
| 5 | ||||||||||||
![]() |
ALBERTO DA CUNHA MELO Entrevista Coletiva - continuação... |
|
||||||||||
|
|
|
Alcir Pécora |
|
Alfredo Bosi |
|
Anderson Braga Horta |
||||||
|
Astier Basílio |
|
Deonísio da Silva |
|
Domingos Alexandre | |||||||
| Eduardo Martins |
|
Ermelinda Ferreira |
|
Evandro Affonso Ferreira | ||||||||
| Isabel Moliterno |
|
Ivan Junqueira |
|
Ivo Barroso | ||||||||
| José Nêumanne Pinto |
|
Mário Hélio |
|
Martim Vasques da Cunha | ||||||||
|
13 |
Alcir Pécora | Quais seus modelos ou referências literárias mais recorrentes, brasileiros ou não? | |||
| Alberto da Cunha Melo |
Um quarteto de Ribeiro Couto, Cabral, Paul Verlaine, Rilke, Horácio (em tradução de José Agostinho Macedo) e leituras intermitentes de diversos poetas de variadas tendências, ao longo de quase cinqüenta anos de leitor contumaz. No entanto, conteudisticamente, minha poesia foi influenciada, para valer, pelo filósofo brasileiro Huberto Rhoden e pelo ficcionista tcheco Franz Kafka. Você fala em "modelos e referências", ainda bem que não diz "influências", algo mais complexo e motivo de muitas análises equivocadas. Mas, na verdade, modelos e influências são a superfície visível e, às vezes, até de importância menor dentro de uma perspectiva da filosofia da arte. O segredo da obra de arte está na vida do artista, embora o estruturalismo e o new criticism queiram anular a biografia dos estudos literários. Os velhos e grandes autores liam com muita atenção os ensaios biográficos de Plutarco sobre os homens célebres. Eu só posso confessar leituras episódicas de Heródoto, que estabeleceu no século IX a.C. a existência de Homero. Meu pai era louco por biografias e eu terminei lendo-as depois dele. |
||||
|
14 |
Alcir Pécora : |
Curiosidade besta: o senhor se interessa especialmente por algum poeta contemporâneo de São Paulo? E, em outra direção: que poetas de seu Estado me indicaria imediatamente para ler? | |||
| Alberto da Cunha Melo |
Infelizmente, há treze anos, minha leitura quotidiana, por questões de sobrevivência, tem sido economia, política, história e problemas urbanos, por exemplo, para a minha anônima atuação de free-lancer do jornalismo pernambucano, embora seja um jornalista profissional, mas que não encontra emprego na magistral imprensa de meu Estado. Não conheço, portanto, a nova poesia que se faz no meu país, mas não acredito nos maledicentes que sussurram que está em baixa. Isso não é verdade, pois em 2002 tivemos em São Paulo o lançamento do preciso Horizonte de Esgrimas, de Mário Chamie, e, no Rio, dois livros realmente definitivos: O Mundo como Idéia, de Bruno Tolentino, e Ivan Junqueira, numa Seleção de Ricardo Thomé. Falo nesses três livros, porque me foram enviados pelos autores. À pergunta geminada sobre nomes de poetas pernambucanos (pelo tom, os vivos) que eu lhe indicaria para leitura, posso lembrar um fato corriqueiro, o dos homicídios nas favelas. Ninguém viu nem ouviu nada e, por isso, nada tem a dizer à polícia. Quando um repórter pergunta, em particular, a um morador, por que, tendo visto tudo, nada disse à polícia, ele responde que os tiras vão embora e ele tem que continuar ali. Pois é, Pécora, eu não tenho para onde ir... Entendeu? A literatura, em meu Estado, é um tiroteio. Há sempre o risco de se dançar com as balas perdidas. Mas, pensando bem, na verdade esse clima perigoso de surda competição afeta tanto um Severino de Pernambuco quanto um Penteado paulista ou quatrocentão. Apesar disso, resolvo arriscar-me e dizer-lhe os poetas vivos de meu Estado que afinam com o meu gosto pessoal; aconselhando-o a ler o quanto antes a poesia metafísico-jesuítica de Ângelo Monteiro, os poemas líricos, telúricos e confessionais de Jaci Bezerra, os textos de imagética rara e universalizante de José Carlos Targino, a explosão mítico-visceral de Lucila Nogueira e as palavras de cristal burilado do poeta Marco Polo. Cabe, no entanto, dizer-lhe, Pécora, que em meu Estado se esbarra numa penca de poetas (como dizia meu pai) em cada esquina, mas uma poderosa tradição poética faz dele, juntamente com Minas Gerais, os dois celeiros mais dadivosos da poesia nacional. Os cinco poetas que lhe recomendei são os que mais de perto mexem com minha sensibilidade estética, mas, como todo gosto pessoal, ele não deixa de ser arbitrário e, por isso, não pode ser um critério de valorização objetiva e histórica de indiscutível excelência. Minha geração tem umas duas dezenas de poetas com uma altíssima média de qualidade, desde o olímpico e já consagrado Marcus Accioly, ao poeta lúmpen, louco e livre, Severino Filgueira. Outros nomes e até endereços, se possível, poderei repassar-lhe por e-mail. As obras da maioria de nós raramente ultrapassa as fronteiras regionais, o que vai lhe dificultar o contato com elas. Poemas de uma parte de autores daqui podem ser acessados através do site criado por Cláudia Cordeiro: Plataforma para a Poesia < www.plataforma.paraapoesia.nom.br > . Mas você pode contar comigo no esforço de satisfazer sua curiosidade sobre os atuais poetas pernambucanos, pois gostaria de apoiar o seu contato direto com eles. |
||||
|
|||||
| 15 | Alcir Pécora | Só conheci bem recentemente a sua obra, certamente por ignorância minha, mas acrescida e agravada pela falta de circulação de suas edições em São Paulo. Gostaria, pois, de conhecer um pouco mais de sua bibliografia: quais os seus livros que considera mais relevantes, onde e quando foram editados, e quais podem ser encontrados em circulação? | |||
| Alberto da Cunha Melo |
Meu amigo, eu publiquei, até agora, quinze livros, todos com
edições de tiragem mínima, na faixa dos 150 a 1000 exemplares,
edições, pois, simplesmente paroquiais. Exceto o Soma dos Sumos
(1983), publicado pela José Olympio em convênio com o governo do
Estado, e com uma distribuição de exemplares pelo sudeste, o restante
só tiveram mesmo alguns
exemplares expostos e vendidos na livraria Livro 7, aqui em Recife, hoje extinta. A
província continua sendo cercada pelo que chamo num poema de
"horizonte de guilhotinas", escrevemos aqui, distribuímos os
poucos exemplares do que publicamos, por aqui, e morremos aqui, esquecidos
pelo resto do
Brasil. Agora é que um livro meu, Dois Caminhos e uma Oração
(2003) foi
publicado pela editora paulista |
||||