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| ALBERTO DA CUNHA MELO Entrevista Coletiva - continuação... |
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Alcir Pécora |
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Alfredo Bosi |
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Anderson Braga Horta |
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Astier Basílio |
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Deonísio da Silva |
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Domingos Alexandre | |||||||
| Eduardo Martins |
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Ermelinda Ferreira |
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Evandro Affonso Ferreira | ||||||||
| Isabel Moliterno |
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Ivan Junqueira |
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Ivo Barroso | ||||||||
| José Nêumanne Pinto |
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Mário Hélio |
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Martim Vasques da Cunha | ||||||||
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Ivo Barroso | Alberto, os poetas e críticos, que conhecem sua obra no Rio e em São Paulo, consideram-no um dos maiores poetas brasileiros da atualidade. Caso você vivesse no Rio ou em São Paulo, em contato mais direto com a mídia, esse reconhecimento seria generalizado. Você tem alguma nostalgia de viver no Nordeste ou acha que é precisamente por viver aí que sua poesia tem um cunho mais personalizado? | |||
| Alberto da Cunha Melo | Um poeta de sua altitude, quando faz uma pergunta dessas, certamente já sabe o que eu vou responder. Sim, apesar de a internet tornar cada um de nós o centro do universo, isto não invalida o poder do que os sociólogos chamam de relações primárias. O cara a cara, o olho no olho, tem a força que a nossa onipresença virtual não tem. O contato direto influi, sim, nas possibilidades de que um autor do esquecido ou incompreendido Nordeste seja melhor publicado e melhor divulgado no rico Sudeste. Lá estão instaladas as grandes editoras, como também as sedes das grandes redes de TV e as redações dos grandes jornais e revistas brasileiras. No entanto, o Sudeste está cheio de "severinos arrependidos" , como os chama Bruno Tolentino, que não chegam a canto nenhum e, não raro, um deles está voltando com o matulão da fama vazio, assim como partiu. Eu nunca quis morar no Rio, em São Paulo e, mesmo, no um tanto nordestino Minas Gerais. Quando peguei meu pau de arara parti para o extremo Norte, o Acre, onde não me senti bem e de onde voltei para a minha terra dois anos depois. Não tenho nostalgia de viver o Nordeste, mas no Brasil, um país que só é razão de orgulho para os banqueiros e os generais. Como disse em velhos poemas, "minha pátria é o meu coração", e "ao sul de Mombaça, em qualquer sul/ eu teria o mesmo destino". Respondendo a sua pergunta complementar, não acredito que por ser nordestino a minha poesia tenha "um cunho mais personalizado". A convivência com o espírito de meu pai e, depois, a mais extraordinária descoberta de minha vida, a obra de Franz Kafka, me convenceram cada vez mais que o mistério da criação está na vida do criador. Sempre fui intelectual assalariado, sem dinheiro para comprar livros, e passei pelas grandes humilhações e vergonhas que acompanharam minha pobreza desde criança. Se eu fosse rico, certamente minha desgraça seria outra, de origem religiosa e paterna, como foi a de Kafka. Mas antes que me peguem pelo pé, adianto logo que não é só uma intensa infelicidade que pode gerar aquele mistério detonador da obra de arte personalizada. Pelo que me consta, o poeta grego Simônides de Ceos era filho de fazendeiro e teve um itinerário de alegrias e sucesso até a morte, em idade provecta. Tem uma poesia original, segundo os especialistas que analisaram seus fragmentos de poemas (não esquecer que sua trajetória coincidiu com a época das trevas, em Atenas, quando era rara a poesia escrita). Feliz ou infeliz, é na vida do poeta que se encontra o mistério de sua poesia. Quando digo isso, estou contrariando o new cristicism, o estruturalismo, o diabo a quatro. Essa posição não deixa de ser determinista, de um determinismo psicológico. Isso para minha tristeza, que exorcizei o determinismo geográfico de Taine e o sociológico de Madame de Stael e do grande Marx. Para finalizar, uma grande e longa desgraça ou uma longa e triunfal alegria só se tornam uma obra se passarem, é claro, pelo filtro do talento. | ||||
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Ivo Barroso : |
Recentemente seus amigos conseguiram inscrever sua obra (Meditação sob os Lajedos) num dos mais concorridos concursos literários do País, principalmente pelo alto valor do prêmio. Você perdeu para outro poeta inegavelmente inferior, graças a certas circunstâncias. Que acha você dos concursos literários e da possibilidade de haver isenção neles? | |||
| Alberto da Cunha Melo |
A poesia sempre foi, em tempos passados, para mim, o lado mais oculto e frágil de minha alma, e colocá-lo nu a correr numa maratona poética sempre me horrorizou. Meus inimigos não precisam apressar-se a dizer que havia a vaidade e a insegurança de ganhar. Isto houve, sim, mas devido ao medo de expor, na época, o que considerava o melhor de mim, minha única poupança, minha única riqueza e fonte de orgulho (pois sempre me detestei). Que eu me lembre, só me inscrevi voluntariamente em dois concursos poéticos, um da Prefeitura da Cidade do Recife, porque estava (como se fosse novidade) em sérias necessidades financeiras, e o da Casa de las Americas, de Cuba. O primeiro eu concorri com uma coletânea intitulada Voragem, e o vencedor foi um poeta do Sudeste. Quanto ao segundo, nem sei quem o ganhou. Com o passar dos anos fui tomando contato com livros ou poemas premiados, verificando que eram composições