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ALBERTO DA CUNHA MELO Entrevista Coletiva - continuação... |
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Alcir Pécora |
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Alfredo Bosi |
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Anderson Braga Horta |
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Astier Basílio |
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Deonísio da Silva |
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Domingos Alexandre | |||||||
| Eduardo Martins |
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Ermelinda Ferreira |
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Evandro Affonso Ferreira | ||||||||
| Isabel Moliterno |
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Ivan Junqueira |
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Ivo Barroso | ||||||||
| José Nêumanne Pinto |
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Mário Hélio |
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Martim Vasques da Cunha | ||||||||
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09 |
Evandro Affonso Ferreira |
Amigo querido Guilherme Restom disse outro dia que a palavra perdeu a palavra; está descascando; você concorda? | ||
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| Alberto da Cunha Melo |
Se " perder a palavra" significa perder expressividade, e não perder vez no chamado mundo da imagem, creio que isto sempre foi um fenômeno do kitcsh, em toda a história da escrita, que teria começado há 6 mil anos, enquanto o alfabeto é mais bebê, fez sua estréia há, mais ou menos, 3500 anos. O que eu poderia chamar de mimese degradada, ou de segundo grau, sempre esteve presente na aventura da palavra escrita, o que talvez seja "a palavra se descascando" de seu amigo, a imitação fajuta da arte verbal em seu falso esplendor kitsch. Esse fenômeno é mais intenso no mundo massificado de nosso tempo, dos poetas bronzeados de Ipanema aos de Boa Viagem, das adolescentes em garatujas nos seus cadernos escolares a todos aqueles que se beneficiam, hoje, do "liberou geral" de um verso livre, cuja única regra é não chegar a frase ao fim da página, ou seja, fazer algo parecido com um rol de roupa. Mas, se seu amigo ao falar que a palavra está se descascando procura dizer que ela está perdida no mundo digital, onde a imagem é soberana, é preciso notar que, apenas como legenda de fotos ou fotogramas, é necessária, embora não seja suficiente, porque este se tornou um universo de comunicação que tem como público uma enorme multidão de retardados culturais. Aí, como guia de imbecis, ela pode ser descascada como uma cebola até seu núcleo: o vazio. Mas, invisível a esse mundo, em catacumbas como os antigos cristãos, nunca deixará de existir uma legião de poetas-alquimistas para quem a poesia é a sintonia fina da linguagem, que não descasca, porque folheada pelo ouro-sol da eternidade. |
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10 |
Isabel Moliterno : |
Conte-nos como sua obra dialoga com os poetas clássicos (quando me refiro a clássicos, penso em Roma e Grécia antigas). Em que medida eles o influenciam? Você considera sua poesia como uma continuidade da Tradição? |
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| Alberto da Cunha Melo |
Porque não acredito em tradução, que em minha arte sempre é mais a poesia do tradutor do que a do traduzido, e não leio em latim e em grego (você me força a confessar uma ignorância, que nunca deve ser confessada gratuitamente) sempre visitei como turista (superficialmente) a poesia greco-romana, desde que o vírus poético me contaminou na mocidade. Mas, de repente, sou surpreendido pelas Odes de Horácio, traduzidas pelo padre português, doido de pedra, mas de talento excepcional, José Manoel de Macedo. Como não pude julgar a tradução, procurei ler a obra do padre para ver se se parecia com ela. Não, as Odes eram extraordinárias, sua grandeza não vinha do tradutor, mas de Horácio, certamente, e em português nada setecentista (o século do padre), fugindo dos hipérbatos, uma surpresa. Tomei como propósito conseguir uma outra edição dela aqui no Brasil, pel'A Girafa, por exemplo. Estou