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A INTERTEXTUALIDADEEM MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBASÉrika Maria Asevedo Costa
RESUMOMachado de Assis com a obra Memórias Póstuma de Brás Cubas rompe com o estilo tradicional, abre espaço literário para novas formas de criação, desenvolvendo uma técnica inovadora e revolucionária, lutando por uma expressão pessoal e por métodos de construção bastante singulares. A obra em questão é narrada por um “defunto autor”, ou seja, o narrador, que é o próprio protagonista, Brás Cubas. Este diz ao leitor que irá contar uma história de “outro mundo”, pois encontra-se já morto. Além de apresentar intersecções literárias com outras obras anteriores caracterizando uma obra rica em intertextualidade, tema do presente trabalho, aparece no texto machadiano: Alusão (menção a uma obra ou componente narrativa dela), Citação (retomada de um fragmento de outra obra) e Referências (termo que aparece explicitamente referente à outra obra). São estes três recursos que serão analisados no romance Memórias Póstumas de Brás Cubas. A dialógica ficção moderna de Machado se instaura no momento de instabilidade ideológica, num desafio às normas. Este modelo machadiano propõe mudanças que abrem espaço no processo narrativo para a modernidade. 1-
INTRODUÇÃO A proposta do trabalho, procede-se na investigação dos mecanismos construtores da intertextualidade em Memórias póstumas de Brás Cubas, tomando-os apenas como núcleos de nossa abordagem a referência, a alusão e a citação. Serão também examinadas as implicações de relação da obra citada com outras obras literárias. Lembrando que não terá a pretensão de analisar todos os casos e mecanismos intertextuais de Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas apenas com algumas das obras resgatadas por Machado. Deve-se, porém, deixar bem claro que apenas Memórias Póstumas, na condição de obra narrativa ficcional, deverá constituir o único e essencial objeto desse trabalho, pois o que visa é o texto em si mesmo. Trata-se, portanto, de tomar o texto em sua imanência, fazendo dele nosso ponto de partida e de chegada, retornando sempre a ele mesmo, para nele descobrir e dele retirar, passo a passo, os elementos que podem explicar a intertextualidade da obra citada. A análise foi desenvolvida em três partes. A primeira consiste na investigação teórica sobre vários aspectos importantes da intertextualidade. Na segunda, refere-se a leitura crítica de Memórias Póstumas de Brás Cubas, abordando e destacando os casos de intertextualidade. A última etapa representa uma análise geral do levantamento, isto é, uma interpretação dos dados fichados, concluindo a abordagem. 2-
PRESSUPOSTOS TEÓRICOS Este Trabalho foi baseado na abordagem do pensador russo Mikhail Bakhtin em Questões
de Literatura e de Estética - o qual retrata a
possibilidade de os textos serem criados a partir de outros textos. Parte-se do pressuposto apresentado por Kristeva: Todo texto se constrói
como mosaico de citações, todo texto é uma retomada de outros
textos. Na apropriação pode-se dar desde a simples vinculação a
um gênero, até a retomada explícita de um determinado texto. 3-
OS VÁRIOS MECANISMOS LINGÜÍSTICOS DE REALIZAÇÃO DA
INTERTEXTUALIDADE
No levantamento realizado dos momentos intertextuais
presentes em Memórias Póstumas de Brás Cubas destacam-se
os mecanismos da: referência, alusão e citação.
A partir da nota “Ao Leitor” evidencia-se a
intertextualidade da obra, com que Brás Cubas dá início à suas Memórias,
observam-se referências a autores estrangeiros (Sterne, Xavier de
Maistre e Stendhal). O crítico Antônio de Macedo Soares, na
terceira edição da obra mencionada, comenta que o livro lembra as Viagens
na minha Terra de Garret, como confirma o próprio Brás Cubas
quando ressalta Toda essa gente viajou: Xavier de Maistre
à roda do quarto, Garret na terra dele, Sterne na terra dos outros.
