O essencial é assustadíssima/ e soberba ave, como um galo:/ só duas maõs, dentro da treva,/ sem ruído, podem pegá-lo;" Alberto da Cunha Melo, em Meditação sob os Lajedos

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ALBERTO DA CUNHA MELO   Entrevista Coletiva - continuação...

"No Brasil, foi justamente durante a ditadura militar (1964-1984), que o estudo universitário das chamadas Humanidades, como Letras, que neste mundo tecnológico são consideradas inúteis, foram perseguidas e questionadas, na medida em que seus professores e alunos mais destacados pretenderam viver o que aprendiam. "

 
   

 

Os entrevistadores:

 

 

 

Alcir Pécora

     

 

Alfredo Bosi

  

 

Anderson Braga Horta

 
      Convenções: links que ilustram a entrevista; clique nas palavras para as quais apontam, a fim de ter acesso a essas páginas especiais.indica quais os entrevistadores da página acessada
Astier Basílio

 

Deonísio da Silva

 

Domingos Alexandre
Eduardo Martins

 

Ermelinda Ferreira

 

Evandro Affonso Ferreira
  Isabel Moliterno

Ivan Junqueira

 

Ivo Barroso
      José Nêumanne Pinto

 

Mário Hélio

 

Martim Vasques da Cunha
                   

 

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Anderson Braga Horta Desde algumas décadas, vimos abolindo o ensino de humanidades em nome de uma suposta objetividade. Tende a zero a preparação para o ensino da cidadania, a arte em geral e a poesia. Que tem o Poeta a dizer sobre as possíveis conseqüências dessa falta?
a
Alberto da Cunha Melo No Brasil, justamente durante a ditadura militar (1964-1984), os estudos universitários das disciplinas chamadas Humanidades, como Letras, História, Sociologia e outras, que neste mundo tecnológico são consideradas inúteis, foram perseguidos e questionados em sua importância, com puniões para seus professores e estudantes mais destacados, na medida em que tentaram ser coerentes com as verdades que vivivam. O que diz o grande austríaco naturalizado brasileiro, Otto Maria Carpeaux? "Estes regimes não se ocupam, absolutamente, com as ciências 'práticas', a física e a química, que continuam bem tranqüilas, mas com as ciências totalmente inúteis, a história e a filosofia, os estudos literários, que se tornam justamente os favoritos dos regimes totalitários, que os abraçam e sufocam". Mais adiante, diz o mestre, no seu livro A Cinza do Purgatório: "As velhas universidades são de utilidade muito reduzida: elas não fornecem homens práticos; formam o tipo ideal de nação, o 'lettrée', o 'gentleman', o 'gebildeter'." É preciso não esquecer que a universidade atual, em nosso Brasil neoliberal depois da ditadura, está submetida ao que o escritor Abdias Moura chama de "ideologia do desenvolvimento". Ferida seriamente pela política, durante a ditadura, ela agora é submetida pela economia, nesta Nova República. Quanto aos verdadeiros poetas, eles pouco estão se lixando para a degradação do humanismo nas universidades, nem para as entradas dos Pitangys e Macieis nas academias de letras.Tudo isso é apenas tema, matéria-prima para a máquina orgânica do poema. É triste mas, às vezes, a arte brutaliza o homem, tira o seu poder de indignação. Quando não é a arte é o sofrimento ininterrupto. Durante o regime militar eu estava fazendo o curso de Ciências Sociais na UFPE, e tive vários colegas meus presos e torturados. O pessoal de química, física, matemática e medicina assistiam a tudo isso de camarote. Essa lembrança é mais do que um tema específico. Ficou incorporada à minha visão trágica do mundo.

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Eduardo Martins  Alberto, como você vê hoje a falta de espaço para a publicação de resenhas em nossa imprensa?
a
Alberto da Cunha Melo

Não tive acesso a nenhum levantamento nacional sobre o número de jornais que eliminaram, certamente aconselhados por burros departamentos de marketing, os seus suplementos literários (às vezes uma única página semanal). Mas testemunho que os grandes jornais brasileiros (Jornal do Brasil, Folha e Estado de São Paulo e O Globo) continuam a manter cadernos literários, como o Le Monde e o The New York Times, que têm como exemplo. No meu Estado, com uma bela tradição literária e um suplemento literário que fez história no tempo de Mauro Mota, e depois com o descobridor de talentos, César Leal, e que foi extinto no decano dos jornais brasileiros, o Diário de Pernambuco, não tardou a ser seguido por outro jornal, com tradição de divulgar as rupturas de tradições, o Jornal do Commercio. Na lógica míope dos que conduzem os destinos desses velhos jornais, se o setor comercial aconselha corte de custos, seus "geniais" diretores dirigem suas tesouras cegas para as páginas literárias. Não sei quantos jornais de província cometeram a mesma burrice, porque faltam estatísticas para isso. Mas, não pense que estou exaltando incondicionalmente os grandes jornais do Sudeste: suas resenhas são dirigidas pelas grandes editoras e recaem sempre, como era de se esperar, na produção ficcional ou não ficcional de venda garantida.  Nós escritores de província, principalmente os poetas, temos sempre olhos desconfiados para esse namoro seguro entre grandes editoras e os grandes jornais. Eu sou de um tempo em que os dois grandes jornais de Pernambuco não só davam espaço para as resenhas dos livros de ficção e de ensaio, mas, também, para aqueles de poesia. Esses suplementos que, no silêncio dos arquivos, depõem contra a insensibilidade dos donos e diretores de jornais de hoje também publicavam poemas, vejam só! publicavam poemas! Isso os cadernos literários do Sudeste não fazem, a não ser em situações excepcionais. Será que a inteligência mercantilista deles chegou a descobrir que a poesia é a antimercadoria, o antimarketing, ou que a poesia é, também, algo que não pode ser verificado pelos gráficos de venda de anúncios e exemplares, ou seja, a sintonia fina da linguagem? Quando vocês surgiram, na década de oitenta, os grileiros urbanos já começavam a roubar da literatura os poucos espaços que ainda lhe restavam. Quando ela vira notícia nos cadernos de serviço, é numa disputa desigual com os conjuntos de rock e os pratos grandes dos restaurantes. Em quantos Estados essa realidade é hoje constatada, não se sabe dizer. Uma pesquisa desse tipo pode interessar à Universidade e não ao sindicato dos donos de jornal.