com a tradução inglesa (bilíngüe) onde os poemas que o padre não traduziu, por puritanismo, estão lá, á procura de um bom tradutor brasileiro. Horácio, sim, pelo padre Macedo, mexeu comigo, Isabel, influenciou-me, reforçou em mim o que eu vinha fazendo, porque, no fundo, só amamos e procuramos o que se nos assemelha em espírito. Não tem nada a ver com o horaciano "docere cum delectare" (ensinar com deleite), e não vejo cumprido esse conselho em suas odes. Quanto à pergunta final, sim, minha poesia é uma continuidade da tradição, não é uma ruptura, embora muito me tenha aproveitado de algumas vanguardas responsáveis. Mas, o que, na verdade, consideramos classicismo, toda essa métrica rimada ocidental, ela é, na verdade uma ruptura do classicismo greco-romano, que não utilizava a rima, uma introdução do medievo. A poesia não rimada é mais continuidade clássica que o classicismo inaugurado pela Renascença. Nesse perspectiva multissecular, sou agora, rimando, mais ruptura que continuidade, não é interessante? Só fui realmente continuidade em minha primeira fase, a dos octossílabos brancos, ou os "tetrâmetros iâmbicos", segundo Kayser. |
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| 11 | Isabel Moliterno | Para o Alberto leitor de poesia: quando é que um poema é bom? e para o escritor Alberto: quando é que o poema está pronto? | ||
| Alberto da Cunha Melo |
O gosto do fruidor é, para mim, o único juízo sincero da obra de arte. Em arte eu considero bom aquilo que eu gostaria de fazer. Julgo bom, portanto, o poema que gostaria de ter escrito. Toda a minha luta literária reduz-se à tentativa de escrever a poesia que eu gostaria de ler. Daí... Quanto à outra pergunta, o poema, na verdade, nunca está pronto para mim. Talvez por isso só tenho um poema de cinco versos da minha autoria decorado. E tenho horror de reler meus livros publicados, com medo de encontrar falhas. Trabalho cada poema até a exaustão. Quando já perdi a paciência de mexer nele, coloco-o de lado, para ser retomado no dia em que for convocado para um livro. Aí ele vai com os outros para um retiro, alguma pousada de pobre, e será submetido, com os outros coitados, às cirurgias sem anestésico e às execuções sumárias. |
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| 12 | Isabel Moliterno | Como leitora, percebo que, do primeiro ao último, seus poemas vão ficando mais sintéticos, as imagens mais compactas. Será esta apenas uma impressão ou de fato houve uma mudança no seu modo de criação? Fale um pouco sobre como a obra e o poeta Alberto da Cunha Melo foram se transformando ao longo dos anos, desde sua primeira publicação, em 1966. | ||
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| Alberto da Cunha Melo | Eu nunca planejei minha obra dentro da lógica cartesiana de João Cabral. Por isso, a sintetização e a simplificação de meus textos, como tudo que escrevi até agora tem a ver com necessidades psicológicas que meu consciente ainda não conseguiu apreender totalmente, porque acredito que "a Arte é sempre assunto da personalidade inteira" (como disse Franz Kafka). Sinto-me num mundo onde a pressa e a mudança substituíram a prudência e a estabilidade. Estamos no mundo do consumo imediato, do valor imediato e transitório. A falta de tempo dos possíveis leitores de poesia talvez tenha me influenciado a criar uma espécie de forma fixa, que é a retranca, próxima do hai-kai, do telegrama de antigamente, antes da enxúndia verbal dos e-mails. Minha primeira fase, a dos cinco quartetos octossílabos brancos, tinha vinte versos, o que correspondia a seis versos mais que o soneto. Depois de minha fase de versos livres, onde predominam curtíssimos poemas de versos curtos, talvez a fase atual seja uma continuidade da sintetização, da simplificação, mas sem descurar o esforço de buscar a "intensificação da realidade", conforme Ernst Cassirer, que vê as outras linguagens não artísticas e as linguagens científicas como "abreviações". Embora nunca tenha aderido aos modismos literários, depois de mais de uma década trabalhando um formato, tento pular para outro, porque estou saturado. Não sei onde isso vai parar, depois desta terceira fase..., acho que jamais haverá a quarta. |