"Tudo que levamos a sério/ torna-se amargo. Assim os jogos,/ a poesia, todos os pássaros,/ mais do que tudo: todo o amor." Alberto da Cunha Melo, em Publicação do Corpo

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ALBERTO DA CUNHA MELO   Entrevista Coletiva - continuação...  

 

"O segredo da obra de arte está na vida do artista, embora o estruturalismo e o new criticism queiram anular a biografia dos estudos literários. Os velhos e grandes autores liam com muita atenção os ensaios biográficos de Plutarco sobre os homens célebres."

 

 
   

 

Os entrevistadores:

 

 

Alcir Pécora

     

 

Alfredo Bosi

  

 

Anderson Braga Horta

 
 
      Convenções: links que ilustram a entrevista; clique nas palavras para as quais apontam, a fim de ter acesso a essas páginas especiais.indica quais os entrevistadores da página acessada
  Astier Basílio

 

Deonísio da Silva

 

Domingos Alexandre  
  Eduardo Martins

 

Ermelinda Ferreira

 

Evandro Affonso Ferreira  
  Isabel Moliterno

 

Ivan Junqueira

 

Ivo Barroso  
        José Nêumanne Pinto

 

Mário Hélio

 

Martim Vasques da Cunha  
                   

 

 

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Alcir Pécora Quais seus modelos ou referências literárias mais recorrentes, brasileiros ou não?
Alberto da Cunha Melo

Um quarteto de Ribeiro Couto, Cabral, Paul Verlaine, Rilke, Horácio (em tradução de José Agostinho Macedo) e leituras intermitentes de diversos poetas de variadas tendências, ao longo de quase cinqüenta anos de leitor contumaz. No entanto, conteudisticamente, minha poesia foi influenciada, para valer, pelo filósofo brasileiro Huberto Rhoden e pelo ficcionista tcheco Franz Kafka. Você fala em "modelos e referências", ainda bem  que não diz "influências", algo mais complexo e motivo de muitas análises equivocadas. Mas, na verdade, modelos e influências são a superfície visível e, às vezes, até de importância menor dentro de uma perspectiva da filosofia da arte. O segredo da obra de arte está na vida do artista, embora o estruturalismo e o new criticism queiram anular a biografia dos estudos literários. Os velhos e grandes autores liam com muita atenção os ensaios biográficos de Plutarco sobre os homens célebres. Eu só posso confessar leituras episódicas de Heródoto, que estabeleceu no século IX a.C. a existência de Homero. Meu pai era louco por biografias e eu terminei lendo-as depois dele.

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Alcir Pécora

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Curiosidade besta: o senhor se interessa especialmente por algum poeta contemporâneo de São Paulo? E, em outra direção: que poetas de seu Estado me indicaria imediatamente para ler?
Alberto da Cunha Melo

