"Para o corpo de Berenice/ ou o coração de Wall Street,/ para o último templo/ ou a primeira dose de tóxico,/ para dentro de si/ ou para todos, para sempre/ todos emigram."  Alberto da Cunha Melo, em Noticiário

       

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ALBERTO DA CUNHA MELO   Entrevista Coletiva - continuação...

"...acredito que quanto mais o capitalismo vai substituindo os valores metafísicos do sagrado pelos valores kitsch do mercado, mais a poesia se torna a linguagem das novas catacumbas.."

 
   

 

Os entrevistadores:

 

 

 

Alcir Pécora

     

 

Alfredo Bosi

  

 

Anderson Braga Horta

 
      Convenções: links que ilustram a entrevista; clique nas palavras para as quais apontam, a fim de ter acesso a essas páginas especiais.indica quais os entrevistadores da página acessada
Astier Basílio

 

Deonísio da Silva

 

Domingos Alexandre
  Eduardo Martins

 

Ermelinda Ferreira

 

Evandro Affonso Ferreira
  Isabel Moliterno

Ivan Junqueira

 

Ivo Barroso
      José Nêumanne Pinto

 

Mário Hélio

Martim Vasques da Cunha
                   

 

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Alfredo Bosi Como nasceu no seu espírito a figura complexa e original de Yacala?
16a a Você se reconhece filiado a uma linhagem poética nordestina que remonta a Augusto dos Anjos e chega até João Cabral?
Alberto da Cunha Melo Um puro acaso. O poema foi concebido em terceira pessoa, mas sem qualquer caracterização do personagem. Nas minhas leituras desordenadas esbarrei com um ensaio de Sylvio Romero que, numa nota de pé de página, listava uma série de palavras de um dialeto africano e uma delas me chamou a atenção pela sua beleza e claridade: Yacala, que significava homem, marido etc. Imediatamente levei-a para o poema, como nome do personagem e com uma primeira caracterização fundamental: era de cor negra. Daí pra formar o trio de personagens negras, foi um passo. O nome Bai foi tirado de um dono de palhoça que vendia almoços e bebidas, na praia de Maria Farinha, em Pernambuco. A personagem Adriana veio do nome e da longilineidade da sua filha jovem. Acredito que a figura de Yacala tem tudo a ver com minha luta pela sobrevivência e, ao mesmo tempo, pela realização poética. A estrela cosmofágica que Yacala caça no firmamento, uma estrela que não orienta, porque perdeu a órbita e vai devorando através das galáxias todos os corpos celestes que encontra pela frente, enquanto vai crescendo como se voltasse à imensidade anterior do Big Bang, é, quem sabe, o câncer ou o tempo avançando sobre as células do corpo, ou seria tudo uma espécie de metáfora da globalização? Creia, Bosi, pensei nessas coisas todas, doidas, mas no início o que me movia, mesmo, era a nova estrutura formal que a pulso chamei de retranca, porque fui convencido a dar-lhe um nome, e talvez eu tenha encontrado um tipo de tijolo ideal para encaixar nas ferragens. Quanto à segunda pergunta, sim, porque tanto Augusto dos Anjos quanto João Cabral são poetas de índole construtivista e que destilam uma amarga visão da realidade que os circunda. No entanto, Cabral, pela riqueza de lições, me tocou muito mais. A tragicidade que você identificou em Yacala, claro, tem reflexo das leituras do Eu.

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Martim Vasques da Cunha 

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Yacala é um poema dramático que fala sobre a aceitação da finitude do ser humano. Como foi compor com elementos tão díspares — o questionamento metafísico, a caracterização sucinta dos personagens e a violência surpreendente do final — para formar um todo indissociável? 
Alberto da Cunha Melo