De Brás Cubas se pode dizer que viajou a roda da vida. Segundo Brás Cuba, sua obra foi influenciada por Tristram Shandy (1760/1767), de Laurence Sterne, publicada mais de um século antes de Memórias Póstumas. Na narração Sterne utiliza um narrador – personagem que relata tudo quanto vem à consciência a semelhança de Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas. Tristram interrompe o discurso para dar opiniões, explicar cenas, definir termos. Fato comum na ficção machadiana, característica que Machado utiliza no processo narrativo, quando o narrador dirige-se freqüentemente: No capítulo O Delírio (cap. VII, p. 14) há uma referência a Ilíada
(canto XIX, v. 320-9), do poeta épico Homero (séc. IX
ac.) Xanto um dos cavalos de herói Aquiles, recebe da deusa Juno o
dom da fala e prendiz a morte próxima do guerreiro. Já em Razão contra Sandice (cap VIII, p. 18) há uma referência ao personagem Tartufo da peça homônima do dramaturgo francês Moliere - cognome da Jean Baptiste Poquelih – (1622-1673). Tartufo se insinua na casa do crédulo Orgon e obtém dele a promessa da mão de sua filha e a doação de suas propriedades. Já em O Menino é Pai do Homem (cap. XI, p. 20) ocorre uma referência ao poeta inglês William Wordsworth (1770-1850) e a um verso do poema “Meu coração sobressalta”: Em Um Episódio de 1814 (cap. XII. p. 24) existe uma
referência ao poeta português , Manuel Maria Barbosa du
Bocage (1765-1805): repentista
privilegiado, que ficou conhecido por seus poemas líricos e satíricos. No mesmo capítulo encontra-se uma referência a Antônio José da Silva (1705-1739), dramaturgo nascido no Rio de Janeiro, que viveu em Portugal desde os oito anos. Conhecido por “Judeu”, tem suas peças classificadas como óperas por pedirem acompanhamento musical. Já em Marcela (cap. XV, p. 30) faz referência à peça Macbeth, de William Shakespeare, cuja trama é desencadeada por um trio de feiticeiros que instigam Macbeth à sua trajetória trágica e ambiciosa. No capítulo Visão do Corredor (cap. XVIII, p. 33) referência ao ciclo de narrativas As mil e umas Noites quando cita o personagem Bakbarah que sofre todo tipo de humilhações ao entrar num palácio em busca de uma bela mulher e termina expulso e espancado. Quanto a Volta ao Rio (cap. XXII, p.39) faz referência ao poeta George Gordon Noel Byron (1788 – 1824) que foi o mais representativo poeta romântico inglês. Na Tijuca (cap. XXV, p. 42) ocorre uma referência a uma passagem da cena I, ato IV, da peça As you like it (Como queira), de Shakespeare. Em O Autor Hesita (cap. XXVI, p. 43) há uma referência ao
verso de abertura de Eneida, de Virgílio, o mais importante poeta
romano. Arma virumque cano: “canto as armas e o varão”, em
latim.. Em Virgília Cansada (cap.L, p. 63) faz referência aos amantes Francesca de Rimini e Paolo Malatesta, que viveram no séc. XIII e foram imortalizados por Dante Alighieri no Canto V do “Inferno”, uma das três partes de A divina comédia. Francesca e seu cunhado Paulo Consumam o adultério motivados pela leitura de um livro que relatava os amores adúlteros entre a Rainha Guinever e Sir Lancelote, do ciclo de aventuras da Távola Redonda. Em
Destino (cap. LVII, p 68.) há mais
uma referência ao poeta italiano Dante Alighieri (1265 – 1321).
Já em Um Encontro (cap.LIX, p. 70) ocorre referências aos oradores sacros Jacques Bénigne Bossuet (1704) 1627)- e Pº Antônio Vieira (1608-1697), respectivamente francês e português, mestres do ofício. Vieira denunciava em seus sermões os problemas sociais do Brasil colonial, criticando e ganância, a injustiça, a corrupção. Bossuet, em sua obra Orações fúnebres, empregou pompa e solenidade para descrever as desventuras e o caráter de príncipes finados. Em
A Ponta Do Nariz (cap. XLIX,
p.61) ocorre uma referência
ao personagem Dr. Pangloss
do romance satírico Cândido, do filósofo e escritor francês
Voltaire (1694-1778) – cognome de Francois-Marie Arouet –,
representado este a encarnação do otimismo infundado e do
finalismo, sistema filosófico segundo o qual tudo tem um fim
determinado.