Infelizmente, há treze anos, minha leitura quotidiana, por questões de sobrevivência, tem sido economia, política, história e problemas urbanos, por exemplo, para a minha anônima atuação de free-lancer do jornalismo pernambucano, embora seja um jornalista profissional, mas que não encontra emprego na magistral imprensa de meu Estado. Não conheço, portanto, a nova poesia que se faz no meu país, mas não acredito nos maledicentes que sussurram que está em baixa. Isso não é verdade, pois em 2002 tivemos em São Paulo o lançamento do preciso Horizonte de Esgrimas, de Mário Chamie, e, no Rio, dois livros realmente definitivos: O Mundo como Idéia, de Bruno Tolentino, e Ivan Junqueira, numa Seleção de Ricardo Thomé. Falo nesses três livros, porque me foram enviados pelos autores. À pergunta geminada sobre nomes de poetas pernambucanos (pelo tom, os vivos) que eu lhe indicaria para leitura, posso lembrar um fato corriqueiro, o dos homicídios nas favelas. Ninguém viu nem ouviu nada e, por isso, nada tem a dizer à polícia. Quando um repórter pergunta, em particular, a um morador, por que, tendo visto tudo, nada disse à polícia, ele responde que os tiras vão embora e ele tem que continuar ali. Pois é, Pécora, eu não tenho para onde ir... Entendeu? A literatura, em meu Estado, é um tiroteio. Há sempre o risco de se dançar com as balas perdidas. Mas, pensando bem, na verdade esse clima perigoso de surda competição afeta tanto um Severino de Pernambuco quanto um Penteado paulista ou quatrocentão. Apesar disso, resolvo arriscar-me e dizer-lhe os poetas vivos de meu Estado que afinam com o meu gosto pessoal; aconselhando-o a ler o quanto antes a poesia metafísico-jesuítica de Ângelo Monteiro, os poemas líricos, telúricos e confessionais de Jaci Bezerra, os textos de imagética rara e universalizante de José Carlos Targino, a explosão mítico-visceral de Lucila Nogueira e as palavras de cristal burilado do poeta Marco Polo. Cabe, no entanto, dizer-lhe, Pécora, que em meu Estado se esbarra numa penca de poetas (como dizia meu pai) em cada esquina, mas uma poderosa tradição poética faz dele, juntamente com Minas Gerais, os dois celeiros mais dadivosos da poesia nacional. Os cinco poetas que lhe recomendei são os que mais de perto mexem com minha sensibilidade estética, mas, como todo gosto pessoal, ele não deixa de ser arbitrário e, por isso, não pode ser um critério de valorização objetiva e histórica de indiscutível excelência. Minha geração tem umas duas dezenas de poetas com uma altíssima média de qualidade, desde o olímpico e já consagrado Marcus Accioly, ao poeta lúmpen, louco e livre, Severino Filgueira. Outros nomes e até endereços, se possível, poderei repassar-lhe por e-mail. As obras da maioria de nós raramente ultrapassa as fronteiras regionais, o que vai lhe dificultar o contato com elas. Poemas de uma parte de autores daqui podem ser acessados através do site criado por Cláudia Cordeiro: Plataforma para a Poesia  < www.plataforma.paraapoesia.nom.br  > . Mas você pode contar comigo no esforço de satisfazer sua curiosidade sobre os atuais poetas pernambucanos, pois gostaria de apoiar o seu contato direto com eles.

"A província continua sendo cercada pelo que chamo num poema de 'horizonte de guilhotinas', escrevemos aqui, distribuímos os poucos exemplares do que publicamos, por aqui,  e morremos aqui, esquecidos pelo resto do Brasil."

15 Alcir Pécora Só conheci bem recentemente a sua obra, certamente por ignorância minha, mas acrescida e agravada pela falta de circulação de suas edições em São Paulo. Gostaria, pois, de conhecer um pouco mais de sua bibliografia: quais os seus livros que considera mais relevantes, onde e quando foram editados, e quais podem ser encontrados em circulação?
Alberto da Cunha Melo Meu amigo, eu publiquei, até agora, quinze livros, todos com edições de tiragem mínima, na faixa dos 150 a 1000 exemplares, edições, pois, simplesmente paroquiais. Exceto o Soma dos Sumos (1983), publicado pela José Olympio em convênio com o governo do Estado, e com uma distribuição de exemplares pelo sudeste, o restante só tiveram mesmo alguns exemplares expostos e vendidos na livraria Livro 7, aqui em Recife, hoje extinta. A província continua sendo cercada pelo que chamo num poema de "horizonte de guilhotinas", escrevemos aqui, distribuímos os poucos exemplares do que publicamos, por aqui, e morremos aqui, esquecidos pelo  resto do Brasil. Agora é que um livro meu, Dois Caminhos e uma Oração (2003) foi publicado pela editora paulista A Girafa [leia entrevista com Pedro Paulo de Sena Madureira, o editor, nestas Trilhas] uma importante editora de São Paulo, mas a edição está praticamente se esgotando.Talvez  você encontre exemplares nas livrarias Cultura e Saraiva, aí em São Paulo. Na Cultura, parece que foi até bem vendido, vírgula, isso em termos de livro de poesia. Quanto aos outros, eu tenho, como relíquia, um exemplar de cada um. Livros "raros" que só têm a primeira e única edição. [Há também a possibilidade de comprá-lo via Internet, como está sendo anunciado nesta entrevista].

                   

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