quase sempre de textura complicada e hermética, como se existisse um tipo de poesia para ganhar concurso, feita com o objetivo de empulhar as comissões julgadoras, compostas muitas delas por respeitáveis homens de letras. Ora, sem que o soubesse, a vanguarda formal deu-me como lema o ser raro e claro, e não o ser complicado e hermético, que para mim é o lema de uma grande parte dos poetas premiados. Mesmo assim, sempre apoiei os concursos de poesia, como admiraria os festivais de odes corais na Atenas do século VI a.C., as disputas entre poetas beduínos, com seus instrumentos, nas grandes feiras de Meca, na Arábia Saudita, e se pudesse estaria presente ao disputado canto amebeu, entre um poeta árabe e um poeta cristão, com suas violas, como estou presente, sempre que posso, aos desafios dos violeiros repentistas do Nordeste, estes um tesouro nosso ainda não devidamente conhecido pelo resto do Brasil. É estranho eu defender disputas poéticas quando sou mais pelo ritual do que pela competição e não apenas defender, mas também promovê-las como o Prêmio Anual Carlos Pena Filho (1984/1985) que criei e levei a efeito com o patrocínio do Bar Savoy e do Commercio Cultural duas páginas do Jornal do Commércio das quais fui editor por três anos. No entanto, há registros demais comprovando que a competição atravessa toda a História, do box ao xadrez, não deixam os prêmios literários de aqui e ali revelar concorrências desleais, acordos sub-reptícios e outros vieses morais. Apesar de tudo, admiro sinceramente a Votorantin pelo seu respeitável de R$100 mil, administrado pela Academia Brasileira de Letras, e, agora, dirijo também minha admiração para a empresa Portugal-Telecom, que lançou o maior prêmio literário deste país, R$150mil, um país que se tem revelado extremamente mesquinho para a literatura, para a poesia, com suas ridículas gorgetas de 1 e 2 mil reais, para premiar livros que levaram anos para serem escritos. Quando soube que meus amigos me tinham inscrito no Portugal Telecom, meu livro Meditação sob os Lajedos já estava entre os vinte que tinham passado na peneira do júri inicial, depois ficou entre os dez finalistas, e o júri para essa fase final era de apenas cinco jurados. Daí em diante, reuniões e reuniões dos jurados, terminei não ficando entre os três primeiros e, portanto, sem um tostão. Daí em diante, digo-lhe, Ivo, que sinceramente não entendi mais nada sobre o processo de seleção. O prêmio é importante, deve continuar, talvez alternando livros de ficção com livros de poesia, sem mistura de gêneros. Fiquei encantado com o tratamento que recebi do presidente da empresa (que nada tem a ver com o resultado dos prêmios), Eduardo Correia de Matos, e de sua diretora de comunicação, Ana Rita Leme de Mello. Trataram-me afetivamente e deram aos poetas finalistas um atenção cinco estrelas. |
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| 24 | Ivan Junqueira | Como você avalia a poesia que se faz hoje no Nordeste? | |||
| aAlberto da Cunha Melo | Não conheço as novas gerações. Mas, aqueles que têm mais ou menos a minha idade, e que continuam no batente, cujos livros têm chegado às minhas mãos, nada ficam a dever, talvez, aos de outras regiões. O problema de organizar um elenco dos nomes mais significativos, da altitude de um Nauro Machado e Hildeberto Barbosa Filho, por exemplo, é a falta de intercâmbio bibliográfico, apesar dos esforços envidados pelo mega-agitador cultural, Pedro Vicente da Costa Sobrinho. O que lhe posso dizer, pelo pouco que chegou às minhas mãos, é que me tem agradado mais aqueles que mantêm um certo vínculo com a tradição, revalorizando esquemas formais do passado. No entanto, como o Nordeste não é, poeticamente falando, uma ilha, mas um arquipélago de nove ilhas que raramente se intercomunicam, não posso responder a uma pergunta como a sua. Mesmo eu, que não posso ocupar-me inteiramente de literatura, que sou assalariado e tenho de assinar o livro de ponto todos os dias, caso houvesse uma distribuição interregional dos livros produzidos aqui, eu poderia dizer alguma coisa. Se isso é difícil, Ivan, avalie você as chances que têm os poetas nordestinos de serem lidos pelo resto do país.... | ||||
| 25 | Ermelinda Ferreira | Qual a sua opinião sobre a crítica literária e como vê a relação entre crítica e poesia? | |||
| O espaço para a crítica literária na imprensa escrita está se resumindo, cada vez mais, aos grandes jornais do país, porque os chamados suplementos literários têm sido suprimidos, como já falei, dos jornais da província. Lembro-me de que o Diário de Pernambuco, nos tempos de Mauro Mota, editava o suplemento literário e tinha entre colaboradores habituais um nome como o de Otto Maria Carpeaux. Cada vez mais a crítica vai se refugiando dentro dos ensaios de mestrado e doutorado das universidades. Mesmo essa crítica encaro platonicamente a obra literária como instrumento didático, que tem o dever de transmitir valores religiosos, éticos, políticos (vide a crítica marxista). Quando se transveste em crítica formal, aristotélica, que vê o poema como um valor estético em si, só mergulha na textura e, quase nunca, na estrutura do poema. Pega o texto e analisa as onomatopéias, as aliterações, as paranomásias, as prosopopéias, as hipérboles, as gradações e outras moléculas textuais, por exemplo. O poema em verso livre ainda não foi enfrentado como uma estrutura, não possui ainda uma taxionomia, e eu, para provocar os teóricos platônicos, com minha doidice, proponho uma classificação provisória, para aplicá-la em minha oficina privada. Se algum dia se abrir o espaço para a crítica, que seja para dar vez a Aristóteles, pois Platão já fez o estrago que deveria fazer, expandido nos quatro pontos cardeais uma crítica conteudística que seria mais própria para as Ciências Sociais e, sobretudo, à Filosofia. | |||||
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