Em Suprimido (cap. XCVIII, p.104) há uma referência ao personagem Otelo, tragédia de Shakespeare . Na Platéia (cap. XCIX, p.105) ocorre referência a peça teatral Prometeu acorrentado do poeta Ésquilo (c. 525-456 a.C.), baseada em episódio mitológico. Prometeu é um semideus que se apropria de prerrogativas divinas e é condenado por Zeus; Há também, no mesmo parágrafo uma referência ao protagonista da obra As viagens de Gulliver, ou seja, o personagem Gulliver, do escritor irlandês Jonathan Swift (1667-1745). Numa das suas viagens Gulliver chega a Lilliput, terra habitada por um povo minúsculo; é amarrado e feito prisioneiro, mas ele rompe as cordas num único gesto. O narrador em Distração (cap. CIII, p. 107) faz uma referência ao poema épico, Os Lusíadas, composto de estrofes de oito versos, de Luís de Camões (c. 1524-1580), um dos maiores escritores portugueses; Continuando no mesmo parágrafo há uma referência ao compositor italiano Giovanni Bellini ( 1801-1835) com a ópera Norma, que era muito popular à época. O defunto-autor em Que Se Não Entende (cap. CVIII, p. 110) faz mais uma vez referência a Otelo, que suspeita de sua mulher e, enlouquecido pelo ciúme, termina por assassiná-la. Na Filosofia das Folhas Velhas (cap. CXVI, p. 115) há referência ao poeta lírico grego Anacreonte (c. 560-478 a.C.); cujos poemas versam sobre os prazeres do amor e do vinho: a chamada poesia anacreôntica do Renascimento foi inspirada por sua obra. Já Sem Remorsos (cap. CXXIX, p. 124) faz referência ao Canto XXIV, da Ilíada em que o guerreiro grego Aquiles mata Heitor e arrasta o cadáver em volta das muralhas de Tróia, até que as súplicas de Príamo, rei de Tróia e pai de Heitor, convencem-no a restituir o cadáver, e a tragédia Macbeth na qual Lady Macbeth, depois de instigar o marido a matar o Rei Duncan, da Escócia, tem alucinações em que vê suas mãos manchadas de sangue. Em De Uma Calúnia (cap. CXXI, p. 125)há referência ao ensaio do amor, de Stendhal, o qual já é referenciado na advertência ao leitor, obra na qual o amor é classificado em quatro categorias: amor-paixão, amor-gosto, amor-físico e amor – vaidade. Em Que Explica o Anterior (cap. CXL, p. 130) Voltaire autor que se tornou conhecido pelas suas sátiras implacáveis e idéias não ortodoxas, as quais na época importunavam a políticos e a eclesiásticos.
No capítulo denominado, Óbito do Autor (cap. I, p. 7) o narrador faz uma alusão, ao personagem Shakepiriano, Hamlet, príncipe da Dinamarca. Reflete sobre os pesares e hesita entre subjugar-se ao destino ou enfrentá-lo com risco da própria vida. Ao mesmo tempo parece-lhe que todos temem a “terra desconhecida, pois Brás também faz uma reflexão sobre este país desconhecido que metaforiza a existência humana, como pode-se observar no trecho: Bom e fiel amigo! Não, me arrependo das vintes apólices que lhe deixei. E foi assim que cheguei à clausura dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado e trôpego, como quem se retira tarde do espetáculo. Quanto ao capítulo Visão do Corredor, (cap. XVIII, p.33) faz uma alusão ao episódio lendário narrado na Ilíada, em que, durante a Guerra de Tróia (séc. XII a.C.), a cidade foi tomada graças ao estratagema do gigantesco o cavalo de madeira, abandonado às portas de Tróia. No interior do artefato se escondiam gregos e, imprudentemente, os troianos levaram-no para dentro dos muros da cidade. Deriva daí a expressão presente de grego: No fim da escada, ao fundo do corredor escuro, parei alguns instantes para respirar, apalpar-me, convocar as idéias dispersas, reaver-me enfim no meio de tantas sensações profundas e contrárias. Achava-me feliz. Certo é que nos diamantes corrompiam-me um pouco a felicidade; mas não é menos certo que uma dama bonita pode muito bem amar os gregos e os seus presentes. Em a Questão de Botânica, (cap. LXXXII, p.90) há uma alusão a história de Hamlet – personagem da peça homônima do poeta dramaturgo inglês William Shakepeare. Disse
isto, e foi para dentro. Eu deixei-me estar com os olhos no lampião
da esquina – um antigo lampião de azeite –, triste, obscuro e
recurvado, como um ponto de interrogação. Que me cumpria fazer?