Agradou-me você chamar aquele poema de dramático. Na verdade, essa dimensão da obra alia-se a uma característica ímpar da literatura ocidental, segundo Earl Miner, em sua Poética Comparada, a de ser a única poética do mundo originária do drama e não do gênero lírico, como as demais. No entanto, acredito que ele seja uma fusão dos três gêneros, do lírico, do narrativo e do dramático, talvez porque tenha sido escrito como um roteiro  cinematográfico. Antes de escrevê-lo, eu planejava compor um poema que contrariasse Carlos Drummond de Andrade em "Canção Amiga", quando diz: "eu preparo uma canção/ que faça acordar os homens/ e adormecer as crianças". Terminei com um personagem que vai batendo todos os recordes de vigília conhecida, tomando café sem parar, para advertir a humanidade sobre o imperialismo de uma estrela que queria absorver todos os corpos celestes. Seu tempo é curto, sua vida extremamente finita (tem câncer), não pode dormir ou morrer antes de atingir a sua meta de provar a existência dessa ameaça universal. A dimensão metafísica que você vê na minha poesia talvez se deva à visão da grandeza cósmica, nas menores coisas. O livro, para responder ao final de sua pergunta, levou-me dois anos e pouco de trabalho diário, de escrever, riscar, rasgar, reescrever...

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"A dimensão metafísica que você vê na minha poesia talvez se deva à visão da grandeza cósmica, nas menores coisas.

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18 Martim Vasques da Cunha No poema "Casa Vazia", o senhor fala sobre como a poesia — ou melhor, o fazer a poesia — tornou-se algo "... cada vez mais/ para um mundo cada vez menos". Será que a falência espiritual do mundo se deve ao fato dos homens não escutarem mais a poesia como a linguagem do Sagrado?
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Alberto da Cunha Melo Há quase unanimidade entre os historiadores sobre o fato de que os mais antigos textos poéticos são os encontrados nos hipogeus ou sarcófagos, no Egito, há cinco mil anos a.C.. São textos sagrados de elogio aos mortos. A própria escrita teria sido inventada para registrar a contabilidade dos templos. Quanto às comunidades primitivas, ou arcaicas, ou "ágrafas", a sua linguagem poética, segundo Carlos Nelson Coutinho, é, antes de tudo, a linguagem 'elevada' das manifestações cívico-religiosas. Nestas, o que se poderia considerar "poesia" era o canto, que acompanhava os instrumentos musicais, e a dança, e que são chamados, em seu conjunto, por Melville Herskovits, de "representações dramáticas". Os livros sapienciais da Bíblia são compostos com a técnica paralelística dos hebreus. A poesia, pois, sempre esteve, em seus primórdios, ligada ao sagrado. No Ocidente, depois, principalmente do Renascimento, ela se foi laicizando, se foi secularizando, até os dias de hoje, quando atinge o seu triunfo o materialismo capitalista. No oriente, onde o budismo e o islamismo são fortíssimos, não tenho informações se a poesia que lá se faz é um instrumento do sagrado. O que me contaram é que, no islâmico Irã, antiga Pérsia, os túmulos dos grandes poetas são objeto de romarias. Tentando responder a sua pergunta com outra: será que nos países islâmicos e budistas a poesia é considerada uma "linguagem do sagrado"? O único livro de poética comparada que tive em mãos foi o de Earl Miner e ele não responde a essa pergunta. Quanto ao Brasil, se a poesia sempre foi uma linguagem para iniciados, isso se agravou com o texto incongruente e cada vez mais hermético da poesia simbolista e pós-simbolista. E acredito que quanto mais o capitalismo vai substituindo os valores metafísicos do sagrado pelos valores kitsch do mercado, mais a poesia se torna a linguagem das novas catacumbas. Nunca procurei saber como a poesia, para resistir (Alfredo Bosi), era tratada pelas populações dos países sob o regime socialista. Mas me lembro de ter lido numa revista especializada, na década de 70, que o novo livro de poemas lançado por Adriéi Vozniessiênki, em Moscou, sob o título clássico de Calcanhar de Aquiles tinha atraído uma gigantesca fila de leitores, que davam voltas nos quarteirões. Isso nunca aconteceu aqui com algum livro de Drummond, Cabral ou Cecília Meireles, por exemplo. Seria o misticismo enrustido dos russos que os levou até Vozniessiênki? Desculpe, Martim, terminar respondendo com uma pergunta. No entanto, desde a longínqua década de 70, venho sempre lembrando a observação de um poeta e crítico norte-americano, Northoph Fry, segundo o qual um poeta pode ficar famoso de um dia para o outro, pela maneira como matou sua mulher, e não por um grande poema que acabou de publicar.
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