade de Direito, sim, aquela em que estudou Castro Alves. Impressionou-me, de imediato, a sua imagem concreta, plástica, conseqüente: "a fome e seus batalhões/ de íntimas formigas". Pensando bem, minha poesia surgiu, enquanto teoria, de Ribeiro Couto e, enquanto prática, de João Cabral. 

 

"A poesia cabralina eu a descobri num dia da década de sessenta, quando retirei Terceira Feira da Biblioteca da Faculdade de Direito do Recife, sim, aquela em que estudou Castro Alves."

 Mas não foi algum ensaio de Couto que me deu o caminho, foi um único quarteto ocotossílabo, que me serviu como poética, até hoje: "minha poesia é toda mansa/ não gesticulo, não me exalto,/ meu tormento sem esperança/ tem o pudor de falar alto." A cadência ideal para aquele sussurro, em meu idioma, era mesmo o octossílabo, que Cabral — muito depois li — considerava o mais próximo da prosa. Ora, pouco me lixava para a autonomia, a diferença específica da poesia em relação a outras artes verbais, o que me interessava era dizer, dizer baixo, mais dizer bem. Como tenho a alma de um neo-clássico, não escondo, apregôo e até me orgulho da influência cabralina. No entanto, influência não é pasticho, o pasticho cabralino que se fez e se faz por toda parte, desde a segunda metade do século passado. O que me aproxima de Cabral é a tentativa de alcançar a imagem precisa, de me curar contra a metáfora gratuita por mais original que seja (ser original é apenas um dever de ofício de poeta moderno). E mais: aproximo-me dele por lutar contra o estereotipadamente "poético" por buscar, como ele,

"...Cabral sempre soube o que estava fazendo, ele, que ao lado de seu antípoda Castro Alves, são os dois únicos gênios da poesia brasileira."

a lógica unitária do poema. Aproxima-me o falar comedido para dizer e não o acrobatismo verbal para a admiração instantânea e supérflua. O que me distancia de Cabral: o paralelismo soberano em toda a sua obra. Raramente eu repito versos e palavras, como nos poemas "Plataforma" e "Anáforas". No entanto, Cabral sempre soube o que estava fazendo, ele, que ao lado de seu antípoda Castro Alves, são os dois únicos gênios da poesia brasileira. Se há um elemento universal e especificamente poético, este é o paralelismo. Nesta minha terceira fase, quando resolvi utilizar, pela primeira vez, a rima (consoante e toante), estou diretamente recorrendo ao paralelismo, porque a rima, como diz o mestre Roman Jakobson, "é um caso particular de paralelismo". E este, segundo o grande lingüista, "é o problema fundamental da poesia". Também não utilizo a técnica cubista de Cabral, que circundando o objeto procura dar o máximo de transparência a todos os seus ângulos, como no magistral poema "O ovo da galinha". Eu tento pegar apenas um ângulo dele e desafiá-lo até o seu âmago côsmico, porque procuro "to see a world in a grain of send", como o fez Blake. De um ponto de vista epistemológico, meu método seria indutivo e o de Cabral, dedutivo. Claro que não há nessa classificação nenhum critério de valor. Em relação ao componente necessário, mas não suficiente, o do conteúdo, Cabral, depois de Pedra do Sono, sempre escolheu racionalmente seus temas. Embora ambos sejamos anti-intuitivos, anti-inspirativos, meus temas, ao contrário do que ocorre com ele, sempre acontecem ao acaso. Mas, de um modo geral, ele é mais telúrico, mais talássico, mais natural, enquanto eu sou mais metropolitano, mais cultural. Quando me perguntam qual o meu objetivo poético, eu sempre digo que tento fazer a poesia que gostaria de ler. Mas essa poesia já foi feita por João Cabral de Melo Neto. 

 

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Astier Basílio:

 

Você disse, em entrevista, que começou a escrever octossílabos, para fazer algo diferente do que seu pai fazia. Hoje, com a maturidade estética obtida, por que não experimenta os metros clássicos, como o decassílabo camoniano e formas mais tradicionais, como o soneto?

Alberto da Cunha Melo:

      Meu pai, Benedito Cunha Melo, era uma espécie de decano da cidade de Jaboatão, hoje a segunda cidade pernambucana em arrecadação, depois da capital. O adolescente neurótico, como sempre, quando sabe não poder superar o pai, procura ser diferente dele. Fiz, no início, uns raríssimos sonetos e trovas, as duas espécies de poemas em que o velho se especializou, mas, agradeço aos cupins do tempo os terem devorado para sempre, a não ser dois sonetos e uma trova, em sua homenagem, depois de sua morte. Como, já o disse, quem não pode ser maior deve procurar ser diferente. Antes de minha primeira fase, exaustivamente produzida em cinco quartetos em octossílabo, e pelos motivos que já expliquei, fiz vários poemas, alguns publicados em revistinhas mimeografadas, em versos sempre curtos, e procurando dar a cada um deles uma certa unidade formal, confissão inconsciente de um homem que depois se descobriu um construtivista atávico, um neo-clássico até a medula. Dessa primeira fase, cujo núcleo antológico se encontra no meu livro Poemas Anteriores, concebido editorialmente por Cláudia Cordeiro, minha mulher, e publicado pelas

"O octossílabo dominou minha poesia, em duas fases, na primeira e terceira, talvez porque tinha a cadência prosaica da conversa, do desabafo não retórico, da confidência, enfim."