Era o caso de Hamlet: ou dobrar-me à fortuna, ou lutar com ela e
subjuga-la. Por outros termos: embarcar ou não embarcar. Esta era a
questão. §
Citação Ocorre em O Emplasto (cap. II, p. 8) uma citação “Decifra-me ou devoro-te”: frase com que a esfinge, monstro da mitologia grega, híbrido de leão e mulher, iniciava a proposição de enigmas ao transeuntes, devorando os que não conseguissem responder-lhe. Com
efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara,
pendurou-se-me uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma
vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais
arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer. Eu deixei-me
estar contempla-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços
e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te. Já em O Cimo da Montanha (cap. LXXXV, p.93) ocorre uma alusão a Scheherazade ou Sherazade: narradora das Mil e uma noites. Para evitar ser executada por ordem do sultão na noite de núpcias, ela atrai sua curiosidade narrando uma aventura a cada noite; ao final o sultão suspende a sentença. E assim reatamos o fio da aventura, como a sultava Scheherazade o dos seus contos. 4-
ANÁLISE DOS MECANISMOS INTERTEXTUAIS EM MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS
CUBAS Percebe-se que a obra de Machado de Assis se constrói dentro da multiplicidade de textos pré-existentes. A rede intertextual das referências produz relações significativas entre discursos, fixando um novo horizonte de expectativas no criador e no leitor. O autor funciona como agente semiótico da dialogação textual, na medida que, transforma as referências a outras obras em uma plurienunciação em harmonia intertextual através de mecanismos precisos como referências, alusões e citações de outras obras existentes.
A legibilidade do texto se impõe pela repetição. A
intertextualidade é apreendida na obra literária através dos arquétipos
que codificam as formas de uso da linguagem secundária que é a
literatura. Face aos modelos arquétipos, a obra literária entra
sempre numa relação de transformação ou de transgressão.(Laurente
Jenny. 1979. p. 5.)
Memórias Póstumas de Brás Cubas estrutura-se a
partir de formas e obras anteriores, repensadas, reelaboradas. Os vários
textos confluem dentro da obra convergindo para sua totalidade. Na
relação texto, contexto e intertexto, a narrativa se mantém
dentro de uma sintagmática. Constituindo por uma multiplicidade de
fragmentos de discursos e micro – discurso a prática intertextual
impõe ao texto um rompimento com a linearidade da narrativa.
Vistos como formas simples, como foi conceituado por Jolles,
ou pertencente ao domínio da tradição oral, todo o material lingüístico,
provindo de textos heterogêneos, ficaria reduzido a determinação
de suas fontes. A harmonização intertextual preocupa-se em
unificar o texto ao extratexto e ao intertexto. É pela sintaxe
que se liga certo fragmento recuperado o seu novo contexto, no seio
duma frase cuja gramaticalidade assegura a plausibilidade. (Laurente
Jenny. 1979,p.34) Laurente Jenny, no seu “trabalho Intertextual”, ressalta a importância da isotopia assegurando a unicidade de fragmentos enxertados no texto. Tais “fragmentos intertextuais vão jogar com a sua ambigüidade, e vão lançar para o contexto, um feixe de virtualidade combinatórias. O fragmento intertextual se comporta como uma palavra poética na sua relação com o contexto, com tudo o que isto significa de variações estilísticas, de incontrolável, de inadequação. Segundo Laurente Jenny, existe três determinações isotópicas que a intertextualidade exige. Essa montagem de natureza estilística se assenta nos seguintes tipos de relações semânticas: 1.
Isotopia metonímica: um fragmento textual é utilizado,
chamado, porque permite prosseguir com uma precisão muitas vezes em
primeira mão o fio da narração. 2.
Isotopia metafórica: um fragmento textual é convocado por
analogia semântica com o contexto. 3.