"Concordo com Roland Barthes quando diz que não existe criador e, sim, combinador. Um bom escritor seria, então, uma espécie de químico da língua."

21 Eduardo Martins Como poeta que apoiou e incentivou o Movimento de Escritores Independentes, de Pernambuco, por meio da página Commercio Cultural, o que viu de importante nesse movimento e o que falta hoje para que o Recife volte a viver a efervescência cultural daquela época? Tenho ouvido críticas em relação aos novos poetas do Recife e algumas questionando a qualidade do trabalho realizado pelos novos escritores. Isto também ocorreu quando surgimos nos anos oitenta com o Movimento. Como você vê este comportamento que não consegue perceber o valor sociológico de cada texto produzido que reafirma a arte como fenômeno da necessidade humana de expressão?
Alberto da Cunha Melo A sua geração é epígona da "Geração Mimeógrafo" da década de 70, no Sudeste, enquanto esta, também chamada de "marginal", era epígona da Geração Beat (décadas de 50/60) dos EUA. Quando chamo um escritor de epígono, esse atributo não tem para mim nada de pejorativo. Eu mesmo chamo a minha Geração 65 de epígona da Geração 45, que procurou revalorizar a métrica e a rima. Gerações ou poetas epígonos são o que Pound chama de "diluidores", o que, para mim, também não significa um termo negativo, mas perpetuador de valores estéticos anteriores. Arte não é só invenção e originalidade, é, também, antes de tudo, recriação, transformação, e, por isso, não me dói a pecha de epígono, de diluidor. Concordo com Roland Barthes quando diz que não existe criador e, sim, combinador. Um bom escritor seria, então, uma espécie de químico da língua. Não sou religioso mas, aqui ao meu lado, Cláudia Cordeiro diria que o único e verdadeiro criador é Deus. Se fizermos uma linha quádrupla de comunicação, poderíamos alinhar Allen Ginsberg, Jack Kerouac, William Burroughs, e Gregory Corso (nos EUA), Cacaso, Chacal, Wally Salomão e Ana Cristina César (no Sudeste) e Eduardo Martins, Francisco Espinhara, Cida Pedrosa e Fátima Ferreira, aqui em Pernambuco, na década de 80, como primeiras lideranças da primeira fase do Movimento Independente, todos vocês tiveram em comum uma escrita mais de atitude, sempre contracultural, do que propriamente literária. Seu desleixo formal poderia, ao mesmo tempo, ser fruto de ignorância ou postura diante de gerações antecessoras e, principalmente, no Brasil, diante das vanguardas formais, como o Concretismo e o Poema Praxis. Quando você pergunta o que acho do Movimento Independente, diria que ele tem colinas e baixios, mas ambos compõem a harmonia do relevo. Não sei se estou certo, mas notei que vários componentes da primeira fase, de que você faz parte, evoluíram da irresponsabilidade formal para o que Cabral chama de "trabalho de arte", que distingue um verdadeiro texto poético de um desabafo sentimental, seja amoroso, seja em relação à cultura neo-liberal dominante.Vocês, que eram potencialmente poetas, deixaram de o serem em potência, para o serem em realização. Agora é escrever cada vez mais e esforçar-se em ser o melhor possível. Sua geração, como a minha, Eduardo, tem nomes que valem pelo que não são (não são panfletários, sentimentais etc.) e não pelo que são. Chegarão lá? Esta fase do Movimento Independente, que tem nomes fortes também, como o do estranho Erickson Luna, não me parece tão unida e aguerrida quanto a primeira, principalmente na ousadia dos recitais relâmpagos, em frente dos bares, em toda parte. É possível que ela tenha características próprias que ainda não percebi, porque não me detive a analisá-la. Mas a cada geração sua quota de mudança e de agonia. A minha já deu o que tinha de dar. Interessante é eu responder uma pergunta sobre geração, quando até hoje não consegui encontrar pra ela uma definição que me satisfizesse... e sempre detestei esse termo.
a

                   

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