Edições Bagaço, com apoio da Prefeitura do recife, o teor classicista foi detectado muito tempo depois, quando apareceu na vida de minha poesia Bruno Tolentino: toda aquela poesia estava vazada em versos brancos, isto é, sem rima. As raras análises críticas que o livro mereceu não tocaram em outro indicador clássico: era uma forma fixa. Mas, eu mesmo nunca apregoei isso. O octossílabo dominou minha poesia, em duas fases, na primeira e terceira, talvez porque tinha a cadência prosaica da conversa, do desabafo não retórico, da confidência, enfim. É interessante lembrar que frei Caneca, herói pernambucano, chamava o octossílabo de "octonário, redondilho perfeito, lírico maior". Para Wolfgang Kayser, "ao tetrâmetro iâmbico corresponde o octossílabo nas línguas românicas". Como aquele metro é composto de quatro pés, cada um composto de um sílaba breve e outra longa, característica do iambo, temos em nossas línguas neolatinas (4x2=8), portanto, o correspondente perfeito do octossílabo. Estava há pouco estudando outros metros e outras estruturas, mas a vontade se foi e, com dela, o tempo e a poesia que poderia ser feita e que não mais será.

 

 

05 Deonísio da Silva: A água de sua poesia é das mais límpidas que podemos beber. Você acha que a modernidade não acabou por impor a ditadura do verso livre, ao desprezar o metro e o soneto, levando espíritos sem discernimento a classificar como poesia o que é mera exalação de sentimentos que caberiam em cartas de namorados, mas não em poesia como sempre se entende desde os filósofos pré-socráticos, isto é, vagas de reflexões sobre a condição humana?
Alberto da Cunha Melo

     O poeta paranaense Eno Teodoro Wanke, em suas "Reflexões Marotinhas" disse que "alguns dos versos livres que andam por aí deveriam estar é presos". Brincadeira de lado, na verdade o Modernismo explodiu a porta do templo multimilenar da poesia, permitindo que fosse totalmente devassado por irresponsáveis legiões de vândalos de todas as idades, níveis de escolaridade e classes sociais. Usou-se a liberdade artística para desrespeitar a própria arte. No livro De Poetas e de Poesia, Manuel Bandeira escreveu: "O Modernismo teve isso de catastrófico: trazendo para a nossa língua o verso-livre, deu a todo o mundo a ilusão de que uma série de linhas desiguais é poema". Antes, ele diz que "no verso-livre o poeta tem de criar o seu ritmo". Eu já devorei uma porrada de ensaios e ainda não encontrei quem tivesse estabelecido uma taxionomia do verso-livre, assim como existe uma do metrificado. 

"Sem o chamado "trabalho de arte", na nomenclatura de Cabral, o poema vira um gemido, uma risada, uma flatulência, que pertence ao reino natural e não ao cultural. "

Embora livre, há regularidades rítmicas quando ele é usado pelos verdadeiros poetas. Embora não sendo crítico nem teórico da poesia, tive que improvisar com minha incompetência uma classificação para uso doméstico. Cheguei a identificar três tipos de verso-livre: mediométrico, crônica e salmódico. No mediométrico, os versos têm variedade métrica, mas oscilam de um mínimo a um máximo de sílabas, como no controle de uma moeda, dentro de uma chamada banda cambial, em poesia chamaríamos de banda métrica, o que estabelece certo isomorfismo na mancha gráfica. O poema-crônica é a descrição/narração discursiva de um clima emocional, como o "Evocação do Recife", de Bandeira. O salmódico é geralmente de versos longos, como os versículos bíblicos, com o uso freqüente das anáforas, como na poesia de Whitman e Augusto Schmidt, por exemplo. Alguns analistas (Domício Proença Filho) acha que os primeiro brotos do versolibrismo na modernidade poética ocidental surgiram com Arthur Rimbaud, em 1886. Eu sempre fui mais verlaineano que rimbaudiano e, por isso, sou mais clássico, mais "quadrado". Depois de minha longa primeira fase de octossílabo branco, o brasil fechado pelos militares, por mais de uma década, danei-me a escrever em verso-livre e até cheguei a escrever dois longos poemas, "Capoeira das Juremas" e "Dual". Quanto ao primeiro, um ex-amigo escreveu um texto, inteligente chamando a atenção para a grande incidência de octossílabo. Aos poucos liberei-me daquele metro e escrevi dois livros, Noticiário e Poemas à Mão Livre em técnica medi'ométrica. São poemas curtos, de versos curtos, que não mantêm uma grande distância métrica de um verso para o outro. Aos poucos, tentei, com minha maluquice fazer poemas que desafiassem o fôlego do leitor, com pontuação mas sem ponto final. Depois, cansei, e voltei ao octossílabo, mas não o branco, o mais moderno (medievalista) rimado. Depois de dois livros, já estou com fastio, gostaria de mudar... Sobre o meu verso-livre, sempre mantive uma liberdade vigiada, ou uma liberdade condicional, como observou o poeta Mário Hélio, em um dos seus eruditos textos. Sem o chamado "trabalho de arte", na nomenclatura de Cabral, o poema vira um gemido, uma risada, uma flatulência, que pertence ao reino natural e não ao cultural. É esse anti-poema que o Modernismo liberou, fazendo de cada alfabetizado um candidato a poeta... Quanto ao primeiro tipo, eu o chamava de polimétrico mas, como medo dos chatos que "cherchent la mouche", substitui-o pelo mediométrico, porque diriam que polimétricos são todos os poemas em verso-livre. O mediométrico, segundo minha taxionomia doméstica, seria a curva média entre o menor e o maior verso, tentativa, pois, de um mínimo de cadência. Besteira, talvez.

                   

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