Montagem não isótopa: um fragmento textual está inserido
num contexto sem nenhuma relação semântica, a priori, com ele. Verifica-se que a inserção das referências, citações, alusões da obra Memórias Póstumas de Brás Cubas faz parte de um processo narrativo de Machado o qual através desse processo determina um elo de ligação entre o enredo e as obras mencionadas. As referências, citações e alusões funcionam como “ajudantes mágicos” por constituírem verdadeiros mecanismos intertextuais que colocadas no texto permitam prosseguir o fio do enunciado. Com um jogo de recordações associativas que o narrador faz utilizando os mecanismos citados, encaixando-os para esclarecer o significado da narrativa, indicando pela voz de outrem uma direção de leitura. Memórias Póstumas de Brás Cubas se inscreve numa relação com uma multiplicidade de outros textos que nele circulam. A obra sofre a angústia de romper com o passado e impor o novo. O trajeto do texto é percorrido pelo narrador defunto – autor moldados na bricolagem que percorre a cultura do autor, o texto é marcado por episódios de obras inseridos no contexto trazendo uma relação aparente com ele. 5- CONCLUSÃO Empreendeu-se a análise de Memórias Póstumas de Brás Cubas, na qual delimitou-se os recursos intertextuais que concorrem para a articulação do texto machadiano com outros. Dentre esses recursos relacionou-se a alusão, a citação e a referência, como objeto de estudo. Para Paulino esses recursos são apreciações tidas como fracas, pois não comprovam o texto integralmente, mas apenas pequenos trechos deste. Na abordagem adotada está implícita a abrangência do campo de leitura que esta obra oferece e que atualizada no âmbito da criação deu origem à forma inovadora do processo literário machadiano. A projeção do texto, elaboradíssimo de Machado de Assis leva, a amplos lances no domínio da narrativa moderna, numa movimentação em torno dos processos ficcionais sugeridos pelo modo de formar a obra. Machado de Assis oferece ousadia na sua conquista, com uma obra onde a crítica considera o seu processo narrativo inovador, comparado a outras obras similares da época. Memórias Póstumas de Brás Cubas avança numa perspectiva nova, voltada para o trabalho de “bricolagem” em que o “pensamento mágico é medido pelo jogo de arte”. As citações, referências e alusões que na sua escrita obedecem ao exercício da memória dos antigos aedos ditados pelo fazer poético, que vai projetando no texto um jeito desabrido do léxico e do ritmo frásico, soltos. O trabalho de organização artística desta variada confluência de registros atesta a seriedade de Machado de Assis no reconhecimento do complexo sistema de formas de escrever. Acolhendo e assimilando esta variedade de textos dentro da obra, o autor constrói o resultado da urdidura de suas leituras e talvez até experiências pessoais. Instala-se no texto o tratamento lúdico e intertextual de formas e feitos que contribuem para a feitura do discurso Machadiano, todo ele engendrado remetendo a obras anteriores. A escrita que comanda o discurso obedece a memória do narrador proporcionando uma extrema liberdade na criação, que procura romper modelos, transgredir e esquecer lições. O entrecruzamento das formas simples, vistos como mini-discursos no espaço machadiano, leva-nos a retomar as questões da intertextualidade responsável pelo comércio dialógico e polifônico da produção literária. A intertextualidade estende-se até à ficção Machadiana instituindo uma intensa movimentação da narrativa dialogizada. Machado acolhe e desloca a fala do narrador, plasmando um discurso que se funda no dialogar de estilos vários, trazendo à tona cogitações em torno da identidade do discurso.
O trabalho intertextual em Memórias Póstumas de Brás Cubas
exerce uma função crítica sobre a forma, cuja intencionalidade é
re-enunciar o já-dito, onde os textos citados denunciam uma retórica
que embeleza e esconde sua verdadeira face.
Na verdade, através de citações, referências e alusões a
obras anteriores Machado cria um outro discurso, consegüentemente
mais poderoso. Abrindo brechas para mostrar que todo texto é uma
retomada de outros textos. 6-
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Editora EDUSP, 1999, p. 81. BOSI, Alfredo; GARBUGLIO, José Carlos; CURVELLO, Mario e FACIOLI, Valentim. Coleções Escritores Brasileiros, Antologia & Estudos: Machado de Assis,1º volume. 1ª edição, São Paulo; Editora Ática, 1982, p. 526. BRAYNER, Sonia. Labirinto do Espaço Romanesco.1ª edição, Rio de Janeiro; Editora Civilização Brasileira – MEC, 1979, p.322. CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira. 7ª edição, Belo Horizonte; Editora Itatiaia, 1993, p. 150. JENNY LAURENET et all. Poétique - Intertextualidade– Revista de Teória e Análise Literária. Única edição, Coimbra; Editora Almetina, 1979, p. 232. MOISÉS, Leyla Perrone. A Intertextualidade Crítica Poétique. Edição 27, Coimbra; Editora EDUSP, 1979, p. 209-221. MOISÉS, Massaud. Machado de Assis: Ficção e Utopia. 10ª edição, São Paulo; Editora Cultrix LTDA, 2001, p. 151. MOTA, Lourenço Dantas & JUNIOR, Benjamin Abdala. Personae. 1ªedição, São Paulo; Editora SENAC, 2001, p. 324. PAULINO, Graça; WALTY, Ivete; CURY, Maria Zilda. Intertextualidades: teoria e prática. 4ª edição, Bolo Horizonte; Editora Lê, 1998, p. 155. SOUZA, Eneida
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Mário de. Macunaíma; o herói sem nenhum caráter. LOPEZ, Telê P.
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Latino-américaine, des Caraïbes et africaine du XXe siècle. Edição
única, Brasília; Editora CNPq, 1988, p.295-308.
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